Os EUA voltam a oferecer-nos um dos grandes acontecimentos da semana. Desta vez tratou-se da apresentação oficial do relatório do Grupo de Estudos para o Iraque, comissão bipartidária, também conhecida por “Comissão Baker” por um dos seus presidentes ser o republicano e ex-secretário de estado James Baker.
Já em anteriores ocasiões, como a propósito da redefinição de fronteiras no Médio Oriente e sobre a oportunidade de uma política de diálogo, me referi a esta comissão e às possíveis conclusões que o seu trabalho apresentaria. Tal como então previ o relatório não defende nem a retirada nem o reforço da presença norte-americana no Iraque; em poucas palavras poderá ser este o resumo do extenso documento:
- a situação no Iraque é grave e está a deteriorar-se;
- se a situação se continuar a deteriorar o governo iraquiano poderá entrar em colapso e provocar uma catástrofe humanitária;
- os EUA devem abrir uma via diplomática para construir um consenso que conduza à estabilidade do Iraque e da região, nele incluindo os países vizinhos;
para alcançar os seus objectivos no Médio Oriente, os EUA terão de abordar e resolver a questão israelo-árabe;
para alcançar os seus objectivos no Médio Oriente, os EUA terão de abordar e resolver a questão israelo-árabe;
- o empenhamento americano na questão israelo-árabe deve incluir conversações directas entre Israel, o Líbano, os Palestinianos (que reconheçam o direito à existência de Israel) e a Síria;
- os EUA devem reforçar o apoio político, económico e militar ao Afeganistão, incluindo meios que ficarem disponíveis com a retirada do Iraque;
- a principal missão dos EUA no Iraque deve ser o apoio ao exército iraquiano;
o governo iraquiano precisa de mostrar, ao seu povo e ao americano, que merece o lugar que ocupa;
o governo iraquiano precisa de mostrar, ao seu povo e ao americano, que merece o lugar que ocupa;
- até ao primeiro trimestre de 2008, em função da evolução da situação no terreno, as forças americanas dispensáveis para a protecção deverão ser retiradas do Iraque;
- os EUA não devem assumir o compromisso de conservar um grande número de tropas no Iraque;
que no essencial aponta para a necessidade de substituir a abordagem militar pela diplomática como forma de permitir uma retirada digna para os americanos.

Ressalvada esta questão, não deixa de não ser paradigmático o facto de entre as razões para o desenvolvimento da violência o relatório mencionar, por esta ordem «…a insurgência sunita, a violência xiita e os esquadrões da morte, a Al-Qaeda e a criminalidade generalizada». Contrariamente à administração Bush que depois de desmascarada a tese das armas de destruição em massa de que Saddam Hussein disporia, passou a usar e abusar do chavão do combate ao terrorismo e à Al-Qaeda para fundamentar a invasão do Iraque, o relatório da “comissão Baker” atribui à convulsão política e religiosa originada com o derrube do regime de Saddam a principal fonte da instabilidade actual no Iraque.
Igualmente curiosa é a proposta do relatório de que ao governo iraquiano seja exigida maior quota-parte de acção no combate contra os “rebeldes”; em declarações posteriores até já se começou a falar em aplicar sanções ao governo de Al Maliki caso este não obtenha resultados naquele combate.

Ganham assim maior importância e novos contornos as recentes sondagens realizadas no Iraque que dão conta da insatisfação das populações perante o actual estado do país e do facto de os tempos de Saddam serem lembrados com saudade.

Neste contexto quem, de boa fé, poderá esperar alguma alteração significativa na política externa americana?
Mesmo que a nova distribuição de poder nos EUA, com os republicanos na Casa Branca e os democratas na Câmara de Representantes e no Congresso, possa vir a introduzir alguma moderação nos dois últimos anos de mandato de George W Bush, dificilmente isso se traduzirá em significativa alteração no cenário de conflito que se vive no Médio Oriente. Mesmo que se admita como mais remota a hipótese da crise nuclear iraniana se concluir por um ataque norte-americano (atenção que o reactor Osíris iraquiano foi bombardeado pela aviação israelita e então essa acção só ocorreu com o conhecimento prévio e o beneplácito americano, algo que se pode voltar a repetir) isso pouco contribuirá para a pacificação de uma região onde os interesses (e os milhões de dólares) investidos falam mais alto.
Enquanto nos EUA se continuam a esgrimir relatórios e trocas de declarações entre políticos, enquanto na Europa cada estado vai anunciando boas intenções e apelando, consoante os seus próprios interesses no Médio Oriente (ou simplesmente em agradar aos americanos), no Iraque e na Palestina continua-se a morrer sem que se vislumbre utilidade, ou apenas um fim à vista, para tudo isto.
Dos locais onde as grandes decisões são tomadas e onde os efeitos das mortes são avaliados em dólares ou na subida das cotações do “crude” e dos índices bolsistas, apenas se pode esperar que tudo continue como até aqui. Tanto mais que os lucros não têm parado de crescer…
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