Para além de não constituir novidade a previsão, nem sequer a respectiva data, também o estudo apresentado por aquele organismo internacional não parece ter tido em conta duas importantes variáveis:
- a hipótese de canalização para outra estrutura aeroportuária do tráfego aéreo originado pelas “low cost”;
- o “desvio” de passageiros que será originado pela entrada em funcionamento da ligação Lisboa - Madrid pelo TGV.
De acordo com os estudos realizados pelo Eng.º Rui Rodrigues (ver «VOOS DE BAIXO CUSTO E ALTA VELOCIDADE») e tendo em conta aqueles dois factores o volume de passageiros movimentados através das companhias aéreas “normais” não deverá representar mais de 55% do tráfego total (os restantes 45% distribuir-se-ão entre as “low cost” e o TGV).
O estudo realizado em 1998 pela BAA (organismo que gere os aeroportos britânicos) que estimou um crescimento de 5,7% ao ano e indiciava que o Aeroporto da Portela atingiria o ponto de saturação em 2010, foi de pronto utilizado como argumento imbatível e de forma dogmática para justificar a necessidade de uma nova infraestrutura aeroportuária. As premissas de que partiu podem até ter estado correctas em 1998, porém volvidos 8 anos muita coisa mudou, desde o aumento dos custos com os combustíveis até ao surpreendente “boom” das “low cost”.
A simples entrada em linha de conta com estes novos dados e com a prevista ligação por TGV entre Lisboa e Madrid, levará a que o volume de passageiros a utilizar a Portela apenas atingirá o ponto de saturação (fixado nos 16 milhões de passageiros/ano) daqui a uns 20 anos[1]… caso o governo de José Sócrates ouça o fundamentado argumento de que a solução passa pela utilização de outro aeroporto nos arredores de Lisboa (por exemplo o já existente no Montijo) pelas “low cost”.
Em nome do futuro do nosso país, ninguém deve permitir que opções orientadas por interesses particulares (corporizados nos sectores do imobiliário e da construção civil) se sobreponham ao interesse geral e este apenas pode ser o de uma solução que sem estrangular as hipóteses de desenvolvimento não comprometa financeiramente as próximas gerações.
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[1] Projecção realizada sobre as estimativas da BAA para o volume de tráfego em 2002, à taxa de crescimento anual prevista pela BAA (5,7% ao ano) e ponderada pela estimativa de repartição do tráfego elaborada pelo Eng.º Rui Rodrigues (texto citado)
4 comentários:
Estou de acordo com o principio. Até me parece bem que construam na Ota desde que não aterrem lá aviões...
Este é um assunto demasiado importante para ser decidido de ânimo leve ou de forma apaixonada.
Eu proponho que se construa um aeroporto na Ota, outro em Rio Frio e outro no Poceirão e deixemos que o tempo e o mercado decidam qual a melhor solução.
Deixemos o mercado decidir! Chega de intervenção estatal.
Tudo estaria bem, se o mercado não funcionasse à custa dos impostos de cada um de nós, ou acredita que os "interesses privados" investiriam um cêntimo num novo aeroporto em circunstâncias de incertezas?
Não sou ingénuo, em Portugal o estado é muito generoso com os nosso impostos, quando se trata de interesses privados, pelo menos de certos interesses e de certos privados.
Mas não me parece estranho que se pretenda construir um novo aeroporto para Lisboa e olhando para a nossa rede de autoestradas não me parece estranho que esse aeroporto seja na Ota. Já me parece estranho que toda a gente esteja contra, mesmo os que no passado defenderam esta solução.
Pessoalmente gostaria que fosse escolhido a melhor solução, não tenho nem paixões, nem ódios nesta matéria.
Infelizmente a decisão de construção de uma obra da dimensão de um aeroporto internacional e de uma rede de alta velocidade (TGV) não pode ser tomada "olhando" apenas para uma rede de estradas (mesmo sendo autoestradas). Muitos outros factores TÊM que ser considerados e um dos mais importantes é o custo-benefício de semelhante obra. Ninguém de bom senso, nos tempos actuais, inicia projectos que vão custar mais de dezenas de milhares de milhões de euros sem uma MUITO BEM FUNDAMENTADA ANÁLISE.
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