quinta-feira, 18 de julho de 2019

DESCOBRIR A SAÍDA


Continua a escrever-se muito (e ainda mais a falar-se) sobre a CGD, o seu crédito malparado e a comissão de inquérito à sua gestão que terminou com a provação de um relatório consensual, assim gorando o desejo do PSD de ver expressa a menção a indícios claros de gestão danosa e deixando a ideia que nada de fundamental estará errado, bastando ligeiras correcções para tudo voltar ao rumo certo.


Claro que os prejuízos acumulados em grandes operações de crédito aprovadas à revelia das mais elementares regras prudenciais são uma realidade e que os maiores terão ocorrido durante o consulado de Santos Ferreira e Armando Vara, mas não será menos verdade que sucessivos governos exerceram de forma “deficiente” o seu dever de tutela e ainda menos que a supervisão do Banco de Portugal terá sido anódina, para não dizer anedótica.

Mas o mais confrangedor nem sequer será assistirmos ao habitual jogo político do “passa culpas”, antes à completa improcedência das sucessivas comissões de inquérito sobre o sector financeiro nacional que sempre primaram por nunca apontar uma única medida de actuação prática, como se o problema alguma pudesse ser resolvido dentro do actual enquadramento político-económico de matriz neoliberal e de desregulamentação das actividades económicas. 

Sabendo-se que os prejuízos para a economia induzidos pelo sector financeiro já atingem quase os 17 mil milhões de euros e após várias comissões parlamentares de inquérito à banca era mais que tempo de serem tomadas medidas efectivas para minimizar aquele tipo de problemas. As hipóteses são conhecidas, passam por uma separação entre as actividades bancárias de natureza comercial e as de investimento e/ou especulação, a limitação à capacidade de criação de moeda pelos bancos e uma efectiva regulação pelo Banco Central, venha a vontade (ou a coragem) política para as implementar!

segunda-feira, 1 de julho de 2019

VISTAS CURTAS


A leitura da notícia que dava conta que fora um «Cartoonista dispensado após publicar desenho com Trump a jogar golfe ao pé de migrantes mortos», recordou-me o episódio ocorrido com o cartoonista nacional António, quando o NEW YORK TIMES publicou este seu trabalho:


Reacções de Donald Trump e do poderoso lóbi judaico levaram a que fosse o «Cartoon de António acusado de anti-semitismo. NYTimes pede desculpas por o publicar» e alguns dias depois ficámos a saber que «Após polémica com António, "The New York Times" elimina "cartoons"», no que poucos se lembraram de equiparar a inquisitoriais processos de censura prévia.

De nada serviu quem lembrasse que «99% do mundo concorda com o cartoon de António», ou que existe todo um mundo de diferença entre anti-semitismo e anti-sionismo. 

Mas, melhor que muitas palavras deixo aqui trabalhos de dois outros cartoonistas – o cartoonista costa-riquenho Arcadio Esquivel e a venezuelana Rayma Suprani que foi dispensada em 2014 do jornal El Universal depois de realizar um cartoon de Hugo Chavez – comentaram esta situação, com uma argúcia e uma visão própria da sua arte, onde o primeiro antecipa o epitáfio do jornal…


…e a segunda deixa uma comparação entre o 11 de Setembro e as tesouras censórias.


quinta-feira, 20 de junho de 2019

VAZA JACTO


A publicação pelo jornal on-line The Intercept da transcrição de inúmeras conversas entre o ex-juiz Sérgio Moro e os procuradores que investigavam o caso Lava Jacto veio pôr a nu o que muita gente suspeitava: por detrás do julgamento e condenação de Lula da Silva havia uma bem urdida teia com manifestos interesses políticos.


No rescaldo das notícias, Sérgio Moro defende-se com o argumento que mensagens trocadas com procuradores foram obtidas por “grupo criminoso organizado” e nega “conluio” com procurador do processo “Lava Jacto” mas o portal de investigação jornalística responde com a acusação de que Sérgio Moro ter-se-á oposto a investigar Fernando Henrique Cardoso, reacendendo a questão da dimensão política da actuação do aparelho judicial brasileiro.

De momento será prematuro afirmar se o escândalo ditará ou não a demissão do ministro sensação do governo Bolsonaro, mas quase certo é um novo recrudescimento no confronto entre críticos e apoiantes de Lula da Silva. A verdadeira dimensão destas revelações ainda está para ser avaliada; para já soma-se o descrédito do aparelho judicial à evidente divisão entre críticos e apoiantes do actual governo e ao agravamento das tensões sociais e políticas por terras de Vera Cruz.