sexta-feira, 17 de novembro de 2017

ESTRONDO?

As notícias recentemente chegadas de Angola, segundo as quais foi «Isabel dos Santos exonerada da Sonangol», tiveram o efeito de despoletar um conjunto de comentários esperançosos sobre o futuro daquela antiga colónia portuguesa. Por cá muitos parecem acreditar que “as coisas vão mudar”, talvez como anteriormente acreditaram no promissor futuro que tínhamos construído naquele país.


Enquanto o director do EXPRESSO Pedro Santos Guerreiro destacou «O estrondo de Isabel dos Santos», o seu colega Ricardo Costa vai mesmo ao ponto de escrever no mesmo EXPRESSO que esta inciativa do novo presidente «tem algo de revolucionário», como se aquilo a que assistimos pareça ir além de uma mera luta pelo poder. Mesmo depois de conhecido que «João Lourenço afasta dois filhos de José Eduardo dos Santos da televisão pública de Angola», continuam a ser necessárias muitas outras medidas para se poder afirmar que estará em curso em Luanda algo mais profundo e salutar que a mera substituição duma oligarquia.

Só o futuro dirá se João Lourenço é ou não uma nova versão da mesma elite que as potências colonizadoras criaram em todos os territórios que tiveram sob a sua administração, criaturas que à imagem e semelhança do criador apenas aprenderam os processos de apropriação da riqueza colectiva...

terça-feira, 7 de novembro de 2017

PARADISE PAPERS

A propósito da recente divulgação de mais um “caso” envolvendo a actividade ilegal dos chamados paraísos fiscais e da escaldante notícia onde «Nova fuga de informação expõe rainha de Inglaterra», eis que quando questionado sobre o assunto o líder trabalhista inglês (na oposição) Jeremy «Corbyn sugere pedido de desculpas de Isabel II sobre bens offshore», no que parecendo uma clara condenação dos ilícitos fica muito aquém do mínimo a esperar de qualquer líder político que preze a defesa do interesse-geral em detrimento dos interesses individuais.


A verdadeira dimensão seria dada pela afirmação de que à rainha (enquanto autoridade nacional máxima) deveria ser exigida uma reparação pela ilicitude e uma veemente actuação no sentido de a transformar em algo de irrepetível por qualquer dos seus súbditos.
Dir-me-ão que deliro ou que espero o impensável!

Poderá ser, mas a evasão fiscal não constitui apenas um crime contra aqueles que pagam os seus impostos, é um privilégio apenas alcançável pela mesmíssima elite que há décadas se escuda no argumento da legalidade enquanto vem sendo beneficiada pelo dogma que defende a concentração da riqueza como via para melhorar a sua distribuição; vulgarmente conhecida como “trickle down economics”, defende o princípio de que a concentração de riqueza nos grupos com maiores rendimentos, por exemplo por via fiscal, favorecerá o investimento em virtude da sua menor propensão marginal ao consumo e tem sido seguida pelo menos desde a década de 1980, com os resultados que todos temos podido observar na prática: uma crescente concentração da riqueza global num número cada vez menor de agentes económicos e um agravento da desigualdade em geral.

Comprovando que assim é, assistimos à cíclica revelação destes “negócios” sem que os poderes estabelecidos actuem de forma diversa desta, onde «Bruxelas espera que Estados-membros redobrem esforços no combate à fuga e a evasão fiscal», enquanto convenientemente se exime a qualquer medida prática que a tal conduza, num silêncio e numa inércia hipócrita e totalmente inversa à sanha fundamentalista que revelou na tentativa de debelar a crise do euro.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

A QUESTÃO CATALÃ

No dia em que se assinala a passagem de cinco séculos sobre a Declaração de Wittemberg, que marcou definitivamente a separação entre católicos e protestantes, quero aqui recordar que grande parte dos movimentos progressistas têm acontecido em situações de corte profundo com os poderes ou as ideias estabelecidas. Assim foi com o cisma religioso que ficou conhecido como Reforma, com a chamada Revolução Industrial, ou mais recentemente com a Revolução Digital; por norma o progresso sempre surge em corte aberto com o establishment ou com quem defende o status quo por mera ignorância ou simples conformismo.

Vem isto a propósito dos recentes acontecimentos na Catalunha e da forma como um ancestral anseio independentista tem sido interpretado em Barcelona e em Madrid por dois frágeis líderes (Carles Puigdmont e Mariano Rajoy) que pretendendo interpretar interesses legítimos estão a dar uma triste imagem das respectivas causas. O catalão Puigdmont falhou redondamente ao partir para um cofronto sem previamente ter federado um conjunto mais vasto de partidários da independência e sem ter sabido manter ao longo do processo as indispensáveis pontes de diálogo, enquanto o castelhano Rajoy, jactante na sobranceria própria dos que se julgam importantes, partiu para o confronto respaldado na sua legalidade e no apoio que a monarquia nunca lhe regateou.


O resultado, no imediato, está a ser um novo retrocesso na autonomia catalã mas que os tempos poderão reverter ou não tivesse a Moncloa optado pela tradiiconal solução imperial e pelo uso da força ao invés duma solução negociada que garantisse uma coexistência pacífica e quiçá a continuidade do Estado espanhol como o conhecemos. A demonstração de força, levada a cabo pelo governo de Mariano Rajoy com o público apoio da monarquia, vai seguramente exacerbar os movimentos republicanos e independentistas muito latentes noutras regiões – a Catalunha, o País Basco e a Galiza –  duma Espanha há muito dividida por uma mal concretizada unificação e uma ainda mais fracturante guerra civil (1936-1939).

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O TRIÂNGULO ESPANHA – CATALUNHA – UE

Talvez não seja totalmente desajustado reflectirmos hoje, dia em que comemoramos a implantação da República em Portugal, no sentido do que ocorre na vizinha Espanha onde no passado fim-de-semana uma «Jornada histórica na Catalunha deixou grandes incógnitas» para defensores e opositores (é conhecido que «Milhares de pessoas manifestam-se pela unidade de Espanha» na véspera do referendo) à ideia de independência catalã.

Um e outro lado esgrimem argumentos, mas a realidade é que o governo espanhol optou, desde o início, por uma actuação de força onde a «Polícia regional recebe instruções para desalojar e encerrar assembleias de voto», que apenas se poderia concluir com a notícia que a mesma «Polícia carrega sobre os cidadãos junto aos colégios eleitoriais», enquanto os independentistas procuram não deixar esquecer o «Relato de um dia em que as cargas policiais na Catalunha espantaram o mundo (e em que houve 90% de votos a favor da independência)» onde cerca de 42% dos 5,3 milhões de eleitores catalães conseguiram votar e 90% deles fizeram-no a favor da independência.

Desde o agravar da crise que se tem esperado algo de positivo da UE, mas «Bruxelas insiste que é problema interno de Espanha», numa forma de alheamento que levou a que o «Presidente do parlamento catalão acusa UE de estar do lado de Espanha», juntando mais uma acha para a fogueira, mesmo quando se diz que o «Governo catalão espera por bons ventos europeus».



A posição inflexível do governo espanhol parece reforçada quando o rei «Filipe VI acusa governo da Catalunha de “deslealdade inadmissível”» e recebe um tíbio apoio da UE com a notícia que os «Eurodeputados não poupam nas críticas e pressionam para que se passe ao diálogo» (secundado quando o «Parlamento português aprova voto de “preocupação pela evolução da situação política” na Catalunha») mas nada sugerem para ultrapassar o diferendo. Claro que a questão é muito sensível e ainda mais no actual quadro de enfraquecimento da UE, devendo ser tratada com cuidados extremos; mas continuar a insistir numa clara política de “dois pesos e duas medidas”, como se sugere quando o «Presidente sérvio acusa União Europeia de “dois pesos e duas medidas” na questão da Catalunha e do Kosovo», em nada ajudará qualquer dos vértices do triângulo.

Pode já ter ocorrido o «O dia em que Espanha perdeu a Catalunha» pois a isso conduziu a presença em Madrid e Barcelona de dois líderes fracos (Mariano Rajoy – líder do PP, chefia um governo minoritário de centro-direita, apenas com o apoio do Ciudadanos de Albert Rivera, após duas eleições inconclusivas e sobre o qual o «Vice da Generalitat avisa que se catalães votarem Mariano Rajoy cai» – e Carles Puigdemont – do Partido Democrático Europeu Catalão/Convergência Democrática da Catalunha (centro-direita) que preside à Generalitat apoiado por uma coligação frágil e ideologicamente contraditória que engloba o movimento Juntos pelo Sim, a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), de Oriol Junqueras, herdeira do independentismo de 1934 e de Lluís Companys e a Candidatura de Unidade Popular (CUP), um partido da extrema-esquerda, anti-União Europeia e anti-capitalismo que chegou ao poder como uma segunda escolha e após a CUP se ter recusado a apoiar um governo chefiado por Artur Mas) e a actuação do governo central que em resposta ao apelo onde o «Presidente da Catalunha pede mediação internacional» para o diferendo já anunciou que, face à previsível declaração de independência catalã, «Madrid manda o exército para a Catalunha», numa quase repetição do ocorrido no dia 6 de Outubro de 1934, quando à proclamação da ambicionada independência, por Lluís Companys, se seguiu a violência mas também a sua rápida perda e a suspensão do estatuto de autonomia.

sábado, 30 de setembro de 2017

O VOTO PROIBIDO

Domingo vamos a votos!

Mas o significado da expressão varia consoante a ponta da península ibérica; em Portugal serão simples eleições autárquicas que levarão à escolha daqueles que irão dirigir os concelhos e as freguesias de norte a sul do país, mas na Catalunha o que está em jogo é muito mais que isso.

Fazendo eco duma ancestral aspiração (lembrem-se que no século XVII, quando lográmos recuperar a independência de Espanha, também a Catalunha lutou pelo mesmo direito e o seu malogro talvez tenha sido determinante para o desfecho que nos foi favorável) tem crescido um sentimento independentista entre os catalães, talvez alimentado por idênticos movimentos na Escócia (ver a propósito o post «ARA ES L’HORA») e depois do desmembramento doutros estados por essa europa de leste.


Apoie-se ou não a aspiração catalã, o que parece ressaltar do braço de ferro entre Barcelona e Madrid é uma clara incapacidade para o diálogo e uma gestão política duma crise que remonta à própria formação de Espanha, conseguida fundamentalmente devido à superioridade militar de Castela (reino que remonta ao primeiro milénio e de dimensão ainda hoje discutida), conduzida de forma canhestra que mais não tem feito que incendiar os sentimentos independentistas.

Muito diferente de não concordar com um referendo sobre a independência é optar pela sua proibição (por maior que seja a sua sustentação legal) como o fez o governo de Mariano Rajoy e criando todas as condições para o eclodir de confrontos físicos. Mesmo que apoiado pela generalidade do establishment madrileno (raras são as vozes que não se erguem contra a hipótese do poder perder cerca de 1/5 da riqueza nacional), dificilmente mais esta atitude discricionária poderá contribuir para apaziguar um diferendo tão antigo e com semelhante fundamentação histórica e nem o facto de vivermos tempos de extrema hipocrisia – basta recordar a reacção da chamada “comunidade internacional” a questões como o separatismo escocês e catalão, o controverso apoio ao desmembramento de estados como a Checoslováquia e a Jugoslávia ou até ao reconhecimento do Kosovo – pode justificar o simples apoio ou a condenação de castelhanos e catalães.

Talvez, afinal, o voto proibido acabe por ser o mais apetecido...

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O REGRESSO DA ÁGUIA ALEMÃ

O resultado das eleições alemãs, marcado pela queda acentuada das forças políticas tradicionais (os democratas cristãos da CDU/CSU e os sociais democratas do SPD) e pela entrada para o terceiro lugar da hierarquia da extrema direita nacionalista do AfD e pelo regresso dos liberais do FDP (agora com discurso muito próximo da AfD), pode ter marcado o final de qualquer hipótese para o regresso a uma UE mais próxima dos valores fundadores.


O ressurgimento da “águia alemã” vai representar o enlameamento da vida política e social da Europa, pois tudo indica que os políticos, alemães e de outras nacionalidades, responderão à ascensão da extrema-direita com uma opção pelas ideias menos europeístas pelo que não será de estranhar termos, dentro em pouco, uma Europa a duas velocidades (ou mesmo três, se contarmos que teremos duas dentro da Zona Euro e outra fora dela) e veremos esfumar-se qualquer hipótese do Brexit poder contribuir com alguma coisa de positivo para a reforma da UE.


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

TRUMP E A ONU

Decorre mais uma Assembleia-Geral da ONU, que anualmente reúne bom número de líderes mundiais para discursos mais ou menos de circunstância, com a esperada participação do Presidente norte-americano que contrariando a tardicional lógica dipomárica fez discurso nunca visto na ONU, anunciando a sua intenção de desdtruir a Coreia do Norte.


Ainda que o anúncio possa ser entendido como mais uma fanfarronada, o momento e o local escolhidos deverão dificultar ainda mais qualquer tentativa de negociação que a China possa estar a ensaiar. Na prática o que Trump terá feito foi fragilizar a quase moribunda ONU, dificultar ainda mais o papel de Pequim, a quem exige que contenha o vizinho belicoso, e fazer aumentar os receios de um eventual conflito, não faltando até que tenha aproveitado o ambiente de tensão para recordar que na Inglaterra a «Rainha Isabel II já tem discurso preparado para anunciar Terceira Guerra Mundial», ainda que este tenha sido redigido há mais de trinta anos.

Em resposta (e dentro das melhores práticas diplomáticas) a «China elogia acordo nuclear com o Irão depois de Trump o classificar de vergonha», classificando-o como fruto importante do multilateralismo e exemplo de como resolver questões por via diplomática. É que ao contrário do que pretende Trump, quando afirmou que «“Se não tivermos escolha vamos destruir totalmente a Coreia do Norte”», é sempre ao lado mais forte que cabe a respnsabilidade de prevenir o agravamento das crises até ao ponto de deflagração.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O POLVO INFORMATIVO

Encontrei hoje na secção de opinião do DN um interessante artigo de reflexão sobre o fenómeno das “fake news” e das “verdades alternativas” que grassa nos modernos meandros políticos.

Procurando ver para além das chamadas figuras de proa, a autora - Nina Khrushcheva, Professora de Assuntos Internacionais na Universidade de Princeton e membro do World Policy Institute e do Project Syndicate: Association of Newspapers Around the World - aponta a responsabilidade de figuras como Rupert Murdoch (o magnata da comunicação social que através da News Corporation controla os canais de TV FOX News e SKY e os jornais americanos New York Post e The Wall Street Journal, os ingleses The Times, The Sun, The Telegraph e o australiano Herald Sun) que acusa de falta de idoneidade, ou não tivesse ele estado ligado ao famigerado caso das escutas ielgais que levou ao «O FIM DO NoW».


Além da leitura, obrigatória, do artigo «O culpado», importa reflectir sobre a realidade nacional que tantas vezes anda demasiado próxima.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

ALARGAMENTOS

Um dos tópicos retirado do discurso sobre o estado da União hoje proferido pelo presidente da Comissão Europeia, foi aquele onde «Juncker quer que todos os países da União Europeia adoptem o euro em 2019».


Fazendo clara tábua rasa das evidentes e por demais denunciadas limitações da moeda única, Jean-Claude Juncker parece contrariar agora as ideias apresentadas, em Março deste ano, no Livro Branco Sobre o Futuro da Europa que a própria Comissão patrocinou.

Na oportunidade apresentei no post «SEGURANDO A UE» as cinco vias – uma UE reduzida a um mercado comum, continuar o caminho seguido de crise em crise, uma UE ao sabor dos interesses de cada um dos membros, optar por uma solução de menos mas melhor Europa, escolher decididamente mais Europa – então sugeridas pela Comissão e que o seu presidente parece agora resumir a uma: mais Europa!

Mas que Europa num cenário onde impera uma moeda única claramente disfuncional e desenhada não para servir os interesses dos cidadãos europeus mas os do sector financeiro?

Os mais entusiastas dirão que esta opção é claramente a dum futuro com “mais Europa”, mas os mais esclarecidos verão na proposta agora apresentada por Juncker a continuação da estratégia em vigor – uma UE ao sabor das crises e da sua maior ou menor capacidade para as resolver – com a diferença que próxima crise será garantidamente de natureza interna, ou a opção de alargar a moeda única não fosse idêntica à decisão de alargamento ao leste europeu quando ainda não estavam devidamente resolvidas as assimetrias resultantes do alargamento da Europa a 15.

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MALPARADO... BEMPARADO...

Confirme-se ou não, como noticiou esta semana o PUBLICO, que o «Banco de fomento vai financiar solução para malparado na banca» e mesmo desconhecendo-se todos os contornos da operação, salvo o facto desta englobar o BCP, a CGD e o Novo Banco, muitos concordarão que os sinais não serão os melhores.

Não se trata apenas das limitações materiais da iniciativa, referidas pelo NEGÓCIOS quando assegura que «Banco de fomento financia empresas com malparado mas viáveis» – ou seja apenas uma parte do bolo, cuja dimensão não é sequer oficialmente conhecida – mas também da completa ausência de intenções que corrijam os erros que levaram o sector financeiro onde se encontra.


Sobre a correcção dos modelos de gestão orientados para os resultados de muito curto prazo, ou sobre as conhecidas políticas de prémios indexados aos resultados semestrais auto-atribuídos pelos gestores de topo, nem uma palavra, quanto mais qualquer arremedo de inversão; e nem é bom falar no regresso a uma clara separação entre as actividades bancárias de índole comercial ou de especulação!

De tudo apenas se pode concluir que o malparado está... bem parado, o “lixo” criado desaparecerá do balanço dos bancos  e tudo assim irá continuar até à próxima crise.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

ELE LEVANTOU-SE E... FALOU

Oficialmente encerrada ontem, qual folhetim de 3ª categoria promovido por jornais de pior classificação, a silly season nacional não podia ter terminado sem o adequado happening e assim foi que, com uma mãozinha da Universidade de Verão do PSD, Cavaco Silva voltou às parangonas noticiosas.

Para dizer o quê? Para garantir, do alto duma cátedra atenta e venerandamente escutada por um grupo de jotinhas e pelo seu ex-primeiro ministro favorito (também ele um ex-jotinha), no seu jeito habitualmente mefitstofélico e vingativo, que um dia a economia desalecerará!!!


Mas não se ficou por uma afirmação meramente tecnocrática e banal (o princípio dos ciclos económicos é que estes variam entre períodos de crescimento e de quebra), borrou-a com a sua conhecida verbe vingativa, afirmando – em clara negação com a realidade – que os «Governos que querem revolução socialista "acabam por perder o pio"» e mostrou-se atento aos ventos da actualidade invocando umas, agora obrigatórias, «“Fake news” e muitas críticas a Marcelo e Costa», que ninguém estranhou.

As críticas (indirectas) à verborreia de Marcelo e as mais directas às opções política de António Costa não se estranham face ao currículo e às conhecidas linhas de pensamento daquele que em tempos assegurou que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava ou estoutra pérola que foi a dogmática afirmação de que duas pessoas com o mesmo tipo de informação tomam a mesma decisão; já a modernaça alusão às fake news, vinda de um ex-presidente da República que esteve na origem (através do seu acessor Fernando Lima) de notícias (falsas) sobre uma pretensa espionagem a Belém agora travestido em virgem púdica objecto de notícias falsas, não merecerá mais que uma sonora gargalhada.

Para terminar, achou por bem alertar ainda para um regresso da censura, como se o seu apego ao dogma da inexistência de alternativa não fosse ele mesmo uma clara forma de censura.

Claro que na reacção, o sibilino «António Costa considera “natural” que Cavaco Silva “tenha saudades de um palco”» enquanto o verborreico Marcelo Rebelo de Sousa se limitou a anunciar que «“Quando deixar de ser Presidente, não farei comentários sobre os meus sucessores”»; ambos usaram luvas de pelica para a bofetada que não remeterá o autor à tumba de onde saiu, enquanto os seus prosélitos dele continuarem (à míngua de melhor) carentes.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O MEU MUNDO NÃO É DESTE REINO (NA VERSÃO MJ AVILLEZ)

Não sendo frequentador regular, quer da articulista quer da publicação, a curiosidade do título «O meu mundo não é deste reino» e o facto, conhecido de alguns amigos, de há vários anos usar essa mesma expressão de desabafo, levou-me a ler a mais recente crónica de Maria JoãoAvillez no OBSERVADOR.


Partilhando com a autora algumas das preocupações relativamente a questões como a do “pensamento único”, não me revejo claramente no essencial da sua análise e ainda menos no momento escolhido para apelar à mobilização dum “pensamento de direita” que diz amordaçado pela “esquerda radical”...

Ter-lhe-ia dado maior credibilidade se também a tivesse ouvido erguer a voz contra o mantra da ausência de alternativa propalado por essa Europa democrática que tanto glorifica e que teve na versão nacional-passista da “austeridade expansionista” o seu vértice.

Clamar agora, como o faz Maria João Avillez, soa mais a um toque a reunir dos ressabiados com os resultados da alternativa que a uma efectiva preocupação com a liberdade de pensamento!

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A SOLUÇÃO DOIS ESTADOS

Durante uma visita a Israel e à Palestina que hoje termina, o Secretário-geral da ONU, António «Guterres defende solução de dois Estados para conflito israelo-palestiniano».

Ainda que esta posição não constitua novidade – tem sido defendida por sucessivos líderes da ONU e por grande parte da comunidade internacional – a realidade da ocupação israelita tem-se encarregue de a transformar em algo inexequível, mesmo quando a ONU reitera a ilegalidade dos colonatos construídos por Israel nos territórios palestinianos ocupados.

Essa política e a insistência ocidental na solução dos dois estados poderá garantir a coexistência e a cooperação entre Israel e os EUA, mas dificilmente garantirá outro caoisa aos palestinianos que a continuação da política de apartheid israelita.


Hoje, como escrevi em 2009 no post «O FIM DA SOLUÇÃO DOS DOIS ESTADOS», a questão continua igual e com poucas hipóteses de solução...

sábado, 26 de agosto de 2017

NENHUMA ALTERNATIVA À AUSTERIDADE? ESSA MENTIRA JÁ FOI PREGADA

Nas palavras de Owen Jones (colunista do jornal inglês The Guardian) aqui deixo a minha tradução do texto integral (um resumo pode ser lido nesta notícia do ECONÓMICO) como mais um contributo sobre a polémica inevitabilidade da ausência de alternativas...


«Nenhuma alternativa à austeridade? Essa mentira já foi pregada

Durante anos, disseram-nos que apenas os cortes profundos podem salvar a nossa economia. O governo de Portugal, liderado por socialistas, provou o contrário.

Owen Jones

Desde que os bancos mergulharam o mundo ocidental no caos económico, que nos dizem que apenas uma política de cortes podia oferecer a salvação económica. Quando os Conservadores e os Liberais Democratas (Lib Dems) formaram a sua coligaão de austeridade em 2010, disseram ao eleitorado - em tons apocalípticos - que, sem o bisturi de George Osborne, a Grã-Bretanha passaria pelo caminho da Grécia. A metáfora economicamente analfabeta de um orçamento familiar foi implantada implacavelmente - se você não deve gastar mais se estiver endividado, então, por que deveria a nação? - popularizando uma falácia com motivações ideologicas.

Mas agora, graças a Portugal, sabemos quão falha era a experiência de austeridade aplicada em toda a Europa. Portugal foi uma das nações europeias mais atingidas pela crise económica. Depois de um resgate pela troika, incluindo o Fundo Monetário Internacional, os credores exigiram rigorosas medidas de austeridade que foram adoptadas com entusiasmo pelo então conservador governo de Lisboa. Os serviços públicos foram privatizados, o IVA aumentado, imposta uma sobretaxa sobre os rendimentos, reduzidos os salários do sector público, as pensões e os benefícios sociais, e prolongado o horário diário de trabalho.

Num período de dois anos, os gastos com educação sofreram um corte devastador de 23%. Os serviços de saúde e a segurança social também sofreram. As consequências humanas foram terríveis. O desemprego atingiu um pico de 17,5% em 2013, em 2012, houve um salto de 41% nas falências das empresas e a pobreza aumentou. A lógica era a de que tudo isso era necessário para curar a doença dos gastos excessivos.

No final de 2015, essa experiência chegou ao fim. Um novo governo socialista - com o apoio de partidos de esquerda mais radicais - assumiu o cargo. O primeiro-ministro, António Costa, prometeu “virar a página da austeridade” dizendo que esta tinha feito o país recuar três décadas. Os opositores do governo predisseram um desastre e apelidaram-na de “economia voodoo”. Talvez um outro resgate fosse desencadeado, levando à recessão e até cortes mais acentuados.

Antes disso, havia um precedente, o Syriza havia sido eleito na Grécia apenas alguns meses antes, e as autoridades da zona do euro não estavam dispostas a permitir que essa experiência fosse bem-sucedida. Como poderia Portugal evitar a sua própria tragédia grega?

A lógica económica do novo governo português foi clara. Os cortes reduzem a procura: para uma recuperação genuína, a procura tinha que ser estimulada. O governo prometeu aumentar o salário mínimo, reverter os aumentos de impostos regressivos, devolver os salários e as pensões do sector público aos níveis anteriores à crise - os salários de muitos caíram 30% - e reintroduzir quatro feriados públicos cancelados. A segurança social para as famílias mais pobres foi aumentada, enquanto uma taxa de luxo foi imposta em casas no valor de mais de 600.000 euros.

O desastre prometido não se materializou. No outono de 2016 - um ano depois de assumir o poder - o governo podia-se orgulhar de um crescimento económico sustentado e de um aumento de 13% no investimento privado. E este ano, os números mostraram que o déficit diminuiu mais de metade, para 2,1% - menor do que em qualquer momento desde o regresso da democracia há quatro décadas. Na verdade, esta é a primeira vez que Portugal cumpriu as regras fiscais da zona do euro. Enquanto isso, a economia cresceu por 13 trimestres sucessivos.

Durante os anos de cortes, as instituições de caridade alertaram sobre uma “emergência social”. Agora, o governo português pode apresentar-se como um modelo para o resto do continente. “A Europa escolheu a linha de austeridade e teve resultados muito piores”, declarou o ministro da economia, Manuel Caldeira Cabral. “O que estamos a revelar é que, com uma política que devolve rendimento às pessoas de forma moderada, estas ganham mais confiança e o investimento retoma”.
Portugal aumentou o investimento público, reduziu o déficit, reduziu o desemprego e a economia cresceu de forma sustentada. Foi-nos dito que isso era impossível e, francamente, delirante. E assim os trabalhadores britânicos suportaram o maior aperto nos salários desde o século XIX, enquanto a coligação nem se aproximou sequer de cumprir o seu compromisso de erradicar o déficit até 2015. Porquê? Em parte, porque os baixos salários significam que os trabalhadores pagam menos impostos, recebendo mais benefícios e gastando menos dinheiro. Portugal está a aumentar a procura; os conservadores a suprimi-la.

O sucesso de Portugal é inspirador e frustrante. Toda essa miséria humana na Europa - e para quê? Como na Grécia, onde mais de metade dos jovens definha no desemprego, onde os serviços de saúde foram dizimados, onde a mortalidade infantil e o suicídio aumentaram? E a Espanha, onde centenas de milhares foram expulsos das suas casas? Ou a França, onde a insegurança económica impulsionou a ascensão da extrema direita?

Portugal e Grã-Bretanha também oferecem lições para a social-democracia. Após o colapso dos banqueiros, os partidos social-democratas abraçaram a austeridade. O resultado? Colapso político. Na Espanha, o apoio aos socialistas caiu de 44% para uns escassos 20%, enquanto a esquerda radical do PODEMOS cresceu com os seus votos. Na Grécia, o PASOK quase desapareceu como uma força política. Em França, os socialistas alcançaram pouco mais de 6% na primeira volta das eleições presidenciais deste ano. E na Holanda este ano, o Partido Trabalhista caiu de um quarto das votações para menos de 6%.

Em contraste, os dois partidos social-democratas que quebraram com a austeridade - em Portugal e na Grã-Bretanha - estão a conseguir melhores resultados do que quase todos os seus partidos irmãos. De facto, as pesquisas mostram que os socialistas de Portugal estão agora a 10 pontos de distância do partido de direita do país.

A austeridade na Europa foi justificada com o mantra “não há alternativa”, destinado a conduzir a população para a submissão: mas afinal precisamos ser adultos e viver no Mundo real.

Portugal oferece uma forte repreensão. A esquerda europeia deve usar a experiência portuguesa para remodelar a União Europeia e travar a austeridade em toda a zona do euro. Na Grã-Bretanha, o trabalho pode sentir-se mais encorajado a romper com a ordem económica dos conservadores.
Durante a década perdida da Europa, milhões de pessoas consideraram que havia uma alternativa. Agora temos a prova.»

...e reforço a necessidade de todos discutirmos o assunto.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

INVESTIMENTO OU ESPECULAÇÃO?

A recente notícia de que os «Bancos ficam com a fatia de leão do investimento directo estrangeiro», só pode espantar os mais distraídos ou os que ainda acreditam na superioridade e na “bondade” dum sistema há muito capturado pelos interesses especulativos e de resultado rápido.


Mesmo admitindo a necessidade de recapitalização do sector financeiro nacional (maioritariamente descapitalizado pelos investimentos de risco praticados) nada explica que tenha sido precisamente no sector da indústria transformadora que se registou a maior redução (mais de 510 milhões de euros, no período homólogo entre Junho de 2016 e Junho de 2017) salvo a clara opção pela manutenção da chamada economia de casino a que se dedica a generalidade do sector financeiro e abraçada por todos os que buscam resultados rápidos, custe a quem custar...