quarta-feira, 27 de maio de 2015

A CULPA, SEGUNDO CÉSAR DAS NEVES

Pela pena do Prof. César das Neves (e pelas páginas do DN) ficámos a saber que «…a nossa economia está saudável e até tem recuperado bem do terrível choque da crise. O que estraga tudo é o parasitismo do vasto sector GES» ou seja, «…os mortos-vivos, alimentados artificialmente por rolamentos de dinheiros que encobrem inanidade produtiva».

Tivessem já ocorrido as próximas eleições legislativas e o duo Passos Coelho/Paulo Portas tivesse sido varrido para os confins do olvido e o ilustre Prof teria concluído a sua análise com um remissor “voltem! estão perdoados!”, pois a ausência de crescimento económico e a manutenção das elevadas taxas de desemprego não mais serão imputadas à famigerada política da “austeridade-expansionista”.

É claro que a desresponsabilização política inerente à análise que produziu em «O sector GES» não é estranha ao período pré-eleitoral que atravessamos nem ao afã de escamotear o completo fracasso da estratégia austeritária, mas insere-se perfeitamente no aviso que a deputada e membro da Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES, Mariana Mortágua, deixou no encerramento daquele processo: «"O maior erro é achar que isto é culpa do Ricardo Salgado"».



E a enormidade do erro não se resume à desculpabilização que os demais responsáveis políticos e económicos não deixarão de ensaiar, antes ao medonho risco de voltarmos a ver repetidos os mesmos erros.

terça-feira, 26 de maio de 2015

O ENGANO DAS TAXAS

Na semana que terminou com a realização na prazerosa e romântica Sintra duma cimeira dos bancos centrais, foi notícia que «Portugal emitiu dívida com taxa negativa». Tanto bastou para ouvirmos as habituais loas e demais declarações dos costumeiros políticos e comentadores, quase todos esquecendo de referir que se tratava duma emissão de Bilhetes de Tesouro (dívida a muito curto prazo) na qual «Portugal paga taxa negativa para se financiar a seis meses».

Os mais atentos, ter-se-ão questionado sobre a razão pela qual as principais agências de rating (Fitch, Moody´s e a Standard&Poor’s) manterão ainda a classificação “lixo” para a dívida pública portuguesa; se afinal os investidores até aceitam pagar para comprar BT´s e, como asseguram alguns comentadores, a situação do país é francamente melhor, será como afirmou Passos Coelho que as «Agências esperam pelas eleições para subir "rating"»? ou pelo contrário a sua apreciação é a mais adequada?


Na realidade o movimento de descida das taxas de juro das dívidas denominadas em euros tem mais a ver com uma situação de excesso de liquidez (a prova é que a descida se verifica apenas nos prazos muito curtos) que com a melhoria dos indicadores económicos ou a convicção dos investidores sobre a segurança das suas aplicações. Para este aumento de liquidez têm contribuído dois factores: o aumento da injecção monetária pelo BCE e a eficácia das políticas de austeridade na concentração da riqueza em sectores cada vez mais reduzidos da economia.

Talvez desta vez quem esteja a revelar melhor capacidade de análise sejam as agências de rating (tanto mais que no caso português a situação de endividamento e o rácio dívida/PIB continuam a degradar-se, como se infere da afirmação que estará a «DBRS à espera da redução da dívida para subir "rating" a Portugal») e tudo não passe duma situação conjuntural onde se juntam taxas de inflação negativas com descida de preços de activos como o petróleo (indicador seguro de quebra na produção) a par com situações geopolíticas de elevada volatilidade (Ucrânia e Médio Oriente).

Certo é que a mais errada de todas as interpretações foi a de Passos Coelho, pois não será a continuidade ou a alternância de governo que alterará a apreciação nem a situação duma economia empobrecida à força, com os seus principais activos vendidos a preço de saldo, há muito órfã de qualquer estratégia de desenvolvimento e na qual o principal motor continua a ser o sector dos serviços.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

LAR... PARA QUEM?

Não foi surpresa ler na imprensa nacional que invocando medidas de segurança, o novo governo israelita decidiu implementar um projecto-piloto (diz-se que com uma duração de três meses) que determina os «Palestinianos impedidos de circularem nos autocarros com israelitas».

Bastará reler o “post” «LAR QUÊ?», que recentemente editei sobre a formação daquele governo, para perceber que estariam prestes a ruir os restos de prurido entre os dirigentes daquele que é o último regime de “apartheid”. Israel e os sucessivos governos, que tanto gostam de se proclamar como a única democracia do Médio Oriente, estão afinal entre o que de mais abjecto e inumano existe na região e no Mundo.

Não bastando o tratamento de autêntico gueto a que condenaram a população palestiniana da Faixa de Gaza, as constantes humilhações que praticam sobre os palestinianos da Cisjordânia ao abrigo da política dos colonatos, eis que decidiram agora que a mão-de-obra palestiniana de que não prescindem passe à situação de subespécie humana.


Não contentes com o enxovalho diário infligido nos postos de controlo aos milhares de palestinianos que vão diariamente trabalhar em território ilegalmente ocupado, eis que os dirigentes do povo-eleito decidiram agora apoiar as pretensões dos colonos judaicos e ampliar esse fosso, de tal modo se propuseram fazê-lo que nem durante o período da segregação racial nos EUA, quando os negros apenas podiam viajar na traseira dos autocarros, alguma vez foi tentado impedir a partilha dos transportes públicos em que no final do dia são aqueles trabalhadores devolvidos aos tugúrios onde os deixam sobreviver.

A revolta perante tal decisão nem sequer esmorece com a informação de que poucas horas depois o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu anunciou a suspensão da medida… aberto mais um precedente, outros se seguirão!

quinta-feira, 14 de maio de 2015

NOTA PARA OS MAIS DISTRAÍDOS

Nota para os mais distraídos: 2015 é um ano eleitoral para Portugal e vários países da UE.


Para quem ainda não se tenha apercebido dum certo clima eleitoral nas notícias e nos discursos dos principais líderes políticos, bastaria saber que o vice-presidente da Comissão Europeia responsável pelo Euro e ex-primeiro-ministro da Letónia, Valdis Dombrovskis, disse que «Bruxelas vê "certo espaço" para Portugal começar a levantar medidas de austeridade» para perceber que estará em jogo algo muito importante… tão importante que justifica a mobilização de todos para o debate que os poderes instalados quererão limitar às habituais tricas e fait divers com que escondem a verdadeira dimensão dos problemas.

Repetindo o recurso a uma vasta gama de truques de malabarismo, tudo farão para voltar a iludir os eleitores, como saber que «Passos compara governação a processo de cura com efeitos secundários» esquecendo de referir que estes podem ser fatais.

terça-feira, 12 de maio de 2015

REINO (DES)UNIDO

A notícia sensação da passada semana foi a grande vitória dos conservadores nas eleições britânicas e o enorme fracasso das previsões que deram até à última da hora um empate técnico entre conservadores e trabalhistas.

Confirmadas as sondagens à boca das urnas que davam os «Conservadores com maioria absoluta no Reino Unido» e as subidas do SNP (partido nacional escocês que elegeu 56 dos possíveis 59 deputados) e do UKIP (partido xenófobo que, devido às características dum sistema eleitoral que integra círculos uninominais e sem distribuição proporcional de mandatos, apenas elegeu um deputado mas obteve mais de 4 milhões de votos), bem se pode dizer que o novo governo de David Cameron vai viver espartilhado entre dois nacionalismos: o escocês, de vertente independentista mas europeísta e o inglês de marcado pendor xenófobo e anti-europeu.


Com a já antecipada viragem à direita do Partido Conservador (vista como resposta às subidas eleitorais do UKIP e confirmada com a notícia que o «Reino Unido já vetou plano de quotas de refugiados na UE» e com o anúncio de que «Cameron quer referendo sobre saída da UE em 2016»), tudo parece conjugar-se para um redesenho do mapa europeu, sem que tal represente significativa melhoria.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

CONTINUAMOS A OUVIR MENTIRAS…

Que o recurso às mais elaboradas técnicas de marketing há muito entrou no dia-a-dia dos acontecimentos políticos, já pouco gente duvidará.

Parece igualmente eliminada a dúvida de que nas últimas eleições legislativas o eleitorado nacional foi conduzido a escolher quem nunca tencionou cumprir qualquer das promessas públicas, já que as privadas terão sido asseguradas a um círculo restrito de escolhidos e só as fomos conhecendo à medida das necessidades.

Ainda assim, será natural que a mentira e o embuste estejam de tal maneira enraizados que no último debate parlamentar o primeiro-ministro tenha afirmado que o seu governo criou 130 mil empregos, no mesmo dia em que o INE anunciava que o «Desemprego sobe para 13,7% no primeiro trimestre» do ano?

Claro que logo houve quem lembrasse que se «Passos diz que criou 130 mil mas há menos 29 mil empregos desde 2013», realidade que a população sente de forma directa e dolorosa, a ponto de haver quem humorize sobre as reais capacidades do Governo.


O julgamento político desta plêiade de incompetentes e mentirosos aproxima-se, mas que o personagem continue a mentir com a mesma desfaçatez, isso carece de análise e diagnósticos doutro foro...

quinta-feira, 7 de maio de 2015

LAR QUÊ?

No dia em que decorrem umas disputadas eleições no Reino Unido chegam finalmente de Israel notícias de que «Netanyahu consegue apoio de última hora para formar governo», no quadro parlamentar resultante das eleições que tiveram lugar em meados de Maio.

Confirmando as dificuldades na constituição dum acordo para formação do governo, foi preciso uma extensão do prazo para alcançar um acordo com o partido ultra-nacionalista Bait Yehudi (Lar Judaico) que permitirá a Benjamin Netanyahu uma maioria parlamentar frágil (61 dos 120 votos no Knesset) e, quiçá, politicamente suicida.

Fracassado o acordo com o também ultra-nacionalista Avigdor Lieberman (ministro dos Negócios Estrangeiros do anterior governo e líder do Yisrael Beitenu), Netanyahu ficou obrigado a aceitar as imposições de Naftali Bennett (líder do Bait Yehudi) ou ver-se desapossado do cargo de primeiro-ministro. Talvez o orgulho pessoal, ou a mera necessidade, tenham falado mais alto, mas o facto é que Israel passará a ter um governo permanentemente refém das exigências e dum partido ultra-nacionalista defensor de mais anexações territoriais na Cisjordânia e da construção de mais colonatos, opções que contrárias às defendidas pelos EUA e a UE.


O futuro governo israelita não entregará apenas a pasta da Justiça a Naftali Bennett – opção particularmente polémica depois dos recentes acontecimentos que levaram a comunidade de origem etíope a manifestar-se contra o tratamento racista de que tem sido alvo e a imprensa a relatar a situação dizendo que a «"Panela de pressão explodiu" entre os próprios israelitas» – mas, ao que tudo o indica, terá hipotecado todo o seu futuro relacionamento com a comunidade internacional, para não falar na pronta reacção palestiniana que já classificou o governo que sairá do acordo como contrário à paz.

Mesmo esquecendo a eterna questão palestiniana, parece cada vez mais oportuna a interrogação que todos os israelitas deveriam formular em voz alta: lar quê?

quarta-feira, 6 de maio de 2015

REVOLTAS

Desde o agudizar da Crise Global que houve quem lembrasse as semelhanças com a Grande Depressão (crise que se arrastou de 1929 até ao deflagrar da II Guerra Mundial e que ficou celebrizada na história norte-americana pelos exércitos de desempregados que vagueavam em busca de trabalho) e o seu caudal de misérias humanas.

O mesmo parece agora repetir-se com o reacendimento da questão racial nos EUA e o aumento da xenofobia na Europa. Os acontecimentos que conduziram aos motins de Ferguson e Baltimore, o drama e a cínica falta de medidas concretas para resolver a questão dos migrantes no Mediterrâneo e até o teor da campanha eleitoral inglesa (onde o partido nacionalista e xenófobo, UKIP, parece pesar cada vez mais e onde se especula que a «Escócia pode ditar futuro Governo no Reino Unido») que hoje se encerrou, são faces do mesmo problema: um acumular de factores e situações que, numa sociedade desprovida de coesão, tarde ou cedo deflagram em algo mais violento.



A grande maioria das causas estão perfeitamente identificadas dum lado e do outro do Atlântico, mas ao que tudo indica isso ainda não afecta a oligarquia instalada.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

A MESMA MÚSICA

São cada vez mais claros e evidentes os sinais que atravessamos já um período de campanha eleitoral; digo-o em função das declarações dos principais actores e duma ou outra “novidade” política, a mais recente das quais foi o anúncio da coligação PSD/CDS para as próximas legislativas.

Se dúvidas houvesse que não restava outra alternativa aos parceiros governativos, bastaria ter lido o relatório “Uma década para Portugal” – proposta subscrita por um conjunto de economistas sob o alto patrocínio do PS – para perceber que com aquele programa o PS passaria a assumir-se como uma verdadeira alternativa à governação PSD/CDS.

Os mais calejados nestas disputas pelo poder dirão que outra coisa não era de esperar; tal tem sido a regra de alternância entre uns e outros ao longo das últimas décadas. A novidade é que à enfadonha repetição do apelo ao “centrão” – protagonizada pelo inquilino de Belém – o PS parece estar a responder com um verdadeiro desafio ao duo Passos Coelho/Paulo Portas. Mas estará?

Lido e relido o documento e deixando para ocasiões que não faltarão no futuro uma apreciação mais detalhada sobre alguns dos seus aspectos, que conclusão se pode retirar dum texto onde abundam as referências politicamente correctas mas iguais no essencial às ideias centrais do liberalismo económico?

É claro que nem tudo é negativo – como é o caso da proposta de recuperação do Imposto Sucessório (incidindo sobre as heranças de elevado valor) ou a proposta de agravamento da tributação sobre o património imobiliário não utilizado como residência (ainda que fique a dúvida se a intenção é privilegiar a habitação principal ou apenas onerar o uso comercial ou industrial) – mas o que de positivo resulta duma proposta onde à partida se reafirma a ideia dum Estado limitado às mais essenciais funções de soberania? Em que é que isto difere do conceito ordoliberall do estado minimalista?

Depois de lido no documento que o PS, tal como se propõem PSD e CDS, também pretende descapitalizar a Segurança Social (via redução da TSU); que, tal como PSD e CDS, também não tenciona reverter a política de reduções salariais (no máximo propõe reduzir os prazos propostos pelo actual governo) nem repor o princípio da progressividade no IRS ou qualquer imposição fiscal sobre as mais-valias, não faz a mínima alusão à revisão da política de salário mínimo e até propõe subsidiar os salários baixos quando defende a atribuição dum complemento salarial anual, tendo a concluir que uma reacção onde o «PSD questiona PS sobre cenário macroeconómico e insiste numa análise independente» (desviando o debate da esfera política para “técnica”) e o rápido anúncio formal da coligação PSD/CDS deve ser entendido como sinal de que existe uma clara alternativa de direita à política do actual governo.

Partindo dum diagnóstico que vai muito além do lugar-comum da culpabilização da dívida e do despesismo, mas esquecendo nas propostas qualquer contributo para contrariar a situação (como seja a eventual reestruturação dívida e a indispensabilidade de reformar a moeda única), o documento acaba por se revelar perfeitamente inserido na mesma área económico-social (a do liberalismo económico) do PSD; a proposta do PS poderá contestar a hegemonia da via única da austeridade-expansionista, embora pouco mais faça que agitar algumas promessas, mas nunca ameaçar o essencial do objectivo que partilha com PSD e CDS e continua a ser o de assegurar a continuação do processo de concentração da riqueza em benefício duma minoria de ultra-ricos.


Posto isto, o comentário que pronto me ocorreu foi a recordação duma piada que data do tempo em que, no rescaldo do PREC, o PPD se converteu em PSD e quando todos os partidos ainda incluíam no seu programa político a menção do “caminho para o socialismo”, aquela transformação era comentada como imagem real dos dois principais partidos, pois o “caminho para o socialismo” ‘proposto pelo PS só era mais rápido que o do PSD por este ser a diesel…

sábado, 25 de abril de 2015

LEMBRANDO ABRIL

Há demasiado tempo que as comemorações oficiais do 25 de Abril deixaram de lustrar a verdadeira dimensão e propósito daquele acontecimento. Lembrar Abril passou a ser um acto mecânico levado a cabo com maior ou menor empenho mas nunca com alma ou emoção.

Os discursos oficiais passaram a reflectir outros valores que não os da liberdade e da igualdade e pior ficaram depois que o Palácio de Belém passou a ser ocupado por um reformado que habitualmente nos mimoseia com «…um arrazoado de banalidades, redigido num idioma de eguariço» (como aqui escreveu Baptista Bastos).


Compensando a baixeza das cerimónias oficiais e a ladainha presidencial, voltaram a ser outros os locais onde se fizeram as comemorações, lembrando aqueles que deram voz à resistência ou na rua protestando contra a forma como temos sido governados.


terça-feira, 21 de abril de 2015

MEDITERRÂNEO MORTAL

Não constituindo novidade o verdadeiro calvário que as populações africanas em fuga da fome, miséria e guerras têm vivido nos últimos anos no Norte de África, com o início da Primavera reactivaram-se as tentativas desesperadas para atravessar o Mediterrâneo que as separa da almejada Europa. Como consequência aumentaram também o número de naufrágios e demais desventuras náuticas, ou não fossem estes migrantes transportados em embarcações sem um mínimo de condições de segurança e até de navegabilidade.


A imprensa europeia voltou a encher-se de manchetes, como a que refere a ocorrência da «Maior tragédia de sempre no Mediterrâneo. Mais 700 mortos a somar aos 4500 dos últimos 15 meses», e de pronto chegou a notícia que solícitos e empenhados «Chefe de Estado e de Governo vão reunir-se de emergência para discutir tragédia no Mediterrâneo». Da reunião extraordinária dos 41 ministros dos Negócios Estrangeiros e da Administração Interna dos estados-membros da UE (aquela organização que nos últimos anos tem primados pela rapidez e qualidade das suas resoluções) resultou um conjunto de medidas de acção imediata (para serem analisadas na próxima cimeira extraordinária que reunirá os 28 chefes de Estado e de Governo da UE), assim enumeradas pelo EXPRESSO:

«As 10 medidas de acção imediata:
1.      A UE vai reforçar as operações de patrulhamento marítimo do Mediterrâneo, denominadas Triton e Poseidon, concedendo-lhes mais dinheiro e equipamento. A UE vai também expandir o patrulhamento para uma área marítima mais ampla.
2.      O bloco vai fazer um esforço sistemático para capturar e destruir embarcações usadas pelos traficantes de pessoas, usando a "Atalanta", a operação anti-pirataria na Somália, como modelo. Os responsáveis da UE indicaram que será uma operação conjunta civil e militar, não especificando mais.
3.      Os agentes responsáveis pelo cumprimento da lei da UE, pelo controle de fronteiras, as instituições encarregues da concessão de asilos vão reunir-se regularmente para trabalharem de forma mais próxima para recolherem informação sobre o modo como os traficantes operam, para rastrear o seus fundos e auxiliar nas investigações em torno deles.
4.      O gabinete da UE para apoio aos refugiados irá destacar equipas em Itália e na Grécia para um processamento conjunto das candidaturas para obtenção de asilo.
5.      Os governos da UE vão registar as impressões digitais de todos os migrantes.
6.      A UE irá considerar todas as opções para um "mecanismo de relocalização de emergência" dos migrantes.
7.      A Comissão Europeia irá lançar um projecto voluntário piloto para a reinstalação dos refugiados por toda a UE.
8.      A UE vai estabelecer um novo programa para o rápido regresso dos migrantes 'irregulares' coordenado pela agência da UE Frontex para os países do Mediterrâneo da UE.
9.      A UE vai empenhar-se através da Comissão e dos serviços diplomáticos da UE para desenvolver um esforço conjunto com países vizinhos da Líbia.
10.  A UE vai destacar responsáveis dos gabinetes de imigração para fora do seu território para reunir informação sobre os fluxos migratórios e para fortalecer o papel das delegações da UE.»

Estas medidas destacam-se por uma forte componente burocrática (que outra coisa seria de esperar…) e uma breve referência a «…um esforço conjunto com países vizinhos da Líbia», no que aparenta ser a única aproximação ao cerne do problema: a criação de mais um estado inviável no território líbio, originado após a acção concertada entre europeus e americanos para o derrube de Muammar al-Kadhafi.

Depois de décadas de abandono económico e político, no afã de afastar um ditador o Ocidente voltou a repetir os erros cometidos noutras partes do mundo e em especial nos territórios muçulmanos do Afeganistão e do Iraque, criando uma situação caótica onde os heterogéneos opositores (desde os laicos mais ou menos moderados até aos fundamentalistas muçulmanos) passaram a guerrear-se entre si e a financiar essa actividade através do “transporte” de migrantes do sul do Sahel e de todos os que queiram fugir ao conflito e à crescente influência dos radicais islâmicos.

É claro que a simples referência aos milhares de mortos já registados é suficientemente perturbadora das consciências para merecer atenção e uma solução adequada, porém aquilo que os dirigentes da UE se preparam para implementar será tão-somente um reforço das medidas de protecção da sua fronteira marítima (o Mediterrâneo), numa clara transformação daquele foi o “Mare Nostrum” que ao longo de séculos facilitou e fomentou as trocas comerciais e de ideias entre a Europa e o Mundo Islâmico, porque uma solução orientada para o investimento e a inclusão dos povos – que não conseguem, ou não querem, realizar no interior do seu próprio espaço económico – está completamente arredada das suas cogitações.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

A UE E A GRÉCIA

Enquanto no plano interno, quando já há quem anteveja que as «Eleições presidenciais de 2016 ameaçam recorde de candidatos em 1986», parece cada vez mais evidente que não é apenas a campanha para as eleições legislativas que está em curso, no plano europeu o centro de atenções continua a ser a situação grega sobre a qual se diz que «Bruxelas admite que não haja acordo com a Grécia até ao fim do mês».


Sendo certo que os sectores afectos ao pensamento ordoliberal insistem na tónica de que o problema grego é fundamentalmente uma questão de natureza orçamental – cuja solução passa pela continuidade, senão pelo aprofundamento, das políticas de austeridade – habituados que estavam à insignificante oposição levantada, talvez estranhem que o novo governo grego ensaie outra solução que não aquela que resultou numa quebra de quase 25% do seu PIB.

Entre reuniões, comunicados e notícias (que não raras vezes pouco mais constituem que verdadeiros ultimatos, como o que ressalta da afirmação produzida pelo porta-voz da CE, o ex-conselheiro económico de Durão Barroso e ex-eurodeputado pelo PPE Margaritis Schinas, de que a «Comissão Europeia “não está satisfeita” com as negociações com Atenas e pede “progressos”» ou das declarações de Wolfgang Schäuble, o ministro das finanças alemão, que embora dizendo que «"Temos responsabilidades para com a Grécia e não vamos desconsiderar essa solidariedade"», de pronto as condicionou à submissão grega ao programa negociado com a “troika”) o actual governo grego vai resistindo a repetir as políticas de completa subserviência dos seus antecessores; o tempo escasseia e joga obviamente a favor dos interesses dos credores e dos líderes europeus mais apostados em servi-los que àqueles que os elegeram. A pressão do sector financeiro – seja directamente, por intermédio do BCE ou das agências de notação de risco (de que a recente notícia de que a «Standard & Poor's baixa rating da Grécia» é um claro exemplo) – tem vindo a desgastar a estratégia de resistência do Syriza e faz crescer as hipóteses deste aceder às exigências da UE ou de colapsar e obrigar a nova consulta eleitoral.

Confirmada a evidência do acuamento da posição grega (tanto mais que os anunciados extremistas nunca fizeram qualquer menção ao recurso à “bomba atómica” financeira que seria o “default”, limitando-se a aludir a um possível adiamento dos reembolsos agendados para Maio), persistindo a fragilidade da Zona Euro (especialmente porque a imposição da visão ordoliberal continua a impedir qualquer veleidade de reforma do sistema financeiro do euro) começa a desenhar-se inexoravelmente o cenário da rendição grega, a menos que os processos eleitorais que irão decorrer nos próximos meses por essa Europa tragam para a ribalta política o oxigénio de diferentes ideias e novas abordagens...

sexta-feira, 10 de abril de 2015

COMO ALMADA

Embora ainda recentemente (ver o “post” «LIBERDADES E PRÁTICAS ESCANDALOSAS») tenha manifestado a minha opinião desfavorável ao conteúdo do TTIP (Transatlantic Trade and Investment Partnership), apresentado como uma solução através da qual a «Economia norte-americana pode salvar mais uma vez uma Europa em depressão», como se na actual conjuntura a finalidade dum acordo de comércio livre fosse a salvaguarda doutro interesse que não o das multinacionais e das grandes fortunas que as financiam – claramente evidenciado na inclusão da famigerada clausula ISDS (Investor-State Dispute Settlement) que garantirá às grandes empresas o recurso a tribunais especiais para resolver eventuais conflitos com os Estados –, como se ainda se mantivesse intacta a capacidade imperial de Washington, ou à forma camuflada do grande público como tem sido “negociado”, uma notícia do NEGÓCIOS, que atribui a Durão Barroso a afirmação que o «Impacto de acordo entre EUA e UE "será sentido muito além da economia"» leva-me a recuperar o tema.


É claro, para quem tenha acompanhado o percurso político e a evolução do “pensamento” dum personagem menor que fruto de circunstâncias alheias (ter sido escolhido para anfitrião da cimeira Bush-Blair que decidiu a famigerada invasão ocidental do Iraque) se viu alcandorado à duvidosa tarefa de catalisador da decadência da UE de que foi condutor, que o sentido da afirmação se encontra nos antípodas do que uma leitura apressada possa sugerir. O personagem não pretende alertar os cidadãos para o claro aviso deixado pelo estudo da Fundação Austríaca para Investigação do Desenvolvimento (OFSE na sigla alemã) que, como referi no “post” «O PROBLEMA EUROPEU», antevê que o acordo terá custos sociais elevados e poucos ganhos em termos de salários reais, empregos e PIB, antecipando mesmo uma redução no comércio entre os países membros da UE em cerca de 30% em resultado do aumento da concorrência das importações baratas dos EUA, importações que na sua maioria têm origem nos países asiáticos para onde as multinacionais (que, repito, se querem eximir ao escrutínio dos tribunais nacionais) deslocalizaram a sua produção; o que faz é repetir o vazio argumento da “dimensão histórica” do acordo, a par com o desgastado “discurso do futuro risonho”.

Em síntese, se um dos principais responsáveis pelo fim que se anuncia para a UE se pronuncia a favor do TTIP, apetece-me parafrasear Almada Negreiros e exclamar como ele o fez a propósito de Júlio Dantas: SE O DURÃO É A FAVOR… EU SOU CONTRA!

segunda-feira, 6 de abril de 2015

PROGRAMA DE ASSISTÊNCIA

No dia em que se assinala o 4º aniversário do início da intervenção da “troika”,em que muito se poderia dizer para descrever o seu efeito na economia nacional, eis que o insuspeito EXPRESSO resumiu a situação dizendo que «Portugal tem mais 210 mil pessoas em risco de pobreza ou exclusão desde 2010».


Para quê lembrar a queda de mais de 7% no PIB, o crescimento desemprego para níveis próximos dos 20% (38% no caso do desemprego jovem), a repetição dos défices anuais acima das “metas” e, pasme-se, a subida da dívida pública até aos 130,2% do PIB (em 2010 estava nos 96,2%).

Constatar-se, como o fez recentemente o INE, que a «Recessão com a troika foi maior do que se pensava» é um mero eufemismo que esconde a verdadeira finalidade dum programa económico anunciado para combater o crescimento da dívida pública mas desenhado desde a primeira hora para assegurar o aumento do desequilíbrio no modelo de distribuição da riqueza, concentrando-a num número cada vez menor de super-ricos.

Muitas outras referências podiam neste momento ser invocadas à colação, como a de que «Portugal regista a maior queda nos custos laborais na União Europeia» ou de que «Portugal é o terceiro país da UE com menos vagas de emprego», mas a cereja no topo do bolo, que insistem que traguemos sem contestação, foi “oferecida” quando a «Bloomberg põe Portugal como o 10.º país mais miserável».


Mais palavras para quê?

quarta-feira, 1 de abril de 2015

AIIB

Se a sigla AIIB pouco ou nada lhe diz, está na altura de ficar a saber que significa Asian Infrastructure Investment Bank, que se trata dum banco de investimento patrocinado pela China mas que já conta com mais de quatro dezenas de países fundadores, entre os quais vários europeus (Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Luxemburgo e Suíça).

Como é fácil perceber, trata-se dum banco internacional de investimento, à maneira do FMI e do Banco Mundial e que as estas horas haverá gente para os lados das terras do Tio Sam particularmente interessada em perceber o que está a acontecer.


O mais interessante é que foram os EUA os principais impulsionadores do AIIB quando em 2013 se opuseram à revisão de poderes na gestão e direcção do FMI e do Banco Mundial, indispensável face ao reforço de posições dos países emergentes.

À irredutibilidade norte-americana responderam os chineses com uma clara manifestação de poder e de vontade de o exercer, contando (por incrível que possa parecer) com o beneplácito dos principais países europeus, interessados nos negócios que se irão desenvolver num continente asiático em franco crescimento, que, ao contrário dos americanos, parecem já ter entendido que o século XXI será um século chinês (tal como o século XX o foi norte-americano) e que, depois do colapso do Euro, o Renmimbi (Yuan) é a moeda que se perfila para substituir o dólar americano.