terça-feira, 16 de janeiro de 2018

METADE DA VERDADE

Na sua mais recente crónica semanal no DN, o Prof. César das Neves deixa-nos o seu ponto de vista sobre aquilo que apelida de «Metade da verdade» a respeito dos resultados do actual governo.

Claro que a maior parte das afirmações são correctas e verdadeiras, correpondem à realidade a que assistimos diariamente e até alguns dos avisos deixados não são para serem encarados de forma leviana. O problema é que a sua visão dos equilíbrios macro-económicos dos apoiantes das políticas neoliberais (como as dos apoiantes da actual política) apresenta evidentes contornos de puro artificialismo, ou não fossem eles produto de mera manipulação contabilística.


O que o Prof César das Neves esconde é que se os actuais responsáveis políticos se limitam a revelar meias verdades, os seus antecessores sustentaram as suas práticas em duvidosos estudos – recorde-se o famigerado ensaio (a «Growth in a Time of Debt», publicado peloNational Bureau of Economic Research) dos celebrados Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart que, afirmando a existência duma forte correlação entre elevadas dívidas públicas e reduzido crescimento económico, serviu para sustentar as austeritárias teses neoliberais mas se veio a revelar objecto duma manipulação primária (ver o post «ACONTECE...») pelos seus autores – e na comprovadamente abjecta mentira de pretenderem atingir o saneamento e o equilíbrio financeiro, quando o que na realidade sempre pretenderam foi o agravamento do processo de desequilíbrio na distribuição da riqueza, iniciado há várias décadas.

Talvez por isso, os cidadãos hoje apoiem as meias verdades em detrimento das claras mentiras!

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

AINDA A RENEGOCIAÇÃO DA DÍVIDA

As notícias esta semana vindas a lume dando conta que António «Costa anuncia que défice de 2017 deverá ser de 1,2%», oportunidade em que o mesmo assegurou que a dívida pública deverá situar-se pelos 126,2% do PIB, não deveriam servir apenas para confirmar a boa saúde da economia nacional ou para criticar as correspondentes opções governativas, do mesmo modo que a notícia de meados de Dezembro onde a «Fitch tira rating do lixo e põe Portugal no grupo da Itália» pouco alterou o quadro geral da difícil situação do país.


Claro que a decisão da Fitch confirmar idêntica posição da Standard & Poor’s terá impacto em alguns investidores, mas isso não significa que tenham terminado os problemas ou que uma apreciação positiva dos mesmíssimos organismos que tantas responsabilidades evidenciaram no eclodir da crise em 2008 deva ter um valor de especial relevância.

A realidade é que quase sete anos volvidos sobre a intervenção da troika (FMI, BCE, UE) o endividamento continua a apresentar valores elevados e o sistema financeiro nacional a revelar as debilidades que só os poderes estabelecidos não querem ver. Bem podem o Governador do Banco de Portugal ou o Primeiro-Ministro afirmar a solidez do sistema financeiro nacional que a realidade diária desmente-os rapidamente; o país continua descapitalizado enquanto assistimos à continuação da sangria da pouca riqueza nele criada, confirmada com o anúncio, no final de 2017, que «Portugal devolve mais 1.000 milhões ao FMI ainda este ano».

O que continua por anunciar é o início de uma verdadeira solução para um endividamento com aquela expressão que, por mais que custe aos sectores mais tradicionalistas e conservadores, não poderá deixar de contemplar uma profunda renegociação da dívida, cenário que a UE procura controlar com a escolha de Mário Centeno para novo presidente do Eurogrupo (aquela estrutura sem qualquer enquadramento legal que reúne os ministros das finanças da Zona Euro) onde terá como missão «Domar os poderosos do euro com dívida de 126% às costas» e sem qualquer vislumbre de solução para o seu problema.

domingo, 7 de janeiro de 2018

CORREIOS PARA QUEM?

Por por estes dias voltaram às notícias os protestos populares depois de conhecido que os «CTT confirmam fecho de 22 lojas no âmbito do plano de reestruturação», plano este que fora anunciado em meados de Dezembro e que quase de imediato originou que «CTT sobem na bolsa à boleia do novo plano de reestruturação».

Sabendo por demais o real significado da apresentação dum “plano de reestruturação”, não espantaram as notícias da pronta subida da sua cotação em bolsa nem as de que o «Maior accionista investe 2 milhões nos CTT após plano de corte de custos», que os «Donos da Mayoral reforçam nos CTT» ou que a «Global Portfolio Investments reforça no capital dos CTT para 5,66%», logicamente acompanhadas das que chamaram a atenção para o singelo facto daquele plano implicar que os «CTT fecham o dobro das lojas que encerraram desde a privatização».


E o busilis centra-se precisamente na privatização. À memória voltam os comentários tecidos em 2013 – ver os posts «MATAR O CARTEIRO» e «AFUNDADAS ESPERANÇAS» – e a certeira previsão do encerramento de agências feita quase um ano depois no post «CTT TESOURO» que se centrava na questão dos negócios que desde sempre rodearam a venda dum serviço da importância da distribuição postal. Certo é que neste momento quem assume a posição de principal accionista é a GESTMIN, sociedade de gestão de participações financeiras onde pontifica Manuel de Mello Champalimaud, que é quem vai controlar plano de reestruturação dos CTT.

A tudo isto somam-se mais algumas incongruências; é que se os «CTT em crise “distribuiu sempre mais de 90% dos seus lucros a acionistas”», as «Agências que os CTT querem fechar lucraram 2,4 milhões de euros em 2017» e já se diz que a «Reestruturação dos CTT poderá não ficar pelas 300 rescisões» de trabalhadores quando é sobejamente conhecido (e reconhcido) que os «CTT lideram queixas dirigidas a empresa de correios. Reclamações aumentam 212%» facto simplesmente ignorado por quem nunca se preocupou com o serviço público.

E no caso dos CTT é precisamente de serviço público que se trata, um serviço que além de indispensável é igualmente garante do que cada vez mais parecem ser os últimos resquícios de coesão social. Claro que aos seus “donos” apenas interessam os lucros, os quais sempre distribuíram magnanimamente, e de uma forma tão ávida que até já entre os políticos se refere que «Deputado socialista defende que “os CTT têm de ser obrigados a cumprir o serviço público”» ou que «Jerónimo de Sousa defende que CTT devem ser alvo de "intervenção pública"» e até o «CDS exige cumprimento da obrigação de proximidade dos CTT», enquanto nos corredores do poder «Costa e Marcelo deixam CTT nas mãos da Anacom», como se de algum regulador nacional pudesse advir mais que pífias recomendações.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

RECEIEM O PIOR

Estamos a poucos dias do início da aplicação de novas regras na relação entre os bancos e os seus clientes, mas poucos clientes saberão (ou imaginarão) o que lhes reserva o novo ano.

Sabe, por exemplo, que a partir da próxima semana os bancos permitirão (com autorização do cliente) o acesso de entidades terceiras às contas dos clientes para que possam facultar serviços de pagamento ou que passará a se obrigatório gravar ou passar à forma escrita as ordens de investimento ou de movimentação de poupança dos clientes?

Embora haja quem anteveja que «Novo ano traz protecção reforçada para investidores», o essencial destas novas normas – a Diretiva Europeia de Serviços de Pagamento II (também conhecida por PSD II) e a Diretiva dos Mercados de Instrumentos Financeiros II –  é que podendo contribuir para a agilização de transacções e serviços, também acarretam outros riscos para bancos e clientes. Além das óbvias e indispensáveis adaptações de procedimentos e plataformas informáticas por parte dos bancos, também os clientes verão aumentada a sua vulnerabilidade às tão faladas fraudes informáticas, tanto mais previsível que os bancos verão reduzida a sua responsabilidade por operações de pagamento não autorizadas de 150 euros para 50 euros, por transação.

Outra importante alteração se fará sentir ao nível da intermediação financeira com a entrada em vigor da chamada DMIF II, directiva que exige novas formas de prova (gravação magnética ou em documento escrito) no momento em que um cliente opta por uma aplicação financeiro para o o seu dinheiro e obriga os bancos a um processo de formação e certificação dos seus trabalhadores. Mas a experiência e as práticas anteriores não garantem que «Gestores de conta obrigados a ter formação contínua» não repitam os procedimentos que levaram aos casos dos “lesados” do BES e do BANIF.

Foi talvez para evitar tais repetições, com a sucessão de queixas e problemas que levaram já a que o «Estado financia em 145 milhões fundo dos lesados do BES», que os legisladores europeus produziram mais este conjunto de regras que, estou em crer, pouco mais irão salvaguardar que os interesses dos banqueiros, ainda e sempre a expensas dos clientes e dos trabalhadores agora transformados, seguramente com pompa e circunstância, em “conselheiros financeiros” através de meros programas de formação on-line, disponibilizados nas vésperas da entrada em vigor das novas regras, e no futuro em bodes expiatórios das más soluções financeiras “vendidas” aos clientes.


Regulamentar que a «Concessão de crédito para a compra de títulos passa à categoria de “produto complexo”» pode ser um passo importante no sentido de minimizar os efeitos devastadores que a generalização daquela prática já acarretou, mas o verdadeiro problema – aquele que orça em milhares de milhões de euros em imparidades bancárias – não foram os empréstimos daquele tipo contratados nas agências, antes os poucos negociados entre os banksters e os grandes investidores e que ainda hoje continuam a pesar nos respectivos balanços.

sábado, 23 de dezembro de 2017

21D

Depois do 11M (11 de Março, data do atentado contra a rede ferroviária suburbana de Madrid que o governo do PP então liderado pelo histrião José Maria Aznar se apressou a atribuir ao movimento separatista basco, ETA) a Espanha parece vir a ficar marcada pelo 21D (21 de Dezembro, data das mais recentes eleições na Catalunha), de uma forma que associa dramaticamente o PP ao pior que a Espanha nos tem dado.


Depois dumas eleições impostas por Madrid onde «Carles Puigdemont ganha força apesar do resultado do Ciudadanos», bem pode o actual líder do PP e primeiro ministro de Espanha anunciar que o «bloco independentista “não representa a vontade de todos os catalães”» que em nada alterará a realidade que o próprio criou com a aplicação do famigerado Artigo 155 da Constituição Espanhola quando ditou a suspensão da autonomia da região catalã, a demissão dum governo (Generalitat) democraticamente eleito e a prisão ou o exílio de alguns dos seus membros, nem o facto da participação nestas eleições terem alcançado os 83% de participação, depois das de 2015 terem atingido os 75%.

Com o apoio da generalidade das forças políticas espanholas o PP recuperou as velhas soluções imperativas que há séculos têm servido para fazer germinar legítimos anseios de autonomia entre os catalães, agudizados pela redução do investimento do governo central na Catalunha, determinado pelo eclodir da crise económica global em 2008, e a reversão pelo Tribunal Constitucional, decidida em 2010, do estatuto autonómico que vigorava desde 2006. O resultado foi um extremar de posições que culminou com a realização dum referendo local ilegalizado pelo governo central e impedido de concretizar pela presença de um aparelho policial não catalão.

Apesar das dúvidas levantadas sobre os limites do Artigo 155, o governo de Mariano Rajoy (com o apoio do rei Filipe VI) não hesitou na sua aplicação, no derrube do governo local e na marcação de eleições antecipadas, cujo resultado o jornal espanhol EL PAIS resumiu com um lacónico: «“Volvemos a estar en el punto de partida”». Transformando um problema de natureza política num problema judicial, Rajoy pode tê-lo adiado, mas nunca resolvido!

E assim é! «O plebiscito que veio baralhar e voltar a dar» numas eleições – realizadas sob um estado de democracia limitada e com parte dos candidatos detidos ou exilados – onde a vitória do Ciudadanos (movimento liberal de centro direita, criado em reação ao independentismo catalão obteve o melhor resultado de sempre dum partido não independentista) não evitou que o conjunto dos partidos autonomistas que integraram a destituída Generalitat (JxCat, ERC e CUP) mantenha a maioria de deputados, a ponto de se poder dizer que «Perde Rajoy e ganha o independentismo em noite agridoce para Arrimadas», a líder dos Ciudadanos.

O futuro próximo da região – e por extensão da própria Espanha – continuará a mesma incógnita, a ponto de se poder dizer (como o fez o LE MONDE) que o resultado do 21D representa «O triplo fracasso de Mariano Rajoy na Catalunha», pois este tentou contrariar a tentativa de secessão do governo de Carles Puigdemont, restaurar a estabilidade da região (e do país) e quebrar o impeto aos independentistas e obteve em resposta a recondução da maioria independentista e a quase completa erradicação do seu PP do panorama político catalão. Os fortíssimos apoios institucionais dados ao Ciudadanos e as fortes condicionantes de actuação proporcionadas aos apoiantes do nacionalismo catalão acabaram por se revelar insuficientes para conter a evidente vontade demonstrada nas urnas, onde a vitória do Ciudadanos talvez se deva apenas ao facto da Esquerra Republicana de Catalunya (ERC) e o Junts per Catalunya terem concorrido isoladamente, quando em 2015 o fizeram em conjunto conseguindo então 39,5% dos votos.

Embora se diga que a líder do Ciudadanos, Inês «Arrimadas duvida que independentistas consigam acordo», dificilmente resultará outro quadro que não a formação de mais um governo catalão pelos partidos autonomistas, não sendo sequer de excluir uma possível aproximação ao menos radical Catalunya En Comú (o Podemos catalão que com 8,9% dos votos elegeu 8 deputados), o que poderia ditar até alguma flexibilização nas inevitáveis negociações que se têm de seguir com o fragilizado Mariano Rajoy.

A seguir...

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

COMO FOI INVENTADO O POVO JUDEU

No rescaldo da decisão da administração norte-americana onde Jerusalém é reconhecida como capital de Israel, das reacções do mundo árabe e muçulmano, que levaram o Egipto a apresentar uma proposta de resolução ao Conselho de Segurança da ONU, e o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, a afirmar que a «Decisão dos EUA sobre Jerusalém "não é lógica" e complica soluções».


Já conhecido o desfecho da reunião do Conselho de Segurança, onde os «EUA vetam resolução do Conselho de Segurança sobre Jerusalém», proponho hoje uma abordagem diversa de quase todas as que temos lido sobre o assunto, apelando ao enquadramento histórico do chamado conflito israelo-palestiniano.

O texto (pode ser lido aqui na versão francesaé da autoria do historiador israelita Shlomo Sand, versa sobre as origens do povo judaico e foi apresentado como uma desconstrução do mito histórico que é a ideia de que os judeus seriam descendentes directos de Moisés, David e Salomão; como tantos outros povos, eles formaram-se num processo histórico rico e contraditório, que envolve múltiplas etnias e não cabe na descrição religiosa e fundamentalista que ainda prevalece. Foi publicado em 2008 nas página do LE MONDE DIPLOMATIQUE (a tradução é da minha responsabilidade) a propósito do lançamento do seu livro «A invenção do povo judeu» e talvez ajude a compreender uma outra visão que vai além da solução “dois povos-dois estados” agora formalmente posta em causa.

COMO FOI INVENTADO O POVO JUDEU

por Shlomo Sand

Qualquer israelita sabe que o povo judeu existe desde a entrega da Torah [1] no monte Sinai e se considera seu descendente directo e exclusivo. Todos estão convencidos de que os judeus saíram do Egipto e se fixaram na Terra Prometida, onde edificaram o glorioso reino de David e Salomão, posteriormente dividido entre Judéia e Israel. E ninguém ignora o facto de que esse povo conheceu o exílio em duas ocasiões: depois da destruição do Primeiro Templo, no século VI a.C., e após o fim do Segundo Templo, em 70 d.C.

Foram quase dois mil anos de errância desde então. A tribulação levou-os ao Iémen, a Marrocos, à Espanha, à Alemanha, à Polônia e até aos confins da Rússia. Felizmente, eles sempre conseguiram preservar os laços de sangue entre as comunidades, tão distantes umas das outras, e mantiveram a sua unicidade.

As condições para o retorno à antiga pátria amadureceram apenas no final do século XIX. O genocídio nazi, porém, impediu que milhões de judeus repovoassem naturalmente a terra de Israel (Eretz Israel), um sonho de quase vinte séculos.

Virgem, a Palestina esperou que seu povo original regressasse para florescer novamente. A região pertencia aos judeus, e não àquela minoria desprovida de história que chegou lá por acaso. Por isso, foram justas as guerras realizadas a partir de 1948 pelo povo errante para recuperar a posse de sua terra;. a oposição da população local é que era criminosa.

De onde vem essa interpretação da história judaica, amplamente difundida e acima resumida? Trata-se de uma obra do século XIX, feita por talentosos reconstrutores do passado, cuja imaginação fértil inventou, sobre a base de pedaços da memória religiosa judaico-cristã, um encadeamento genealógico contínuo para o povo judeu. É verdade que a abundante historiografia do judaísmo comporta abordagens plurais, mas as concepções essenciais. elaboradas no final do século XIX e princípio do XX. nunca foram questionadas.

Quando apareciam descobertas capazes de contradizer a imagem do passado linear, elas praticamente não tinham eco. O imperativo nacional, qual boca solidamente amordaçada, bloqueava qualquer espécie de contradição ou desvio em relação ao relato dominante. E as instâncias específicas de produção do conhecimento sobre o passado judeu – os departamentos exclusivamente dedicados ao estudo da “história do povo judeu” são bastante distintos daqueles da chamada “história geral” – contribuíram muito para essa curiosa paralisia. Nem o debate, de carácter jurídico, sobre “quem é judeu” preocupou esses historiadores: para eles, é judeu todo o descendente do povo forçado ao exílio há dois mil anos.

Esses pesquisadores “autorizados” tão-pouco participaram da controvérsia trazida pelos “novos historiadores” do final dos anos 1980. A maioria dos actores desse debate público, em pequeno número, veio de outras disciplinas ou de meios extra-universitários: foram sociólogos, orientalistas, linguistas, geógrafos, especialistas em ciência política, pesquisadores em literatura e arqueólogos que formularam novas reflexões sobre o passado judaico e sionista, alguns deles vindos do estrangeiro. Dos “departamentos de história judaica” só surgiram rumores temerosos e conservadores, revestidos por uma retórica apologética baseada em idéias preconcebidas.

Judaísmo, religião proselitista

Ou seja, em sessenta anos, a história nacional amadureceu muito pouco e, aparentemente, não evoluirá no curto prazo. Porém, os factos revelados pelas novas pesquisas apresentam a qualquer historiador honesto questões surpreendentes à primeira vista, mas fundamentais.

Pode a Bíblia ser vista como um livro de história? Os primeiros historiadores judeus modernos, como Isaak Markus Jost e Léopold Zunz, não a encaravam assim no começo do século XIX: aos seus olhos, o Antigo Testamento era um livro de teologia constitutivo das comunidades religiosas judaicas depois da destruição do Primeiro Templo. Foi preciso esperar pela segunda metade do século XIX para encontrar historiadores como Heinrich Graetz, que teve uma visão “nacional” da Bíblia:  transfromaram a partida de Abraão para Canaã, a saída do Egito e até o reinado unificado de David e Salomão em relatos de um passado autenticamente nacional. Desde então, os historiadores sionistas não deixaram de reiterar essas “verdades bíblicas”, transformadas no alimento quotidiano da educação israelita.

Mas eis que, ao longo dos anos 1980, a terra treme, abalando os mitos fundadores. Novas descobertas arqueológicas contradizem a possibilidade de um grande êxodo no século XIII antes da nossa era. Da mesma forma, Moisés não poderia ter feito os hebreus saírem do Egito, nem tê-los conduzido à “terra prometida” — pelo simples facto de que, naquela época, a região estava nas mãos dos próprios egípcios! Aliás, não existe nenhum vestígio de revolta de escravos no reinado dos faraós, nem de uma conquista rápida de Canaã por estrangeiros.

Tão-pouco há sinal ou lembrança do sumptuoso reinado de David e Salomão. As descobertas da última década mostram a existência de dois pequenos reinos: Israel, o mais poderoso, e Judá, a futura Judéia. Os habitantes desta última não sofreram nenhum exílio no século VI a.C.: apenas as elites políticas e intelectuais tiveram de se instalar na Babilónia, de cujo encontro decisivo com os cultos persas é que nasceu o monoteísmo judaico.

E o exílio do ano 70 d.C. teria efetivamente acontecido? Paradoxalmente, esse “evento fundador” da história dos judeus, de onde a diáspora tira sua origem, não originou o menor trabalho de pesquisa. E por uma razão bem prosaica: os romanos nunca exilaram povo nenhum em toda o flanco oriental do Mediterrâneo. Com excepção dos prisioneiros reduzidos à escravidão, os habitantes da Judéia continuaram a viver nas suas terras mesmo após a destruição do Segundo Templo.

Uma parte deles converteu-se ao cristianismo no século IV, enquanto a maioria aderiu ao Islão, durante a conquista árabe do século VII. A maior parte dos pensadores sionistas não ignoravam isso: tanto Yitzhak Ben Zvi, que seria presidente de Israel, quanto David Ben Gurion, fundador do país, escreveram-no até 1929, ano da grande revolta palestiniana. Ambos mencionam em várias ocasiões, o facto dos camponeses da Palestina serem os descendentes dos habitantes da antiga Judéia [2].

À falta de um exílio a partir da Palestina romanizada, de onde vieram os judeus que povoaram o perímetro do Mediterrâneo desde a Antiguidade? Por trás da cortina da historiografia nacional, esconde-se uma surpreendente realidade histórica. Da revolta dos Macabeus, no século II a.C., à revolta de Bar Kokhba, no século II d.C., o judaísmo foi a primeira religião proselitista. Os asmoneus (ou macabeus) já tinham convertido à força os edomitas da Judeia do Sul e os itureus da Galileia, anexando-os ao “povo de Israel”. Partindo desse reino judeu-helenista, o judaísmo espalhou-se por todo o Oriente Médio e pelas margens do Mediterrâneo. No primeiro século de nossa era surgiu no território do atual Curdistão, o reino judeu de Adiabena, ao qual se seguiram outros com as mesmas características.

Os textos de Flávio Josefo não são a única evidência do ardor prosélito dos judeus. De Horácio a Sêneca, de Juvenal a Tácito, muitos escritores latinos expressaram os seus receios. O Mishná e pelo Talmude [3] permitem essa prática de conversão – mesmo que, diante da crescente pressão do cristianismo, os sábios da tradição talmúdica expressem reservas sobre isso.

O êxito da religião de Jesus, no começo do século IV, não colocou fim à expansão do judaísmo, mas empurrou o seu proselitismo para as margens do mundo cultural cristão. No século V, no lugar do actual Iémen, surgiu o vigoroso reino judeu de Himiar cujos descendentes mantiveram a fé judaica após a expansão do Islão e preservam-na até aos dias de hoje. Também os cronistas árabes nos contam sobre a existência , no século VII, de tribos berberes judaizadas: face à pressão árabe sobre o norte de África surgiu a figura lendária da rainha judia Dihya-el-Kahina, que tentou detê-lo. Esses berberes judaizados participarão na conquista da Península Ibérica estabelecendo ali os fundamentos da simbiose particular entre judeus e muçulmanos, característica da cultura hispano-arábe.

A conversão em massa mais significativa ocorreu, no século VIII, no imenso reino khazar entre o mar Negro e o mar Cáspio. A expansão do judaísmo do Cáucaso até à actual Ucrânia originou várias comunidades que seriam expulsas para o Leste europeu pelas invasões mongóis do século XIII. Lá, os judeus vindos das regiões eslavas do sul e dos atuais territórios alemães estabeleceram as bases da grande cultura ídiche [4].

Estas narrativas das origens plurais dos judeus aparecem mais ou menos hesitantes na historiografia sionista até a década de 1960; sendo em seguida progressivamente marginalizadas antes de desaparecerem da memória pública em Israel. Os conquistadores da cidade de David, em 1967, tiveram que ser descendentes diretos do seu reino mítico e não - Deus não permita! - os herdeiros de guerreiros berberes ou cavaleiros Khazar. Os judeus são então um "ethnos" específico que, depois de dois mil anos de exílio e errânciua, regressou finalmente a Jerusalém, a sua capital.

Os proponentes desta narrativa linear e indivisível não mobilizam apenas o ensino da história: convocam também a biologia. Em Israel, desde os anos de 1970 uma sucessão de pesquisas "científicas" tentou demonstrar, por todos os meios, a proximidade genética dos judeus em todo o mundo. A "pesquisa sobre as origens das populações" é agora um campo legítimo e popular de biologia molecular, enquanto o cromossoma Y masculino ganhou um lugar de honra ao lado de uma Clio judia [5] numa busca frenética da singularidade original do "povo escolhido".

Essa concepção histórica constitui a base da política identitária do estado de Israel e é exactamente esse o seu ponto fraco. Presta-se efectivamente a uma definição essencialista e etnocentrista do judaísmo, alimentando uma segregação que mantém a distância entre judeus e não-judeus (tanto árabes como emigrantes russos ou trabalhadores imigrantes).

Israel, sessenta anos após a sua fundação, recusa conceber-se como uma república existente para os seus cidadãos. Quase um quarto deles não é considerado judeu e, de acordo com o espírito das suas leis, esse estado não lhes pertence. Por outro lado, Israel ainda se apresenta como o estado dos judeus do mundo inteiro, mesmo que não seja mais uma questão de refugiados perseguidos, mas de cidadãos plenos e iguais que vivem em plena igualdade nos países onde residem. Por outras palavras, uma etnocracia sem fronteiras justifica a severa discriminação que pratica contra alguns dos seus cidadãos invocando o mito da nação eterna, reconstituído para se reunir na "terra dos seus antepassados".

Escrever uma nova história judaica, para além do prisma sionista, não é tarefa fácil. A luz que reflecte é transformada em cores etnocêntricas. No entanto, os judeus sempre formaram comunidades religiosas organizadas, principalmente pela conversão, em várias regiões do mundo: elas não representam um éthnos portador de uma única origem e que se teria deslocado ao longo de vinte séculos.

Sabemos que o desenvolvimento de toda historiografia — e, de maneira geral, as da modernidade — passa pela invenção do conceito de nação, que ocupou milhões de seres humanos nos séculos XIX e XX.

O desenvolvimento de toda a historiografia como, genericamente, o processo da modernidade passa, como sabemos, pela invenção da nação. Ele ocupou milhões de seres humanos no século XIX e durante uma parte do XX. Recentemente, porém, esses sonhos começaram a ruir. Un número cada vez maior de pesquisadores analisam, dissecam e desconstroem os grandes relatos nacionais e, principalmente, os mitos da origem comum, caros aos cronistas do passado. Certamente os pesadelos identitários de ontem darão espaço, amanhã, a outros sonhos de identidade. Assim como toda a personalidade é feita de identidades fluidas e variadas, também a história é uma identidade em movimento.



[1] Texto fundador do judaísmo, a Torah é composta pelos cinco primeiros livros da Bíblia, ou Pentateuco: Génese, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio.
[2] Cf. David ben Gurion e Yitzhak ben Zvi, Eretz Israel no passado e no presente (1918, em ídiche), Jerusalém, Yitzhak ben Zvi, 1980 (em hebraico), e Yitzhak ben Zvi, Nossa população no país (em hebraico), Varsóvia, Comité Executivo da União da Juventude e o Fundo Nacional Judeu, 1929.
[3] A Mischna, considerada como a primeira obra de literatura rabínica, foi concluída no século II d.C. O Talmude sintetiza o conjunto dos debates rabínicos respeitantes à lei, aos costumes e à história dos judeus. Há dois Talmudes: o da Palestina, escrito entre os séculos III e V, e o da Babilónia, concluído nos finais do século V.
[4] Falado pelos judeus da Europa oriental, o ídiche é uma língua eslavo-germânica, com palavras vindas do hebraico.
[5] Na mitologia grega Clio era a musa da História.»


2017-12-20

sábado, 16 de dezembro de 2017

O INCÓMODO DA MOEDA

A propósito dum fenómeno de que ultimamente muito se tem falado – a bitcoin – e da sua extarordinária valorização, refere o Prof César das Neves, no artigo «O incómodo dos elefantes», que aquela “não vale nada”.


Para vincar o seu ponto de vista recorre (e bem) à teoria do valor para explicar que na economia existem bens que têm valor intrínseco e outros que cujo valor resulta da sua utilidade; comparativamente refere (claro) a moeda que não tendo qualquer valor intrínseco (especialmente depois do abandono do padrão ouro, período em que a quantidade de moeda emitida era função das reservas em ouro do emitente) vê o seu valor sustentado no subjectivo factor da confiança.

O busilis do debate em torno das criptomoedas (designação de toda e qualquer unidade monetária de origem e uso informático, como a bitcoin) é que o mesmo argumento que serve para as denegrir pode (e deve) ser aplicado a todas as moedas em circulação, posto que todas elas dependem da confiança dos utilizadores, que como o próprio autor muito bem sublinha «...tal como a utilidade, é um fenómeno totalmente subjectivo».

Dito isto, estaremos a um passo de ver o Prof César das Neves aplicar a mesma linha de raciocínio à moeda fiduciária (aquela que não deriva do valor das reservas auríferas mas apenas da confiança dos utilizadores) e reclamar uma abordagem diferente para questões como a do endividamento e defender, quiçá, a necessidade de reforma do sistema monetário que transforme o crédito num bem de utilidade pública, como forma de combater a escassez de liquidez e as desigualdades na distribuição do rendimento?

Este é que seria um verdadeiro incómodo para os elefantes...

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O MURO DE TRUMP


Mas, pior que isso poderá ser a declaração onde o enviado especial da ONU para o Médio Oriente, Nickolay Mladenov, diz que a «ONU considera que estatuto de Jerusalém deve ser negociado», não só pelo carácter dúbio – negociado em que sentido? – mas principalmente por esquecer a decisão da mesma ONU (Resolução 476) que definiu o estatudo de Jerusalém como cidade dividida entre judeus e palestinianos e que desde 1980, ano em que Israel aprovou uma Lei Básica de Jerusalém que define a cidade como capital do estado, foi reafirmado pela Resolução 478.


O efeito imediato desta decisão irá muito além do aviso onde os «Palestinianos alertam para violência se Trump mudar embaixada para Jerusalém», porque mais que o lançamento de nova intifada a decisão da administração Trump confirma a tendência isolacionista dos EUA, em novo sinal de implosão do Império Americano numa fase em que o Império do Meio ainda não pode (ou não quer...) assumir a liderança global, deixando todo o «Mundo preocupado com mudança da embaixada dos EUA em Israel para Jerusalém» e Donald Trump cada vez mais longe de alcançar os desejos de grandeza que tanto apregoa.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

ORÇAMENTO E EUROGRUPO

Cumprido o segundo ano de governo e depois três orçamentos aprovados, estou em crer que o facto mais relevante (e perigoso) para a solução governativa, pejorativamente apodada de “geringonça”, não foi a calamitosa gestão dos fogos florestais (cuja responsabilidade, tal o estado de abandono de décadas de omissão política relativamente ao êxodo populacional do interior e ao desinvestimento na função pública, não pode ser assacada ao actual executivo), antes o recente episódio em torno da não aprovação do alargamento da Contribuição Extraordinária para o Sector Energético (CESE) à produção de energias renováveis, ao que se disse previamente acordado com o Bloco de Esquerda.

Se no final terá imperado o pragmatismo, assegurando que a «‘Geringonça’ reúne votos e aprova 3º orçamento de António Costa», não é menos verdade que, como escreveu Daniel Oliveira em «Uma traição. Uma nódoa. Um sinal», podem ter-se inviabilizado futuros acordos e reforçado a ideia que a actual solução governativa não estará mais que a assegurar o que se esperava, melhor do que tínhamos, aquém do possível...


Ideia que vemos confirmada com o anúncio da candidatura de Mário Centeno à liderança do Eurogrupo e defendida em termos onde o «PS diz que candidatura de Centeno visa “exportar sucesso” da alternativa política portuguesa», como se a solução encontrada no Parlamento português não fosse meramente conjuntural e praticamente impossível de aplicar noutro local e noutro contexto, como acabamos de assistir no caso alemão, onde já foi confirmado que a coligação «"Jamaika" falha, Alemanha vai continuar sem governo».

Mais, uma eventual consagração de Mário Centeno num organismo sem existência legal (o Eurogrupo, como sitematicamente se esconde, não tem qualquer enquadramento no ordenamento jurídico da União Europeia) apenas confirmará a sua conformação aos princípios que estão a conduzir a UE a um beco sem saída e a assegurar que não será nesta legislatura que iniciaremos o indispensável processo de renegociação da dívida pública.

domingo, 26 de novembro de 2017

O SEU A SEU DONO

Num texto publicado no Facebook e reproduzido no blogue Estátua de Sal, Jorge Bateira, explica, do seu ponto de vista, a importância da existência de moeda soberana; porque  «...primeiro o Estado gasta e gera défice -> depois, a economia cresce e gera emprego (o Estado também pode ter programas sociais de emprego) -> a seguir, as receitas do Estado aumentam e os subsídios sociais de desemprego, e outros, baixam => orçamento reequilibrado».

Não tentando sequer negar a evidência do quadro argumentativo sempre recordo que o problema da moeda única não reside na sua supranacionalidade, antes no facto do BCE não financiar directamente os estados. O simples fim da exclusividade do sistema bancário no acesso à moeda única (um absurdo prático sustentado no argumentário neoliberal de que a mera emissão de moeda é geradora de inflação, quando à eviência isso só acontece se aquela ultrapassar sistematicamente as necesidades de financiamento da economia real) que lhe tem conferido um verdadeiro monopólio e, pior, um persistente desvio dos meios financeiros necessários ao investimento e ao crescimento económico para a especulação financeira.


Para retomar o título do texto, «Dentro do euro não há dinheiro» porque os políticos que desenharam a moeda única fizeram-no, não no interesse dos povos europeus mas sim no dum sistema financeiro que há muito abdicou da sua função de financiamento à economia real para responder aos interesses dos sectores rentistas, dedicando-se quase exclusivamente a uma economia de casino que exige crescimentos permanentes aos seus actores.