sábado, 22 de julho de 2017

ALDRABICES

No quadro da apresentação dum candidato à Câmara do Funchal, o primeiro-ministro António Costa afirmou que os «Lesados do Banif confiaram "num sistema que os aldrabou"»,o que só poderá espantar por vir de onde vem: um chefe de Governo que há semelhança dos antecessores tem mantido intactas as prerrogativas dum sistema financeiro vocacionado para servir os interesses do capital especulativo.


Os chamados “lesados do BANIF” (como acontece com os “lesados do BES” e outros “lesados por outros bancos”) surgiram na sequência de processos de resolução dos bancos cujos clientes adquiriram produtos financeiros (acções, papel comercial e outros títulos financeiros) que sofreram degradações acentuadas de valor. Infelizmente este não é um tema novo nem ficará seguramente esgotado com qualquer que seja a solução proposta para compensação daqueles “lesados” que na sua maioria são clientes particulares (pequenos aforradores) aliciados pela perspectiva de ganhos superiores aos dos depósitos a prazo ou dos títulos do Tesouro.

E aqui começam dois problemas; os bancos venderam aos seus clientes de retalho (maioritariamente sem a cultura financeira indispensável à correcta avaliação dos riscos envolvidos) produtos financeiros nos quais detinham interesses directos (eram emitidos pelo próprio banco ou por empresas suas participadas), aliciando-os com a perspectiva de ganhos acima do normal. Segundo, fizeram-no através da respectiva rede comercial usando empregados igualmente desconhecedores dos riscos associados aos produtos que estavam a vender, aliciados a fazê-lo graças a mecanismos de prémios ou , pior, mediante pura e dura coacção psicológica.

Nada disto constitui problema novo (veja-se o post «A BANCA NA JUSTIÇA?», que escrevi em Abril de 2007 a propósito dum “problema” então surgido no BCP com a venda na rede de retalho de acções do próprio banco, onde o despautério chegou ao ponto de “oferecer” crédito para a realização da operação) nem a solução poderá deixar de passar por uma radical mudança na regulamentação da actividade bancária que imponha a separação entre a actividade de banca comercial (captação de depósitos e colocação de crédito) e a da banca de investimento.

É claro que «António Costa não tem dúvidas de que lesados do Banif foram aldrabados», nem eu tenho a mínima dúvida que este é um tema que continuará sem solução óbvia à vista, tanto mais que é um problema geral duma economia onde a especulação continua a importar mais que o investimento produtivo.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

PODEMOS CONFIAR?

O Comissário Europeu, Pierre Moscovici, passou por cá e terá dito que o «crescimento de Portugal poderá ficar acima de 2,5% este ano» (previsão que revê muito em alta a anterior estimativa de 1,8%); eufórico, o sr. «Moscovici considera “impressionante” progresso de Portugal. “Podemos confiar nesta economia”»... mas será que podemos confiar no Sr Moscovici?


É que os entusiastas de agora são os mesmos que antes nos impuseram a “canga” duma austeridade que o inefável duo Passos Coelho/Paulo Portas transformaram numa inenarrável “austeridade expansionista” e que afirmaram aos quatro ventos (ou a quem lhes desse ouvidos) que não havia alternativa! Como já tenho referido algumas vezes (por exemplo no post «AFINAL HÁ ALTERNATIVA»), o melhor da passagem de António Costa por São Bento é a comprovação de que existem alternativas... podem nem sequer ser as melhores, mas são alternativas.

A minha desconfiança perante tanto entusiasmo resulta principalmente de continuar a pensar que o principal problema do país – a monumental dívida (pública e privada) – persiste e pouco ou nada tem sido feito para a solucionar, ou sequer contrariar. E em especial porque tal só será exequível num cenário europeu que recentre as suas preocupações numa redefinição das “regras do jogo” onde todo o mecanismo de funcionamento da moeda única seja revisto e corrigido, como escrevi (entre outros) nos posts «O PAPEL DOS BANCOS CENTRAIS» e «AS PROPOSTAS DOS “ECONOMISTAS ATERRADOS” - III», de forma a transformar o BCE no principal financiador dos Estados.

terça-feira, 11 de julho de 2017

SENTIDO

Enquanto continua por esclarecer o assalto aos paióis de Tancos e grassa algum mal-estar nas fileiras castrenses, proliferam as notícias, os comentários e as polémicas sobre o assunto, parecendo cada vez mais evidente que o «Furto de armamento em Tancos humilha Exército» e adequada a atitude onde o CEME, «General Rovisco Duarte afasta responsabilidade do Governo no assalto a Tancos».


Além das notícias que dão um grupo de «Mercenários suspeitos de assalto em Tancos» e deixando no ar a possibilidade de concluio com militares no activo, ainda tivémos que suportar o vexame de saber que a imprensa de «Espanha divulga a lista de material roubado em Tancos», continuamos a assistir aos comentário diários de quem opina sobre tudo e pouco sabe sobre o assunto, como bem se refere neste artigo de opinião do EXPRESSO.

No campo das explicações apontam-se a redução das despesas com gastos militares, sendo especialmente caras a PSD e CDS as que culpam o recurso às cativações orçamentais praticadas pelo actual governo esquecendo que a referida política de redução vem sendo praticada há décadas e que nos últimos anos foi imposição da “troika”; ao invés Sarsfield Cabral refere no seu artigo «Repensar o serviço militar» a perca de importância social (com evidentes reflexos na esfera orçamental) da estrutura militar e lembra a estranha opção pelo fim do Serviço Militar Obrigatório, decidido em 2004 pelo então ministro da Defesa, Paulo Portas.

É claro que o sucedido é fruto dum conjunto de factores, onde avultam todos os enunciados – redução dos gastos militares, desprestígio e dificuldade no preenchimento dos quadros – e talvez mais um que ainda não vi referido: o aviltamento generalizado resultante da aplicação duma política de “austeridade-expansionista” justificada como se duma expiação colectiva se tratasse. Reduzir em simultâneo o rendimento das famílias e as prestações sociais como forma de punição da sociedade (não se traduz apenas em efeitos económicos mas também na redução da auto-estima colectiva) e estará agora a revelar a sua pior face, pelo que corremos o risco deste grave episódio constituir apenas o primeiro de vários...

quarta-feira, 5 de julho de 2017

COSMÉTICA DE ALTO RISCO

Com a aproximação da próxima cimeira do G20, que terá lugar este fim-de-semana em Hamburgo, e depois de notícias onde se assegura que «Trump prepara guerra comercial global antes da cimeira do G20» eis que o mesmo preparou uma pequena paragem na Polónia para melhorar a sua imagem.

Isto mesmo foi anunciado pelo LE MONDE numa notícia onde não esquece de referir a grande proximidade de ideias entre o partido no poder em Varsóvia (o PiS, Partido da Lei e da Justiça liderado pelo inefável Jaroslaw Kaczynski) e o próprio Trump, com especial destaque para as ideias populistas anti-emigração e anti-islâmicas, o nacionalismo e o soberanismo. Estas posições, claramente assumidas pelo governo da senhora Beata Szydlo em questões como emigração e as liberdades cívicas, ver-se-ão reforçadas com a visita dum presidente americano que espera em troca um “banho de popularidade” para efeitos de propaganda interna numa altura em que até se diz que os «Americanos confiam mais na CNN que em Donald Trump».


Claro que existem outras razões para esta opção de Donald Trump – fala-se de interesses norte-americanos no fornecimento de gás e da polémica questão duma NATO onde a Polónia parece ser um dos poucos países que cumpre a tal quota dos 2% do PIB em gastos militares – e a situação na Europa não pode deixar de ser uma delas, tanto mais que está prevista a participação de Trump numa reunião da Cimeira dos Três Mares (uma iniciativa polaca e croata que agrega uma dúzia de estados entre os mares Báltico, Adriático e Negro, organizada para retratar a Polónia como uma espécie de líder regional em oposição ao eixo Paris-Berlim) algo que é visto com enorme suspeita no resto da Europa.

Mas será que o Brexit em desenvolvimento (com o que isso significará duma ainda maior convergência de interesses entre o Reino Unido e os EUA) e uma estratégia americana aparentemente errática pode, como hoje mesmo escreveu Adriano Moreira no DN, “...ter efeitos colaterais positivos, porque a pressentida quebra da solidariedade atlântica, pela incerta visão do parceiro americano, tem sinais de reanimar a solidariedade da União...”, ou o seu resultado será um aprofundamento da crise de liderança da UE, quando ninguém esconde que a «Visita de Trump à Polónia aumenta receios de mais divisões na Europa»?

sábado, 1 de julho de 2017

ALÔ, ALÔ!?!?

Se no plano económico não têm faltado boas notícias para o governo de António Costa, agora que até o «FMI aplaude progressos e diz que meta do défice pode ser atingida “confortavelmente”», já no plano político as últimas semanas têm sido madrastas.

Primeiro foi aquele fatídico incêndio florestal que ceifou mais de meia dezena de vidas e depois o estranho caso do assalto aos paióis de Tancos. Se neste último o «Ministro da Defesa assume "responsabilidade política" pelo assalto a paióis em Tancos», no primeiro continuamos a assistir ao espectáculo diário do pingue-pongue de desculpas entre os diferentes intervenientes sem que até agora a respectiva ministra, Constança Urbano de Sousa, tenha dado o menor sinal de entender o cerne do problema: um ou vários dos organismos que tutela falharam em situação de elevada pressão. Enquanto o seu colega de governo, Azeredo Lopes, já veio assumir publicamente as suas responsabilidades – nem que seja pelo simples facto de dirigir o ministério que tutela o exército e as instalações objecto de furto – a Ministra da Administração Interna estará talvez à espera que seja o Primeiro Ministro a apontar-lhe a solução.


É claro, para quem queira analisar as duas ocorrências com um mínimo de objectividade, que os infaustos acontecimentos poderiam ter ocorrido neste ou noutro qualquer governo; a falta de ordenamento florestal, o abandono dos campos e desertificação do interior do país datam de há décadas sem que tal pareça alguma vez ter incomodado estes ou os anteriores governantes. A insistência na opção por uma estratégia de combate aos incêndios no lugar da sua prevenção foi escolha de vários governos, assim como o foi a do famigerado sistema SIRESP (Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal), envolto em polémicas (seja pelos custos, estimados em mais de 500 milhões de euros, seja pelas ligações ao universo BPN de alguns “parceiros” no negócio ou pelas recorrentes queixas sobre as suas falhas) desde a primeira hora.

Importante agora era que desta vez não ficassem dúvidas sobre os efectivos esforços para colmatar os erros e que as explicações não se resumam, como habitual, a um confortável processo de difusão de culpas. Isto é o mínimo a esperar para que o governo, que tão bem tem sabido demonstrar que, ao contrário do que afirmavam Passos Coelho e Paulo Portas, havia alternativas na aplicação duma política de contenção orçamental que não a transformasse num processo de radical empobrecimento dos portugueses, mantenha a credibilidade que soube conquistar.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

2019 A RECOMPOSIÇÃO DUMA NOVA EUROPA? (PARTE II)

Vimos no post anterior que a estratégia múltipla de Theresa May:
  •          reforçar a sua maioria parlamentar para avançar com a opção do hard Brexit;
  •          assegurar que até Maio de 2019 (data limite para o período de negociação com a UE), nada iria prejudicar a sua liderança;
  •          travar as tendências autonomistas da Escócia (que no referendo rejeitou o Brexit) e da Irlanda do Norte

assentou numa certa leitura sobre a opinião pública britânica e num esperado efeito dominó no continente que não se concretizou.

O mau resultado pode, ainda assim, traduzir-se num alívio das tendências separatistas porque na Escócia a descida do SNP (Partido Nacional Escocês, pró-independência) e na Irlanda a subida do Sinn Fein (a expensas dos separatistas) poderão atenuar aquelas tendências, ficando para avaliar os efeitos da aliança com os unionistas irlandeses do DUP (Partido Unionista Democrático, cujas origens remontam a Ian Paisley e ao Partido Unionista Protestante) que permitirá a sobrevivência política de Theresa May.

Resultado igualmente importante das eleições britânicas foi o claro afastamento dos defensores internos do hard Brexit, expresso no afastamento do UKIP do novo parlamento.

Claro que permanecem grandes incógnitas sobre o futuro do Reino Unido e da UE, que irão sendo respondidas à medida que avancem as negociações sobre o Brexit ou que resista a aliança dos tories (conservadores ingleses) com o DUP irlandês.


Duma forma ou outra o governo de Theresa May apresenta-se agora numa posição negocial bem mais frágil e se a hipótese dos britânicos procurarem um hard Brexit parece menos plausível ela não desapareceu de todo, passando a depender de algo não menos preocupante... a nomenklatura de Bruxelas que tão fracas provas tem dado na gestão de crises.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

2019 A RECOMPOSIÇÃO DUMA NOVA EUROPA? (PARTE I)

Depois dos resultados das recentes eleições na Europa (Austria, Holanda, França e Reino Unido), se a crise grega demonstrou a necessidade de mudar a Europa, o Brexit abriu essa possibilidade. Dito isto, durante um ano, foi difícil perceber como tudo poderia terminar: à moda inglesa (conduzindo-nos a uma recomposição das alianças) ou à maneira continental (mantendo os principíos unificadortes mas recuperando, de alguma forma, o controlo das intituições).

O sinal de mudança não derivou da votação britânica, antes das votações nos estados europeus que reafirmaram a sua lealdade aos princípios da comunidade europeia que obrigará um Reino Unido  que tinha apostado na fragmentação da UE a repensar a estratégia para encontrar uma forma de se manter ligado ao continente sem perder a face e salvar a sua própria união.

A intenção de Theresa May com a antecipação das eleições seria uma espécie de segundo referendo e um reforço da estratégia duma negociação dura com a UE, mas o resultado acabou por lhe ser desfavorável (à sua estratégia e aos interesses do sector financeiro que vêem no hard Brexit uma hipótese de manutenção de algum do actual poder da City), havendo até quem já levante a hipótese de ter colocado em dúvida o próprio Brexit.

Na ânsia de reforçar o seu peso político, Theresa May acreditando nas sondagens e na repetição dos resultados das últimas eleições locais que ditaram uma derrota dos nacionalistas do UKIP e dos trabalhistas, criou uma situação poticiamente instável ao nível interno, dificultou as negociações com a UE e ficou muito longe de acalmar os ventos autonomistas que sopram da Escócia e da Irlanda do Norte.


Quase certo é poder estar a criar um novo cenário, onde se assista à integração da Islândia e da Noruega, desde que este rompa com a tradição centralista de Bruxelas e venha a ser democraticamente validado pelos cidadãos europeus.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

ELEIÇÕES EM FRANÇA

Realizou-se ontem a segunda volta das eleições legislativas em França onde o resultado foi um «Recorde de abstenção e maioria para Macron»; nada de inesperado, salvo talvez o reconhecimento de que os «Franceses recusam dar cheque em branco ao Presidente Macron».

A já esperada vitória da nova formação política liderada por Emmanuel Macron poderá explicar em parte aqueles resultados, mas a generalização da tendência de aumento crescente da abstenção não pode ser explicado apenas pela antecipação dos resultados pois este é um fenómeno que parece cada vez mais generalizado.


Para comentar uma abstenção superior a 57% - um novo record, como escreveu o LE MONDE – é preciso ir além do óbvio (como a longa maratona de eleições regionais, das primárias dos partidos e das recentes presidenciais) e lembrar que entre a 1ª e a 2ª volta os votos brancos e nulos aumentaram 400%, algo que reforça a questão sobre a real legitimidade da consulta eleitoral ou, como escreveu aqui o semanário francês “L’OBS”, a falta dum candidato mobilizador...

Em resumo, os franceses foram às urnas escolher uma Assembleia Nacional favorável a Macron, mas desprovida do cheque em branco que este desejaria.

Não fosse a enorme abstenção, que graças aos sistemas eleitorais em pouco ou nada penaliza os partidos do poder, e talvez estivéssemos agora a comentar o sinal de maturidade dos eleitores franceses; assim, continuamos a tentar compreender o que está a levar ao alheamento dos eleitores e aqueles que o fomentam continuam a beneficiar do “crime”.

terça-feira, 13 de junho de 2017

A CAMINHO... DE QUÊ?

Como previsto, lá se vão sucedendo os actos eleitorais por essa Europa fora e assim, uns dias depois de ter chegado a notícia que do outro lado da Mancha «Theresa May ganha eleições sem maioria», deixando antever dificuldades acrescidas na negociação do Brexit, a grande notícia do fim-de-semana foi a de que «Macron é o grande vencedor da primeira volta das legislativas francesas», parecendo tranquilizar assim os que receavam a Frente Nacional e os que continuam a acreditar na estabilização do eixo Paris-Berlim.


É verdade que a generalidade da imprensa tece loas ao novo inquilino do Eliseu, mas ao contrário do que assegura aos seus leitores este tem ainda tudo para provar no campo da política e a incerteza que rodeia a sua eleição (reforçada agora com uma maioria parlamentar) contém todos os ingredientes (não fosse ele um produto da fileira Rothschild) para continuar a mergulhar o projecto europeu no marasmo em que vive.

domingo, 4 de junho de 2017

TRUMPWORLD

Depois de confirmado que «Trump retira os EUA do acordo de Paris sobre alterações climáticas», muitas foram as reacções críticas, acentuando-se ainda mais a ideia do crescente isolamento internacional dos EUA.

Esta decisão (promessa de campanha de Donald Trump), a par com aquela onde «Trump volta a exigir aos aliados da NATO mais gastos com defesa» e que pareceu abrir uma brecha entre as principais potências ocidentais não são apenas sinais da congruência do actual inquilino da Casa Branca, antes evidências duma certa maneira americana de ver o Mundo... Preconceituosa, estreita, mas determinada.


Tão determinada que não deve ser encarada de forma leviana nem displicente. Quando Trump ameaçou – porque o que na realidade fez foi ameaçar retirar ao Resto do Mundo hipóteses de concertação em matérias de segurança, confirmando que com ele os EUA só agirão em exclusivo benefício próprio – abandonar os restantes membros da NATO à sua sorte e estes não lhe manifestaram objectivamente a sua indisponibilidade para pagar mais para verem defendidos apenas os interesses dos EUA deixaram um sinal duma certa tibieza.

Como que em aparente ligação,ocorreu uma semana depois um ataque contra a zona das embaixadas em Cabul, aquela onde se diz que o nível de segurança é mais elevada, onde esta é assegurada principalmente pelo exército americano e onde, curiosamente, ninguém reivindicou o atentado.
Aliás,o que não tem faltado nos últimos anos são atentados – invariavelmente atribuídos a extremistas islâmicos – perpetrados em oportunidades particularmente adequadas a outros interesses que não os dos grupos que os reivindicam ou a quem são atribuídos. Exemplo disso mesmo foi o atentado de ontem em Londres, sobre o qual existem notícias contraditórias que começaram por falar em vários “ataques”, e que ocorre a poucos dias dumas eleições antecipadas, desendadeadas por um partido conservador que parece cada vez menos seguro de alcançar o resultado que antecipava.

Por um motivo ou por outro, inegável parece ser que o Mundo pós-Trump (ou pró-Trump) se está a transformar num lugar cada vez menos agradável.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

HÁ MALES QUE PODERÃO VIR POR BEM

Na sequência do rescaldo da última Cimeira da NATO, onde «Trump aponta dedo aos “23 dos 28” aliados da NATO que “não pagam o que devem”», e duma reunião onde «Questões climáticas dividem G7 em Itália», «Ao dizer que a Europa está sozinha, Merkel está só a ser sincera com os EUA» e talvez, por uma vez, com a própria Europa.

É que quando «Merkel sugere que a Europa já não pode contar com os EUA» poderá estar a abrir-se um cenário, agora que até a Inglaterra se afasta, onde finalmente a UE passe a assegurar a sua própria defesa. Esta questão não é nova – eu próprio a abordei em diversas ocasiões e a popósito de questões diferentes, como nos posts «O SMO, A UNIÃO EUROPEIA E PORTUGAL» ou «OS DEZ PROBLEMAS DO EURO» – mas o seu debate nunca foi assumido por uma numenklatura temerosa e subserviente a outros interesses que não aqueles que deveria efectivamente defender.


Felizmente a tacanhez estratégica e a visão estritamente economicista do novo inquilino da Casa Branca poderá estar a dar uma nova oportunidade à UE; não sei é se conseguirei ser tão esperançoso quanto hoje o foi Viriato Soromenho Marques quando escreveu no DN que «...no grande inverno do mundo, a Europa só terá o futuro que souber conquistar com as próprias mãos. Se isso ajudar a UE a sair da sua patológica menoridade, então talvez a história europeia acabe por registar Trump como uma imperdível oportunidade», porque receio bem que voltemos a cair no conto do vigário que tem sido o estafado argumento do papel dos EUA como “polícias do Mundo”, especialmente quando a realidade tem mostrado que as intervenções americanas servem exclusivamente os interesses das suas elites ou dos interesses económicos que as suportam.

terça-feira, 23 de maio de 2017

O ESTADO ISLÂMICO SEMPRE EXISTIU, É A ARÁBIA SAUDITA

No momento em que escrevo ainda se ignora como irá terminar o périplo entre o Médio Oriente e a Europa que Donald Trump está a realizar, mas a julgar pela imprensa nacional a sua breve passagem pela Arábia Saudita ficará assinalada pelo feito inédito onde «Trump faz as pazes com o islão e apela à luta contra a radicalização»; claro que também mereceu destaque a celebração dum acordo onde os «EUA vendem armas de 110 mil milhões de dólares à Arábia Saudita», mas isso não revestiu qualquer novidade nem a conhecida hipótese desse armamento acabar nas mão dos grupos jihadistas parece ter indignado ninguém.


Já o aparente retorno a uma sintonia de posições entre Washington e Riad, depois do muito propalado distanciamento praticado pela administração Obama, pode não passar disso mesmo, na linha aliás duma antevisão da deslocação a Tel-Aviv onde se anuncia que «Depois de visitar a Arábia Saudita, Trump chega a Israel com plano indefinido».

Como é sabido há décadas (cinco para ser mais preciso) o grande tema no Médio Oriente continua a ser a questão palestiniana, ou melhor a implantação de um estado judaico que recusa a existência palestiniana, e a histórica divisão dos estados árabes. Por isso mesmo e pelo histórico confronto com os persas, a monarquia saudita não hesitou na acusação de que o Irão é "ponta de lança do terrorismo mundial».

Mais estranho é ler esta e outras afirmações, como aquela onde «Trump acusa Irão de desestabilizar a região e apoiar os crimes de Assad», sem significativa referência à reconhecida interdependência entre a oligarquia saudita e o movimento wahhabita (movimento ultraconservador geralmente apontado como a “religião oficial saudita” e que a par do salafismo está na origem de organizações radicias como a Al-Qaeda e o Daesh), nem o facto de há décadas o reino saudita estar a financiar a maioria das mesquitas e madrassas (centros de difusão e divulgação corâmicos) que pelo mundo fora são associadas ao extremismo islâmico e ao recrutamento de jihadistas.

Claro que é fácil entender as motivações da administração Trump na crítica ao Irão (porque ainda não ultrapassou o fracasso que constitui o derrube do regime do Xá Reza Pahlevi ou que mais não seja para se mostrar diferente de Obama), na defesa intransigente do Estado de Israel ou até num possível apoio às pretensões hegemónicas dos sauditas no conflito latente que os opõe aos iranianos; o que não devemos é silenciar as verdadeiras razões que estarão por detrás de tudo isso, quando até bastaria ter recordado uma entrevista de Ziauddin Sardar, quando durante uma sua passagem por Lisboa deixou bem claro que «“O Estado Islâmico sempre existiu, é a Arábia Saudita”» e que sem um efectivo combate aos extremismos wahhabita e salafista não se erradicará o terrorismo islâmico.

domingo, 21 de maio de 2017

BRASIL E CORRUPÇÃO

Não sendo de temer, era de prever que após a forma pouco esclarecida (e esclarecedora) como Dilma Rousseff e o PT foram desapossados do poder o seu sucessor viesse a sofrer o mesmo destino, tanto mais que o seu círculo político estava há muito associado a esquemas de corrupção.


Isto mesmo já o tinha escrito no post «VERGONHOSO ESPECTÁCULO», que dediquei à destituição de Dilma Rousseff e às muitas dúvidas e incongruências então vividas, pelo que saber agora o seu sucessor Michel «Temer acusado de corrupção e organização criminosa» ou que «Michel Temer terá recebido 15 milhões de reais para a campanha. Um milhão ficou com ele», não pode ser encarado com espanto nem extemporânea a pronta reacção de quem contesta um sistema político desprovido de qualquer ética e profundamente minado pela corrupção que repetindo as manifestações levando a todo o Mundo uma imagem onde «Temer enfrenta milhares nas ruas» e se repete o apelo para a rápida realização de eleições directas.

Enquanto continuam a crescer as denúncias contra senadores, deputados e ministros cresce também um claro sentimento de repulsa contra uma elite política que nunca terá tido outro interesse em conta que o seu próprio benefício pessoal, que continua a levar «Milhares de pessoas em protesto nas ruas do Brasil», mas sem uma clara perspectiva de solução para um país que tarda em encontrar o antídoto para esta praga que o assola, agora que a «Economia brasileira volta ao terreno positivo e avança 1,12% no primeiro trimestre, segundo Banco Central», mas mais este «Escândalo põe Brasil em "stand-by" e bolsa afunda».

terça-feira, 9 de maio de 2017

A ÚLTIMA CRÓNICA DE BAPTISTA-BASTOS

Não é apenas o panorama literário nacional que fica mais pobre com a notícia da morte de Baptista-Bastos, é também um estilo de vida (e de viver) livre mas verticalmente comprometido com a dura realidade.


Com ele morreu a única razão que me levava a semanalmente percorrer uma página do CORREIO DA MANHÃ, aquela onde surgia a sua habitual crónica. Por ironia foi lá que saiu à estampa o seu último texto e sobre outro dos grandes nomes da nossa literatura:

«Um grande escritor

Para Manuel da Fonseca, a literatura era um sonho de viver.

Por Baptista-Bastos

Recordo muitas vezes o meu amigo, o seu sorriso triste, a palavra rápida, a percepção imediata das coisas, a coragem inaudita; e, também, a sua abalada ternura pelos companheiros, as melancólica confissões. Manuel da Fonseca, um dos maiores escritores de sempre da literatura portuguesa, o mais felino dos sarcastas e o mais generoso dos amigos.

Havia, nele, a placidez dos grandes sonhos e a nobreza de olhar os camaradas com o respeito que eles, muitas vezes, não mereciam. Para ele, a literatura era um sonho de viver, e feria-o quando, aparentemente, o ignoravam. Passou, há dias, o aniversário da sua morte, recolhido ao Alentejo que escrevera como ninguém, num fulgor magoado e com o olhar enevoado de desgostos.

‘O Fogo e as Cinzas’, admirável livro de contos, cuja organização se deve a Carlos de Oliveira, à mulher deste, Maria Ângela de Oliveira, e a José Gomes Ferreira, é um trabalho de amor e uma doação ao espírito daqueles tempos. Outros grandes títulos do grande autor; ‘Seara de Vento’, ‘Cerromaior’, filmado por Luís Filipe Rocha com a paixão devida, e outros mais.

Certo dia, sabedor de que o meu amigo andava de dinheiro em baixo, falei com Francisco Pinto Balsemão para a entrada de Manuel da Fonseca como colaborador do jornal onde eu era redactor. E assim nasceram crónicas admiráveis, que eu editava no suplemento de domingo, sob o título ‘Pessoas na Paisagem’, uma experiência que me deu grande felicidade. Pontualmente, o meu velho amigo publicou, durante anos, sem uma falha, um texto ímpar que falava do seu Alentejo com a grandeza imaculada de quem escreve sobre o que ama.

Estive, agora, a reler o grande escritor, com a emoção de quem está, de novo, a ouvi-lo e à sua voz pausada e lenta, revendo os seus olhos pequenos e vivos, recordando a sua lúcida atenção às coisas, aos homens e ao seu tempo. Mas, sobretudo, recordando a amizade e o afecto, de que sinto a falta.»

Adeus Baptista-Bastos, não foste apenas um «Cão Velho Entre Flores», nem lembraste somente um «Secreto Adeus» antes fizeste uma admirável «Viagem de um pai e de um filho pelas ruas da amargura»... vais-nos fazer muita falta!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

AS PME NO DISTRITO DE SANTARÉM

O meu amigo José Pereira (Professor Especialista e Director Pós-Graduação Gestão do ISLA-Santarém) estará no próximo Sábado a apresentar um dos painéis do Seminário “As PME no distrito de Santarém” promovido por aquela instituição.


O trabalho na origem da apresentação de um breve enquadramento do eco-sistema PME no distrito de Santarém (para o qual tive o prazer de ter participado no tratamento estatístico) permite a apresentação dum conjunto de conclusões, das quais destaco:
·         O distrito caracteriza-se por apresentar poucas empresas e de pequena dimensão (micros), com especial destaque para o elevado número de empresários em nome individual (ENI), com elevado endividamento e baixo investimento;
·         O Comércio e Serviços são sectores dominantes num distrito que apresenta apetência por mercados externos (bons desempenhos);
·         Apresentando maioritariamente empresas pequenas e focadas no seu dono/gestor (o que ajuda a explicar o baixo número de certificações PME Líder/Excelência), mostarm-se disponíveis para tentar novos mercados;
·         Constatando-se que o endividamento é principalmente utilizado para o financiamento do fundo de maneio, podem melhorar performances operacionais e a dinâmica empresarial necessita estímulo;
que serão objecto de debate e de enriquecimento pelas opiniões dos participantes nos três paineis que se lhe sucederão:

1º Painel “A competitividade das PME e o desafio do crescimento económico, com a participação de Dr. Rui Brito, Diretor Financeiro da Companhia das Lezírias, SA (Samora Correia), do Sr. António Cruz Costa, CEO da INDUCOL - Indústrias de Peleteria Cruz Costa, SA (Abrã, Santarém), do Sr. António Gastão, Administrador da MAGOS Irrigation Systems, SA (Salvaterra de Magos), do Sr. Pedro Correia de Oliveira, CEO da PROSAÚDE, SA (Almeirim) e moderado pelo Professor Dr. Vasco Ribeiro Santos;

2º Painel “Como podem as instituições apoiar a competitividade das PME”, com a participação da Dra. Salomé Rafael, Presidente do NERSANT - Associação Empresarial da Região de Santarém, do Dr. Pedro Seabra, Administrador da GARVAL, Sociedade de Garantia Mútua, SA, do Dr. Tiago Leite, Diretor do Centro Distrital de Santarém do Instituto da Segurança Social, do Dr. Renato Bento, Diretor do Centro Emprego Formação Profissional Santarém, do Dr. Bernardo Maciel – Diretor-executivo da YUNIT Consulting, Lda e moderado pelo Professor Especialista Jorge Oliveira;

3º Painel “O financiamento das PME como alavanca para a retoma do investimento”, com a participação do Dr. Cláudio Sousa, Diretor Comercial do Ribatejo do Banco Santander Totta, do Engº Nuno Fazenda – Presidente da Comissão Executiva da CCAM – Alcanhões, do Dr. Dário Lopes, Coordenador do Gabinete Empresas de Torres Novas da CGD, da Dra. Anabela Frazão, Diretora do Centro de Empresas de Santarém do Millennium BCP e moderado pelo Professor Especialista José Alberto Pereira