
Para quem possa ter alguma dúvida, basta recordar os mais de 3.000 mortos ou desaparecidos que as estatísticas (as possíveis de elaborar) revelaram e as mais de 30.000 pessoas submetidas a prisão arbitrária e tortura, tudo em nome da “sacrossanta” luta contra o comunismo. Sim, porque convém não esquecer que o governo democraticamente eleito que derrubou era encabeçado por um perigoso comunista, nacionalizador de empresas e terras, patrono de uma reforma agrária e de muitos outros “crimes” caso tivesse permanecido no poder.
Felizmente Pinochet e o exército chileno puderam contar com o desinteressado auxílio dos EUA (na altura governado por Richard Nixon, o único presidente americano que se viu obrigado a demitir-se por espionagem política) que através de uma das suas agências (a CIA, no caso concreto) investiu milhões de dólares num programa de sublevação e de desestabilização económica para derrubar Allende. Resultado: além dos milhares de mortos e desaparecidos, da banalização do desrespeito dos mais elementares direitos humanos, Pinochet e o seu governo militar rapidamente inverteram o processo de nacionalizações iniciado por Allende, devolvendo aquelas empresas aos seus proprietários, incluindo a exploração do minério de cobre aos americanos, e como prémio acrescentou ainda sectores tradicionalmente públicos como os telefones, a electricidade e os transportes aéreos.
Tudo isto foi feito em prol do combate à inflação e ao deficit externo e mereceu o apoio e o aplauso de um dos economistas mais reputados da época: Milton Friedman, o designado “pai” da “escola de Chicago”, que além de mentor de Pinochet seria mais tarde um dos ideólogos mais ouvido pela equipa de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher.
Bem podem clamar os ainda hoje seus indefectíveis apoiantes que sem a intervenção de Pinochet a economia chilena caminhava para o colapso e que a situação relativamente saudável que ela hoje atravessa a ele se deve. É certo que com tão radicais medidas (e sem o contra vapor americano) a economia chilena conheceu anos de grande crescimento, mas isso foi fundamentalmente alcançado à custa da redução dos salários e do nível de vida da esmagadora maioria da população chilena, que no final do consulado militar (Março de 1990) apresentava um quarto da população a viver abaixo do limiar de pobreza e, pasme-se, uma dívida externa várias vezes superior à de 1973.

Debate económico e político aparte, resultou da morte de Pinochet algo que muita gente classifica de flagrante injustiça – mais de uma década após o seu afastamento do poder nunca as suas vítimas lograram ver aplicada a justiça que mereciam. Bem pregarão aqueles que recordam que a restauração do regime democrático no Chile e noutros países da América Latina é por si só o reconhecimento e a celebração de uma certa justiça àquelas vítimas, mas, em nome da mais elementar justiça Pinochet não podia ter morrido sem ter sido julgado e condenado em conformidade com as suas responsabilidades durante o período da ditadura militar.
Não é por isso de estranhar que desde ontem seja notícia nos jornais o que está a acontecer no Chile, onde a par com os que choram a morte do ditador outros saíram à rua para manifestar a sua alegria.
Triste espectáculo a de se ver comemorada em praça pública a morte de alguém, mas inevitável quando uma sociedade, e os seus governos, permitem que malabarismos judiciais se sobreponham ao superior interesse nacional que é o de julgar mais que evidentes suspeitos da prática de crimes contra a humanidade.
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