
Independentemente da louvável intenção de pretender repor um mínimo de justiça num sector de actividade onde toda a gente sabe que há vários anos campeia a maior das “desregulamentações” – o problema não se circunscreve ao elevado volume de horas de trabalho suplementar não remuneradas, estende-se à prática de criação de empresas “associadas” para a prestação de serviços para onde são “transferidos” os trabalhadores, a manutenção de inúmeros trabalhadores contratados a prazo e “felizes jovens licenciados” contemplados com “estágios remunerados” – e onda a grande massa de assalariados tem assistido à redução real dos seus salários fixos por contrapartida com a “atribuição” de subsídios e prémios indexados a conceitos pessoais e arbitrários de produtividade e mérito profissional.
De acordo com a notícia, que refere os cálculos realizados pelos sindicatos bancários, o valor das horas suplementares não remuneradas nos últimos dez anos ascende a cerca de 84 milhões de euros, correspondendo a uma média semanal de 14 horas de trabalho suplementar por trabalhador.
A iniciativa da IGT (Inspecção Geral do Trabalho) terá o mérito de reduzir o duplo prejuízo para a sociedade, que se traduz na redução de:
- o poder de compra dos trabalhadores que acarreta uma inevitável retracção no mercado de bens e serviços;
- das receitas fiscais do país, seja por via directa, em termos de IRS e contribuições para a Segurança Social, seja por via indirecta, na redução do IVA arrecadado fruto da retracção no mercado interno;
apenas lamento que aquela não constitua mais que uma manifestação da hipocrisia que campeia no aparelho de estado português.
Se o objectivo da actuação da IGT é a de fazer cumprir a legislação em vigor sobre o mercado de trabalho (nomeadamente as condições remuneratórias e de higiene e segurança) não se entende como é que apenas de tempos a tempos (a última iniciativa sobre este sector de actividade decorreu há mais de três anos) sejam efectuadas as respectivas inspecções e estas sejam previamente anunciadas nos órgãos de comunicação.
Não é seguramente para avisar as entidades patronais (estas sabem perfeitamente quando tal vai ocorrer), nem para mobilizar as esquipas de inspectores da IGT, pelo que fica por esclarecer a real finalidade desta informação, a menos que a notícia apenas sirva para daqui a uns dias o governo vir a anunciar que procedeu à normalização das condições de trabalho do sector financeiro, pelo que não haverá razões para em 2006 se vir a registar qualquer aumento salarial num grupo sócio-profissional que já beneficia de vastas “mordomias”. Entre as maiores se contam:
- as facilidades de crédito, com taxas indexadas à Euribor (como toda a gente) e agravadas pela obrigatoriedade de celebração de hipoteca e seguro de vida;
- o subsistema de apoio na saúde, para o qual os bancários sempre descontaram e que agora os banqueiros se preparam para integrar no regime geral;
- o sistema de reformas que deverá a breve prazo ser integrado na Segurança Social, como já aconteceu com o fundo de pensões da CGD;
conjunto que por si só, no entender das estruturas directivas das empresas financeiras, mais que justifica o não pagamento do trabalho suplementar bem como a persistente redução dos quadros dos trabalhadores - cada vez menos necessários face à introdução das modernas técnicas de automação do trabalho - estratégia cada vez mais utilizada tendo em vista o aumento dos lucros, como se pode comprovar da notícia, também hoje difundida pela AGÊNCIA FINANCEIRA, sobre os lucros superiores a 750 milhões de euros registados em 2005 pelo Millennium BCP e sobre os objectivos anunciados para os próximos anos, traduzidos no «crescimento de resultados por acção superior a 20% até 2008, com aumento dos proveitos da Banca de Retalho e redução contínua dos custos com pessoal».
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