
Confesso que logo após a tomada de posse da vereação, oriunda das eleições autárquicas de Outubro passado, fiquei apreensivo não só pela redução do número de vereadores com pelouros atribuídos (o presidente da autarquia persiste na defesa do princípio de que apenas os vereadores eleitos pela lista maioritária é que devem exercer funções efectivas), mas também pelo facto de concentrar na mesma personalidade a gestão das actividades culturais e desportivas. Digo isto porque a priori se tratam de duas actividades que me perecem requerer sensibilidades distintas e porque, conhecida que é a tendência para os poderes públicos do nosso país sobrevalorizarem a vertente desportiva relativamente à cultural, o vereador que acumular os dois pelouros vai, certamente, transformar-se num alvo fácil para críticas.
Com a iniciativa agora noticiada a preocupação que me assaltava toma ainda maiores proporções porque das duas uma: ou a renomeada ALDESC vai contratar um especialista em programação cultural (algo que me parece muito pouco provável em face do clima de contenção financeira que a autarquia diz viver) e conhecer um modelo de direcção bicéfalo – com um gestor para as actividades desportivas e outro para as culturais – ou quem venha a assegurar a vertente cultural (especialista ou “amador”) funcionará numa situação de dependência de um gestor muito mais orientado para a vertente desportiva (é claro que pelas razões anteriormente aduzidas nem equaciono a hipótese inversa).
Mais preocupante que o modelo de gestão para a nova empresa municipal é o que dele pode resultar para a cultura local.

O novo espaço já registou alguns espectáculos interessantes e variados (música, dança, teatro e cinema) e mais salutar ainda porque alguns foram assegurados por colectividades do concelho (o dia da inauguração foi disso uma boa mostra) que, teimosamente, vão procurando manter viva uma prática que nos tempos em que o volume de oferta de entretenimento doméstico (televisão) era nula, conheceu êxito entre o público local. Porém, a sua dinamização não pode continuar dependente apenas de uma entidade como a ARTEMREDE – que congrega 16 municípios da região de Lisboa e Vale do Tejo e tem por missão a oferta de espectáculos nas diferentes salas associadas – nem (admitindo que as minhas reservas se venham a revelar infundadas) das iniciativas que a ALDESC venha a promover. Como espaço colectivo que é deverá ser objecto de utilização pelas colectividades culturais do concelho, as quais não podem nem devem alhear-se do exercício de um papel activo na oferta e diversificação culturais que o espaço possibilita.
Se as colectividades produzirem espectáculos, se a ARTEMREDE e a ALDESC vierem a produzir um trabalho de divulgação das diferentes vertentes culturais, se a autarquia lograr pôr em funcionamento um sistema de divulgação de informação sobre aquela programação (indispensável para atrair a presença do público), poderão estar reunidas as condições para que finalmente Almeirim conheça o florescimento cultural que a sua população merece e que em especial a faixa mais jovem precisa para um desenvolvimento social mais equilibrado e completo.
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