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quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

O MURO DE TRUMP


Mas, pior que isso poderá ser a declaração onde o enviado especial da ONU para o Médio Oriente, Nickolay Mladenov, diz que a «ONU considera que estatuto de Jerusalém deve ser negociado», não só pelo carácter dúbio – negociado em que sentido? – mas principalmente por esquecer a decisão da mesma ONU (Resolução 476) que definiu o estatudo de Jerusalém como cidade dividida entre judeus e palestinianos e que desde 1980, ano em que Israel aprovou uma Lei Básica de Jerusalém que define a cidade como capital do estado, foi reafirmado pela Resolução 478.


O efeito imediato desta decisão irá muito além do aviso onde os «Palestinianos alertam para violência se Trump mudar embaixada para Jerusalém», porque mais que o lançamento de nova intifada a decisão da administração Trump confirma a tendência isolacionista dos EUA, em novo sinal de implosão do Império Americano numa fase em que o Império do Meio ainda não pode (ou não quer...) assumir a liderança global, deixando todo o «Mundo preocupado com mudança da embaixada dos EUA em Israel para Jerusalém» e Donald Trump cada vez mais longe de alcançar os desejos de grandeza que tanto apregoa.

terça-feira, 23 de maio de 2017

O ESTADO ISLÂMICO SEMPRE EXISTIU, É A ARÁBIA SAUDITA

No momento em que escrevo ainda se ignora como irá terminar o périplo entre o Médio Oriente e a Europa que Donald Trump está a realizar, mas a julgar pela imprensa nacional a sua breve passagem pela Arábia Saudita ficará assinalada pelo feito inédito onde «Trump faz as pazes com o islão e apela à luta contra a radicalização»; claro que também mereceu destaque a celebração dum acordo onde os «EUA vendem armas de 110 mil milhões de dólares à Arábia Saudita», mas isso não revestiu qualquer novidade nem a conhecida hipótese desse armamento acabar nas mão dos grupos jihadistas parece ter indignado ninguém.


Já o aparente retorno a uma sintonia de posições entre Washington e Riad, depois do muito propalado distanciamento praticado pela administração Obama, pode não passar disso mesmo, na linha aliás duma antevisão da deslocação a Tel-Aviv onde se anuncia que «Depois de visitar a Arábia Saudita, Trump chega a Israel com plano indefinido».

Como é sabido há décadas (cinco para ser mais preciso) o grande tema no Médio Oriente continua a ser a questão palestiniana, ou melhor a implantação de um estado judaico que recusa a existência palestiniana, e a histórica divisão dos estados árabes. Por isso mesmo e pelo histórico confronto com os persas, a monarquia saudita não hesitou na acusação de que o Irão é "ponta de lança do terrorismo mundial».

Mais estranho é ler esta e outras afirmações, como aquela onde «Trump acusa Irão de desestabilizar a região e apoiar os crimes de Assad», sem significativa referência à reconhecida interdependência entre a oligarquia saudita e o movimento wahhabita (movimento ultraconservador geralmente apontado como a “religião oficial saudita” e que a par do salafismo está na origem de organizações radicias como a Al-Qaeda e o Daesh), nem o facto de há décadas o reino saudita estar a financiar a maioria das mesquitas e madrassas (centros de difusão e divulgação corâmicos) que pelo mundo fora são associadas ao extremismo islâmico e ao recrutamento de jihadistas.

Claro que é fácil entender as motivações da administração Trump na crítica ao Irão (porque ainda não ultrapassou o fracasso que constitui o derrube do regime do Xá Reza Pahlevi ou que mais não seja para se mostrar diferente de Obama), na defesa intransigente do Estado de Israel ou até num possível apoio às pretensões hegemónicas dos sauditas no conflito latente que os opõe aos iranianos; o que não devemos é silenciar as verdadeiras razões que estarão por detrás de tudo isso, quando até bastaria ter recordado uma entrevista de Ziauddin Sardar, quando durante uma sua passagem por Lisboa deixou bem claro que «“O Estado Islâmico sempre existiu, é a Arábia Saudita”» e que sem um efectivo combate aos extremismos wahhabita e salafista não se erradicará o terrorismo islâmico.

terça-feira, 11 de abril de 2017

AMÉRICA GRANDE OU ESTÚPIDA?

Em resposta à notícia de que um «Ataque químico na Síria provoca mais de 100 mortos e 400 feridos», prontamente atribuído pelos meios de comunicação ocidentais ao regime de Bashar Al-Assad, e em plena crise de popularidade interna por causa das ligações russas da sua “entourage” e do fracasso das iniciativas de limitação à imigração e de substituição do Obamacare, a administração americana não demorou a fazer saber que «Trump condena ataque químico "hediondo" do regime de al-Assad».

Ignorando (e esperando que todos já tenhamos esquecido anteriores “affaires” como o episódio da deflagração de engenhos químicos na província Síria de Homs, ocorrido em 2013, a acabar por ser atribuído aos próprios rebeldes – ver a propósito o “post” «PRONTO PARA SALTAR - I» - ou o do famigerado arsenal de Saddam Hussein que serviu para justificar a invasão do Iraque) anteriores episódios de avaliações erróneas, à administração Trump bastaram 72 horas para reagir e ficarmos todos a saber que os «EUA lançaram 59 mísseis contra uma base aérea síria» apontada como estratégica para o esforço sírio no conflito.


Prontamente anunciada como um enorme sucesso, aquela acção militar terá resultado na destruição de material militar («Seis caças destruídos no ataque, diz a Rússia», enquanto outras fontes dizem que «EUA confirmam destruição de 20% da capacidade aérea») mas de modo algum na inutilização do aeródromo que vinte e quatro horas depois já estava a ser utilizado.

O reduzido sucesso da iniciativa de Trump pode limitar o efeito esperado sobre os intervenientes na região (Rússia, Síria, Irão e as petromonarquias do Golfo) tanto mais que já circula uma reacção onde os «Aliados do líder sírio ameaçam EUA. “Responderemos com uso de força”».

Se o que realmente preocupa os conselheiros de Trump é a divulgação de mensagens de força para o resto do mundo (China e Coreia do Norte incluídas) esta poderá ter sido apenas a primeira de várias acções mais ou menos desgarradas, desprovidas do indispensável apoio da comunidade internacional que lhe trariam um sancionamento pela ONU, inevitavelmente votadas a receberem os apoios e as críticas habituais mas que dificilmente contribuirão para a resolução de qualquer conflito e ainda menos para um desejável apaziguamento de tensões.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

TRUMP E A PALESTINA

Depois da administração de Donald Trump ter divulgado a escolha de David Friedman como «Futuro embaixador dos EUA em Israel, o defensor dos colonatos que critica judeus de esquerda», já nem parece estranho que, no dia em que o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, é recebido na Casa Branca, surja a notícia que uma «Fonte da administração Trump sugere que solução de dois Estados pode ser abandonada».


Em Washington têm-se avolumados os sinais de significativa inversão de estratégia relativamente a Israel e à questão palestiniana; primeiro foi a pronta reacção à inédita decisão da anterior administração se abster numa votação na ONU sobre a política israelita de expansão de colonatos, quando o próprio Trump veio dizer que «As coisas serão diferentes a partir de Janeiro», depois foi a questão da instalação em Jerusalém da representação americana em Israel, a que os palestinianos reagiram dizendo que «Mudar embaixada dos EUA para Jerusalém “será um crime de guerra”», mas o que é realmente preocupante neste alinhamento ostensivo com os israelitas é que os EUA estão efectivamente a hipotecar as suas já muito ténues capacidades como tradicional mediador entre judeus e palestinianos.

Mesmo que só raramente aceite como mediador imparcial, os EUA conseguiram alguns progressos na delicada questão palestiniana através da solução “dois povos-dois estados” que esteve na origem dos Acordos de Oslo mas que foi invariavelmente torpedeada pela prática israelita de expansão dos colonatos (ver a propósito o post «O FIM DA SOLUÇÃO DOS DOIS ESTADOS» e outros nele referidos) que a pouco e pouco foram transformando o território palestiniano numa manta de retalhos (situação agravada ainda pela construção de muros de separação) economicamente inviável. As posições agora assumidas pela administração Trump deverão ditar o adiamento de qualquer solução para um conflito (ora aberto, ora latente) que há décadas incendeia a região e acabar definitivamente com a ideia de que Israel é o exemplo de um estado democrático no Médio Oriente.

Depois de décadas e décadas em que beneficiaram duma má consciência ocidental sobre o Holocausto (tragédia de cuja recordação usam e abusam) e respaldados agora por uns EUA autárcicos e fundamentalistas (que hipocritamente se dizem satisfeitos com a solução "que eles preferirem" para conflito israelo-palestiniano) será enorme a tentação entre os fundamentalistas judaicos para recuperarem o seu velho sonho do Grande Israel, assim a comunidade internacional os deixe...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

NA PALESTINA NADA DE NOVO

Aprestamo-nos a encerrar mais um ano e voltamos recordar algumas das grandes questões internacionais que continuam por resolver, com a famigerada Palestina e a não menos aviltada questão do Sahara Ocidental sempre presentes.

Diga-se em abono da verdade que a primeira destas conheceu algum destaque informativo nos últimos dias, devido à aprovação duma resolução (mais uma...) onde a «ONU exige a Israel fim “imediato” da política de colonatos». De imediato ficámos a saber a reacção de Tel-Aviv, na qual «Israel critica abstenção dos Estados Unidos na ONU», pois a única verdadeira novidade foi o facto destes não terem vetado – como habitualmente – mais uma iniciativa de condenação a Israel.


Sabido que estamos em vésperas de mudança do inquilino da Casa Branca, nem se estranha que o seu novo ocupante, Donald Trump, tenha prontamente anunciado que «"As coisas serão diferentes" a partir de Janeiro», facto que em nada acalmou o governo do seu amigo Benjamin Netanyahu que já afirmou que «Israel diz ter “provas” de que Obama orquestrou resolução anticolonatos», como se a política israelita de expansão dos colonatos respeitasse realmente as regras internacionais e tudo isto não passasse duma campanha difamatória.

Simultâneamente não deixa de ser curioso que seja no final da passagem de Ban Ki-moon pela liderança da ONU que tenha surgido esta iniciativa a que o próprio se referiu dizendo que a «resolução da ONU sobre Israel é “um passo significativo”» para apoiar a a visão norte-americana dos “dois Estados”; mas sobre a visão da ONU, se é que ela existe, ou sobre a normal violação das suas resoluções nem uma palavra.

Claro que «Israel não vai cumprir resolução do Conselho de Segurança e ataca Obama» numa estratégia de fuga para a frente porque se espera confortado com a nova administração Trump, mas se este cumprir a promessa de viragem autárcica poderá comprometer a qualidade do respaldo que todas as administrações norte-americanas nunca negaram a Israel na precisa medida em que a viragem para dentro dos norte-americanos será compensada com a emergência doutra potência no seu lugar, que deverá ser menos “amiga” da causa sionista.

Nem mesmo com uma intervenção onde o ainda secretário de Estado «John Kerry diz que paz só é possível com solução de dois Estados» os EUA conseguirão convencer os sectores sionistas mais radicais, que continuando a negar a inevitabilidade da pressão demográfica palestiniana se recusam a inverter a estratégia de afrontamento que escolheram para lidar com a Autoridade Palestiniana.

Mesmo não crendo que António Guterres, o novo secretário-geral da ONU cuja eleição (mais que a de Donald Trump) bem merece a designação de acontecimento do ano, acredite, como o afirmaram o Hamas e a Jihad Islâmica, que a «Resolução da ONU que “apoia palestinianos” representa “mudança positiva”» e admitindo que as suas reconhecidas capacidades de negociação e de influência até possam fazer alguma diferença nos resultados obtidos pela ONU na questão palestiniana, esperar desta resolução uma efectiva melhoria para a região do Médio Oriente tem mais de pensamento dogmático que do pragmatismo que o historial das partes envolvidas exige. Basta recordar que o regime de Tel-Aviv sempre tem encontrado apoio para desrespeitar as resoluções da ONU que não o satisfaçam cabalmente e as que o satisfazem em nada têm contribuído para resolver um conflito que se arrasta desde a declaração unilateral de independência em 1948 (como é o caso da solução “dois povos – dois estados”, que na versão patrocinada pelos EUA se converteu numa solução “dois povos – um estado e outro fantoche”) e contribuído largamente para que a região do Médio Oriente seja, ano após ano, uma crónica zona de instabilidade com evidentes reflexos à escala global.

quinta-feira, 5 de março de 2015

LEALDADES

Há muito tempo que em política o “vale tudo” passou a ser moeda corrente. Desde o longínquo século XVI, quando Nicolau Maquiavel deu ao prelo o seu “O Príncipe”, obra que muitos referem como exemplo do pragmatismo político, que se começou a insinuar a ideia que em política os fins justificam os meios.

Temo-lo confirmado em múltiplas ocasiões, mas talvez nunca de forma tão desbragada como na actualidade. Já não é apenas a “conspiração” ou a mera “maquinação” com vista à obtenção de ganhos políticos imediatos, mas também o recurso ao argumento que atribui uma conotação conspirativa a qualquer crítica. Exemplos disto pululam no nosso dia-a-dia, vão desde as mais espúrias desculpas para infracções e outras malfeitorias (sempre praticadas no mais completo desconhecimento das regras ou total ausência de consciência da infracção) ou à completa contradição entre o que se afirma no estrangeiro ou dentro de fronteiras, até à mais clara e despudorada mentira.

Serve este intróito a propósito do mais recente facto político norte-americano: o discurso no Congresso norte-americano dum chefe de governo estrangeiro, na situação de demissionário e candidato à reeleição, a convite do líder da maioria para criticar a política oficial de Washington sobre a questão do programa nuclear iraniano, o que pode traduz um minar das relações entre americanos e israelitas.


A questão do programa nuclear iraniano constitui há muito fonte de preocupação para muitos governos e a posição israelita de total desacordo com aquele tipo de programa é sobejamente conhecida quando ainda perduram na memória as ameaças militares sobre as centrais iranianas, quando Netanyahu anunciou «Israel preparado para "agir sozinho" contra o Irão», posição especialmente interessante quando vem dum país que sempre negou a sua condição de potência nuclear e que, com o beneplácito norte-americano, sempre recusou submeter o seu programa nuclear a qualquer controlo pela AIEA (a agência internacional que regula e controla o uso da energia nuclear).

A oposição israelita a qualquer acordo com o Irão é conhecida há muito tempo, pelo que  a presença em Washington de Benjamin Netanyahu, em pleno período de campanha eleitoral israelita, apenas se poderia saldar por um discurso crítico contra as negociações nucleares com o Irão e onde «Netanyahu diz que acordo “abre caminho” a bomba nuclear iraniana».

Esta manobra do partido republicano (força política que detém a maioria nas duas câmaras do Congresso mas não na Casa Branca) para torpedear a iniciativa do executivo de Obama com vista a alguma forma de acordo com o Irão, já mereceu deste o comentário de que discurso de Netanyahu "Não ofereceu alternativas viáveis", posição que não agrava mas também não desanuvia a ideia que o «Discurso de Netanyahu no Congresso tem efeito “destrutivo” nas relações com os EUA».

Três factos parecem ter contribuído para chegarmos a esta situação. Primeiro, é a comprovação de estarem os «Aliados históricos em desacordo sobre programa nuclear iraniano»; Segundo, é a confirmação da crescente necessidade de mediatismo que Benjamin Netanyahu tem revelado nos últimos tempos (basta recordar a forma com este impôs a sua presença em Paris depois que a «França pediu a Netanyahu para não participar na marcha contra o terrorismo») e que não prenuncia nada de bom para o futuro do Médio Oriente, pois a sua presença em Washington parece-se muito mais com uma acção de propaganda interna (sinal da sua fragilidade política) que com uma ponderada iniciativa para fazer valer o ponto de vista israelita sobre a questão do programa nuclear iraniano, o que pressagia uma ainda maior aproximação com os grupos judaicos mais radicais, inevitavelmente acompanhada dum aumento da tensão com os palestinianos e com os vizinhos árabes. Igualmente relevante e não menos grave, é a conduta do Partido Republicano que no afã de apoucar o presidente Obama não revela o mínimo sentido político e expõe, por conveniência meramente táctica, as relações israelo-americanas a um desgaste evitável quando estas atravessam uma fase de grande fragilidade.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

MAIS UM 11 DE SETEMBRO

Assinalar mais uma vez a data do 11 de Setembro ganha contornos dalguma novidade que nem nas terras do Tio Sam parece ter passado despercebido.


Após uma primeira fase onde se sucederam as iniciativas para um entendimento mais profundo dos factos e que contribuíram grandemente para o esclarecimento de muita da desinformação que desde a primeira hora rodeou o atentado contra as Torres Gémeas, processo que continua a ser regularmente alimentado por novas notícias, como a que assegura que «Treze anos depois, Egipto diz que EUA ignoraram alerta», contrariando a tese oficial que além de atribuir a responsabilidade à Al-Qaeda ignora factos controversos e mantém dúvidas fundamentadas sem resposta (ver a propósito os “posts” «NINE ELEVEN Parte I», «NINE ELEVEN Parte II», «NINE ELEVEN Parte III», «11 DE SETEMBRO DE 2001» e «A PROPÓSITO DO 11 DE SETEMBRO»).

Consequência da inflexível postura neoconservadora foi ainda a catastrófica resposta que foram as invasões do Afeganistão e do Iraque, que poderão ter gerado milhares de milhões de dólares de lucros nos sectores económicos ligados à indústria militar e às múltiplas facetas da reconstrução que se lhe segue mas que alimentou igualmente o proselitismo dos radicalismo islâmico. Afinal as invasões e a panóplia de agressões e arbitrariedades que as acompanharam foram o que de melhor lhes podia ter acontecido pois passaram a constituir a comprovação da propaganda com que ambicionam incendiar a opinião pública islâmica.

Os recentes desenvolvimentos no Crescente Fértil, a entrada em cena dum novo actor (o ISIS) no já muito complicado xadrez geoestratégico na região e a inevitável comparação entre a sua génese e a da Al-Qaeda (ambos os movimentos receberem apoio mais ou menos formal de Washington para funcionarem como braço-armado ao serviço dos seus interesses conjunturais) não está a passar em claro, nem nos meios de comunicação norte-americanos.


E se algumas constituem referências mais ou menos discretas, outras apontam claramente a origem ao sector neoconservador que marcou a agenda política durante a administração de George W Bush colocando o surgir da besta na sua sombra directa e marcando uma possível flexibilização da opinião pública norte-americana sem reflexos ainda numa política externa que tarda em formalizar soluções duradouras e mantém o Mundo numa situação de insegurança, que apenas pode ser intencional!

terça-feira, 29 de abril de 2014

O FUTURO DA QUESTÃO PALESTINIANA

A semana que terminou registou o regresso da questão palestiniana às primeiras páginas dos jornais, não devido a qualquer extraordinário desenvolvimento no processo de negociação israelo-palestiniano mas porque o «Hamas e Fatah anunciam governo de união».

Após quase sete anos de conflito, umas vezes aberto outras latente, que levou à formação de governos distintos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, eis que as duas organizações chegaram finalmente a uma plataforma de entendimento que passa pela realização de novas eleições num prazo de seis meses.

Mas a esperança que poderia acompanhar o que parece constituir uma boa notícia para os palestinianos, reduzindo o clima de tensão interno que poderá até facilitar algum acréscimo de moderação entre os militantes do Hamas, foi prontamente reduzida a zero quando de Tel-Aviv chegou a notícia de que «Israel suspende negociações de paz com os palestinianos», negociações que há vários meses vivem em estado hibernação, sob a alegação que não negociarão com uma organização que defende a destruição de Israel.

Tudo isto a coberto do amigo americano que, fazendo coro com o regime judaico, já fez saber que pondera reequacionar os programas de assistência aos palestinianos, programas que, face à clara política de “apartheid” de que os palestinianos têm sido alvo, são a única fonte de sobrevivência duma população objectiva e intencionalmente mantida em estado de inanição económica.


Tal como aconteceu em 2007, quando em consequência dum resultado eleitoral favorável ao Hamas o Ocidente se pronunciou pela inaceitabilidade das eleições, eis que de novo o tão propagandeado apego ocidental à democracia e aos direitos humanos é esquecido em benefício de interesses manifestamente opostos ao das populações palestinianas e até de parte da judaica que defende o fim do conflito e a normalização da sua vida diária.

Analisado pragmaticamente, o fracasso de mais um processo negocial não deriva da nova realidade palestiniana mas sim da posição de intransigência israelita quanto ao reconhecimento palestiniano do seu estado judaico, facto que até nos EUA foi reconhecido por um conjunto de especialistas e diplomatas (ver este artigo assinado entre outros por Zbigniew Brzezinski e Frank Carlucci) que no início do mês apelaram a uma posição mais firme por parte do secretário de estado, John Kerry, nas negociações israelo-palestinianas; atirar sobre a unidade palestiniana o ónus dum desentendimento que se deve principalmente às crescentes exigências israelitas (na opinião palestiniana) ou, mais prosaicamente, à política de “apartheid” judaica que tem inviabilizado até a famigerada solução dos “dois-estados” e que em última instância coloca Israel perante a escolha entre a opção de expulsar os palestinianos para a Jordânia e o Egipto ou integrá-los num estado não racial.

Este raciocínio foi hoje surpreendentemente validado por uma notícia onde o DN assegura que John Kerry terá afirmado numa reunião, à porta fechada, de um centro de reflexão norte-americano que «Israel corre o risco de se tornar num Estado de 'apartheid'». Mesmo descontando a medonha hipocrisia de descrever a realidade sob a capa duma hipótese, a afirmação confirma que até já em Washington se reconhece a evidência do que em Tel-Aviv se persiste em ignorar.

sábado, 10 de agosto de 2013

INSTIGAR O MEDO

Concluído o Ramadão (o nono mês do calendário islâmico que é consagrado ao jejum ritual) pode já dizer-se que contrariando o alerta antiterrorista que levou a administração Obama a anunciar que os «EUA fecham embaixadas com receio de ataques até ao fim do Ramadão», nada aconteceu além dos já corriqueiros atentados no Iraque, com o fim do Ramadão a ficar assinalado por uma «Nova vaga de atentados no Iraque faz dezenas de mortos», no Afeganistão e no vizinho Paquistão, onde o «Consulado dos EUA no Paquistão evacuado em plena vaga de atentados».

Para melhor entender esta situação, recorde-se que o alerta surge num contexto particularmente interessante, por ocorrer uns dias após a notícia de que centenas de «Membros da Al-Qaeda fogem de prisões» no Iraque e na Líbia e quando em Washington estava no auge um debate sobre os limites de actuação da agência nacional de segurança (NSA), que se saldaria com a notícia que o «Congresso mantém espionagem em larga escala da NSA».

Mesmo admitindo a legitimidade da preocupação norte-americana com a segurança dos seus cidadãos no estrangeiro, não deixa de ser curioso que o “fantasma” da Al-Qaeda tenha regressado às principais notícias quando se procedia internamente ao debate em torno dos limites de actuação das suas agências de espionagem, quando decorria o julgamento de Bradley Manning (o soldado acusado de ter sido a fonte da informação distribuída pelo WikiLeaks) e continuava pendente o caso Edward Snowden (o analista informático que denunciou a existência do PRISM (ver o “post” «BIG BROTHER HIS WATCHING YOU…»), programa norte-americano de espionagem da Internet), factos que até podem levar a considerar-se que a anunciada «Ameaça é oportuna para a NSA».


A instigação do medo, como antes o fizera a administração Bush, e a recuperação dum velho “inimigo”, qual espantalho que de vez em quando se agita para afugentar os mais temerosos, revela-se de particular utilidade a ponto de poder ser usado para justificar o programa de ciber-espionagem que terá possibilitado que uma simples «Intercepção de comunicações da Al-Qaeda motiva alerta dos EUA contra atentados», mesmo que depois se venha a saber que o próprio o presidente «Obama garante que Al-Qaeda é ameaça que foi reduzida».

Assim é de esperar que esta administração norte-americana e as seguintes mantenham viva uma organização que descreverão, variando entre a figura do tigre assassino ou a do mosquito irritante, consoante as necessidades e os fins que pretendam justificar.

sábado, 13 de julho de 2013

O REGRESSO DO EXÉRCITO AO CAIRO

Coincidindo o derrube militar do presidente egípcio, Mohamed Morsi, com o início do Ramadão (período durante o qual os fiéis muçulmanos observam o jejum ritual) passou-se do cenário de manifestações diárias contra o governo deposto para um mais contido de vigília de protesto lançado pela Irmandade Muçulmana, formação política a que pertence o ex-presidente. 

É claro que já houve confrontos entre partidários da Irmandade e a polícia, algo tanto mais inevitável quanto a situação política egípcia continua conturbada e com contornos particularmente nebulosos. Embora o golpe militar dirigido pelo general Al Sisi tenha aparentemente delegado o exercício do poder político no presidente do Supremo Tribunal, Adly Mansour, continua por concretizar a formação do novo governo, iniciativa que foi confiada a Hazem Al Beblawi, fundador do Partido Social Democrata egípcio e ex-ministro das finanças com profundas ligações ao sector financeiro (o que no jargão ocidental se poderia apelidar dum tecnocrata).

A rapidez com que o exército interveio na crise aberta pela contestação a um presidente eleito mas julgado por largos sectores da opinião pública egípcia como demasiado autoritário e pró-islâmico, além de revelador do peso que a estrutura ainda mantém no panorama político, pode ser objecto duma interpretação diversa da que a imprensa ocidental prontamente lhe atribuiu, tanto mais que que são já evidentes as divisões entre as forças políticas no processo de formação do novo governo, anunciando-se mesmo que a «Oposição laica do Egipto rejeita plano do Presidente interino», enquanto a «Irmandade rejeita agenda eleitoral de Exército».

A intervenção militar e a deposição de Morsi está já a produzir algumas ondas de choque nos países vizinhos e em especial num enfraquecimento da influência regional da Irmandade (organização que dispõe de ramificações nos países árabes e nas regiões do Maghreb e do Sahel), fenómeno que se faz sentir nos últimos tempos e que poderá até estar relacionado com a recente notícia de que o «Emir do Qatar abdica a favor do filho», ou não fosse este estado árabe o principal financiador da Irmandade.

Numa região onde a tradição de influência e de preponderância dos aparelhos militares é um dado histórico e num país onde, na sequência dos Acordos de Camp David (patrocinado por Jimmy Carter, presidente norte-americano, pôs termo ao conflito entre Israel e o Egipto e foi assinado em 1978 pelo primeiro-ministro israelita Menachem Begin e pelo presidente egípcio Anwar Al Sadat), a dependência da estrutura militar face à sua congénere norte-americana é amplamente conhecida, tudo contribui para que o golpe ganhe rapidamente contornos dum regresso ao passado, pondo em sérias dúvidas o desenvolvimento dum processo de normalização democrática que poderia ter outra expressão caso a substituição de Mohamed Morsi tivesse resultado de mecanismos democráticos.


Uma possível aquiescência da administração norte-americana ao golpe de Al Sisi foi contemplada desde o início – traduzida em notícias como a que os «EUA mantêm planos para entregar F-16 ao Egipto» que a informação que os «Estados Unidos vão reavaliar ajuda militar ao Egipto» não contraria, pois este é um mecanismo habitual na sequência de qualquer golpe de estado –, parece confirmar e reforçar a necessidade de observar a situação egípcia sob uma perspectiva bem menos entusiástica. É que ao contrário do movimento de contestação a Moahmed Morsi, perfeitamente aceitável no quadro democrático em que decorreu a sua eleição, a intervenção militar parece bem pouco sustentável e passível até de ser comparada à rejeição ocidental à eleição do movimento palestiniano Hamas (próximo da Irmandade Muçulmana).

Ao que tudo indica – e ao contrário do que habitualmente se lê nos jornais –, agora no Egipto, como em 2006 na Palestina, o Ocidente volta a não hesitar em preterir a democracia e o seu exercício a outros interesses pouco confessáveis.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A PROPÓSITO DO 11 DE SETEMBRO


Assinala-se hoje mais um aniversário, o décimo primeiro, sobre o atentado de Nova York que os americanos prontamente atribuíram aos radicais islâmicos da Al-Qaeda e que serviu para justificar as invasões do Afeganistão e do Iraque.

Como se tornou hábito, não têm por estes dias faltado na imprensa nacional e estrangeira reminiscências e evocações sobre os acontecimentos, embora continue por explicar cabalmente o que de facto aconteceu e quem nele esteve (ou não) envolvido.


Incrível ou não, a principal democracia planetária continua sem produzir uma explicação que não insulte a inteligência dos seus ouvintes; mas não é sobre isso que hoje me proponho reflectir[1], antes sobre dois artigos/notícias que duma forma ou doutra remetem para consequências do 11 de Setembro. Um, assinado por Maria João Tomás, foi publicado há dias no DN sob o sugestivo título de «A ASCENSÃO DOS SALAFITAS, 11 ANOS APÓS O 11 DE SETEMBRO» e levanta a interessante questão do actual sucesso do movimento religioso (salafismo) que esteve na origem da Al-Qaeda; o outro encontrei-o na página internet ALTER INFO, sob o título «AUX USA ON A DÉJÀ PRÉVU UN MOYEN ORIENT SANS ISRAEL», cuja tradução aqui deixo por constituir uma importante peça jornalística sobre as relações de Israel com o Médio Oriente e o seu fundamental aliado, os EUA:
«Nos EUA já se previu um Médio Oriente sem Israel

Enquanto Paris, Londres e Berlim tomam estupidamente os seus desejos como realidade e planificam uma Síria pós-Assad, em Washington já se começou a antever o depois de Israel, num relatório intitulado "Preparing For A Post Israel Middle East" (Preparando-se para um Oriente Médio Pós Israel). Esta análise em 82 páginas, foi realizada a pedido da comunidade de informações dos EUA que consiste em nada menos que 16 agências cujo orçamento anual superior a 70 mil milhões de dólares. O que demonstra que o desaparecimento do regime judeu-sionista está a ser seriamente ponderado em Washington e não apenas em Teerão.

Este documento "Preparing For A Post Israel Middle East", concluiu que os interesses nacionais dos EUA e de Israel diferem profundamente. Os autores do relatório afirmam que Israel é actualmente a maior ameaça aos interesses nacionais dos Estados Unidos porque a sua natureza e as suas acções impedem relações normais entre os Estados Unidos e os países árabes e muçulmanos, e de forma crescente com a comunidade internacional. Este estudo foi realizado a pedido da comunidade de informações dos EUA que inclui 16 agências com um orçamento anual de 70 mil milhões de dólares. A comunidade de informações inclui os Departamentos da Marinha, do Exército, e da Força Aérea, o corpo de fuzileiros, a Guarda Costeira, o Departamento de Defesa e as agências de informações, os departamentos de Energia, Segurança Interna, do Tesouro, a agência anti-drogas, o FBI, a Agência de Segurança Nacional, a agência de informações geo-especial, a agência de reconhecimento nacional e a CIA.

Entre as conclusões deste relatório contam-se:
·      Israel, dada a sua beligerância e a ocupação brutal, não pode ser salvo, como o não pode o regime do apartheid na África do Sul, mesmo quando Israel foi o único país "Ocidental " a manter relações diplomáticas com a África do Sul e o último país a aderir ao boicote antes do regime entrar em colapso em 1987.
·           A liderança israelita está cada vez mais afastada das realidades políticas, militares e económicas do Médio Oriente ao aumentar o seu apoio aos 700.000 colonos ilegais que vivem na Cisjordânia ocupada.
·           A coligação de governo pós-trabalhista do Likud, cúmplice e fortemente influenciada pelo poder político e financeiro dos colonos, irá enfrentar mais e mais manifestações civis internas, situação com a qual o governo dos Estados Unidos não se deve envolver.
·          A Primavera Árabe e o despertar islâmico lançou em grande medida muitos dos 1,2 mil milhões de muçulmanos e árabes a lutar contra o que uma larga maioria considera uma ilegal imoral e insustentável ocupação europeia da Palestina e da população indígena.
·      O poder árabe e muçulmano que se expande rapidamente na região, como é evidenciado pela Primavera Árabe, o despertar islâmico e a ascensão do Irão, ocorre simultaneamente – ainda que pré-existente – com o declínio do poder e da influência norte-americana e apoio dos Estados Unidos a um Israel belicoso e opressivo torna-se impossível de defender ou implementar, face aos interesses nacionais dos Estados Unidos, incluindo a normalização das relações com 57 países islâmicos.
·   A massiva interferência israelita nos assuntos internos dos Estados Unidos por meios de espionagem e de transferências ilegais de armas e que inclui o apoio a mais de 60 organizações "maiores" e a cerca de 7.500 funcionários americanos que obedecem às ordens de Israel e tentam intimidar a impresna e organizações do governo dos EUA, e não deve ser tolerada.
·     O Governo dos Estados Unidos já não têm os recursos financeiros nem apoio popular para continuar a financiar Israel. Já não é possível aumentar os mais de 3 biliões de dólares de dinheiro dos contribuintes, directa e indirectamente pagos a Israel desde 1967, quando aqueles já não apoiam o envolvimento militar dos EUA no Médio Oriente. O público americano já não apoia o financiamento e as guerras dos EUA amplamente entendidas como ilegais e em nome de Israel. Esta visão é cada vez mais comum na Europa, na Ásia e na generalidade da opinião pública internacional.
·       As infra-estruturas de ocupação segregacionista de Israel são a prova de discriminação legalizada e de sistemas de justiça cada vez mais distintos e desiguais, que não devem ser directa ou indirectamente financiados pelos contribuintes norte-americanos ou ignorados pelos governos dos Estados Unidos Estados.
·       Israel falhou como o Estado democrático proclamado e o apoio financeiro e político dos EUA não vai mudar a sua deriva como um estado pária internacional.
·    Apoiados pelo governo de Israel, que se tornou seu protector e parceiro, os colonos judeus manifestam um racismo cada vez mais violento desenfreado na Cisjordânia.
·     É cada vez maior o número de judeus americanos que são contra o sionismo e as práticas israelitas, incluindo assassinatos e brutalidade contra os palestinos que vivem sob ocupação, vendo-os como uma violação flagrante do direito americano e internacional e levantando questões no seio da comunidade judaica americana tendo em conta a responsabilidade de proteger os civis inocentes que vivem sob ocupação.
·         Oposição internacional a um regime cada vez mais separatista sustenta-se na defesa dos valores humanitários americanos ou no âmbito das relações bilaterais dos Estados Unidos com 193 países membros da ONU.

O relatório conclui com a recomendação de evitar alianças estreitas a que se opõe a maioria do mundo e que condenam os cidadãos americanos a arcar com as consequências.

Obviamente Israel apressar-se-á a denunciar o relatório cuja publicação está para breve e colocar pressão sobre os dois candidatos na eleição presidencial americana, Obama e Romney, para ver qual dos dois minimizará mais aquelas conclusões, ou prometerá o arquivá-lo e aumentar a ajuda financeira e militar à entidade colonial judaico-sionista que será o coveiro do Império Americano.
Mireille Delamarre»

e por proporcionar uma outra visão do pós 11 de Setembro de 2001, num mundo onde as cicatrizes continuam abertas e quando poderemos vir a assistir a uma completa invesão duma realidade que se insiste em dar por garantida.



[1] Quem ainda o não tenha feito, ou se sinta com disposição ou curiosidade, pode, a título de exemplo, recordar alguns dos “posts” antigos que dediquei ao assunto e dos quais destaco: «NINE ELEVEN – PARTE I», «NINE ELEVEN – PARTE II», «NINE ELEVEN – PARTE III», publicados em Setembro de 2006 e «11 DE SETEMBRO DE 2001» publicado um ano depois.