quinta-feira, 17 de agosto de 2017

O GRANDE PAI BRANCO

A vilania e a falta de carácter dos principais líderes mundiais continua a ser uma evidência cada vez mais difícil de negar. O último exemplo veio dos EUA, onde mais um episódio de «Ódio, intolerância e violência deixam rasto de morte na Virginia», quando na sequência de manifestações contra e a favor da remoção duma estátua de Robert E. Lee (general confederado e herói dos movimentos supremacistas) um «Carro atropela multidão e provoca 1 morto e 19 feridos».

Mesmo sem pretender negar o direito a todos manifestarem a sua opinião parece inegável que a frouxa condenação proferida pelo presidente, onde «Trump reparte a culpa pela violência em Charlottesville», representa um perigo bem mais grave que o do mero apoio à chamada alt-right norte americana.


Trump assume-se não apenas como um apoiante de movimentos racistas (com o famigerado Ku Klux Klan) e neo-nazis, mas principalmente como um presidente cada vez mais isolado na sua visão da América (com uns EUA, país originado por emigrantes voluntários e forçados, cada vez mais divididos pelo racismo e pela xenofobia) e do Mundo.

Tivesse ele mostrado o mesmo grau de contenção e de compreensão do “outro lado” e talvez a escalada militar que se vive do sudoeste asiático não fosse a grave realidade que é, não apenas com o anúncio do exercício anual com a Coreia do Sul mas também com o Japão, atingindo um grau onde a principal responsabilidade é sempre do lado mais forte.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O BCE AINDA NÃO SALVOU O EURO

A propósito da passagem, hoje, do décimo aniversário do início da crise do “subprime” – marcada na Europa pela decisão do BNP Paribas suspender três dos seus fundos de investimento mais expostos às dívidas hipotecárias norte-americabas –, a edição do último fim-de-semana do EXPRESSO incluía uma entrevista com Kenneteh Rogoff (co-autor, com Carmen Reinhart, do célebre relatório «Growth in a Time of Debt» que se transformou na biblía de qualquer candidato a economista neoliberal), onde este defendeu algum perdão da dívida e a flexibilização das regras orçamentais europeias...


O espanto, deixado por Nicolau Santos no texto jocoso que intitulou «Rogoff, o esquerdista que quer perdoar as dívidas», poderia ser ainda maior não fosse esta ter sido mais uma das vezes em que Rogoff fez declarações que contradizem no essencial o postulado da diabolização da dívida – o tal princípio fundamental que os neoliberais leram nos seus trabalhos e que este nunca criticou, mesmo depois de revelada a existência de erros naquele referido estudo.

Se sobre a questão dos erros e da sua natureza já me pronunciei em Abril de 2013, no “post” «ACONTECE…», recomendo que sobre uma das primeiras tentativas de desculpabilização de Rogoff, no artigo «A Europa e a sua pulsão pela dívida», publicado pelo NEGÓCIOS, releiam o “post” «O FIM DO SEQUESTRO DAS IDEIAS?», publicado em Julho de 2014, e percebam que na realidade e ao contrário do que sugere o título da entrevista, o BCE não zangou a Alemanha e continua longe de salvar o Euro.

domingo, 6 de agosto de 2017

VENEZUELA PARTIDA

Consumada a coexistência de duas câmaras legislativas (a Nacional e a agora eleita Constituinte) agrava-se o quadro político na Venezuela ao ponto de se poder dizer que «Maduro inaugurou a constituinte e abriu novo capítulo na história da Venezuela».

Que não será um capítulo pacífico, é hoje uma quase certeza.


A conjuntura político-social aponta cada vez mais para uma Venezuela partida, cuja divisão poderá rapidamente descambar para um conflito armado e onde, obviamente, as partes atribuem a exclusividade da culpa à outra.

Para ajudar este clima, a imprensa e a opinião pública (local e externa) pouco têm contribuído para a formação de juízos equilibrados ou para a mediação. Abunda a difusão de opiniões diabolizando Nicolás Maduro e os seus apoiantes (com casos confirmados de clara e vergonhosa manipulação da informação, como relatou Daniel Oliveira no artigo «Imprensa e Venezuela: uma história exemplar de manipulação») enquanto se “esquece” que os opositores democráticos são os mesmos que em 2002 tentaram contrariar as sucessivas vitórias eleitorais de Hugo Chávez fomentando uma tentativa de golpe militar para derrubar o governo legítimo e que desde então têm tentado por todos os meios, incluindo a violência, alterar a situação política interna sem revelarem outra ideia que não seja um anti-chavismo quase primário.

Perante este cenário será cada vez mais difícil escolher entre Nicolás Maduro (personalidade a quem falta o carisma de Hugo Chávez e muito saber político para enfrentar a situação, com o demonstra a ideia de eleger uma Assembleia Constituinte) e o triunvirato (Leopoldo López, Henrique Capriles e Maria Corina Machado) criado à volta do MUD (a Mesa de Unidade Democrática), cujo historial pouco ou nenhum juz faz ao nome nem contribui para o estabelecimento das indispensáveis pontes de diálogo que conduzam a uma solução.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

NEGÓCIOS DA CHINA

Ler na página on-line do EXPRESSO que o «PCP propõe renacionalização dos CTT» lembrou o arranque anual da seally season, ou não tivessem eles próprios recordado que a privatização consumada pelo PSD/CDS foi preparada por vários governos, incluindo o PS.


A abertura para debate do tema não poderia ter sido pior – o reconhecido conluio PSD, CDS, PS – e não augura o menor sucesso a uma iniciativa que tem tanto de meritória quanto de malogro assegurado. Não que ele não deva ser debatido e ainda menos utilizado como ponto de partida para um debate mais alargado sobre a política de privatizações.

Recorde-se, a título de exemplo um artigo da VISÃO, publicado em 2015, que questionava se «Ganhamos alguma coisa com as privatizações?», lembrando (como o fez Mariana Mortágua) que desde 1977 foram arrecados 38 mil milhões de euros – no período de vigência do governo Passos Coelho/Paulo Portas o montante foi de 9,2 mil milhões – e que desde 1977 só as privatizadas PT e EDP deram cerca de 20 mil milhões de euros de lucro, valor que representa mais de 50% do “lucro” de todas as privatizações.

Por último, deixava como sugestão de leitura para o período das férias o livro NEGÓCIOS DA CHINA, de Anabela Campos e Isabel Vicente (Edição Tinta da China), onde as autoras falam sem rebuço na perda de sectores estratégicos e como abrimos mão deles como nenhum outro país no mundo!

quarta-feira, 26 de julho de 2017

OS RISCOS DO FMI

Mais uma edição do World Economic Outlook, divulgada pelo FMI na passada segunda-feira, corre nas páginas dos jornais, que destacam que o «FMI confirma retoma mundial e revê em alta crescimento da zona euro».

A par desta aparente boa notícia (que vem na sequência e confirmação da expectativa formulada em Abril), aquele organismo não deixa de alertar para «Os 10 riscos que ameaçam a economia mundial, segundo o FMI»:
  1. incertezas sobre Trump e o Brexit;
  2. tensões financeiras na China;
  3. tensões geopolíticas que incentivem políticas proteccionistas e outros factores não económicos;
  4. orientação restritiva da política monetária nas economias desenvolvidas (EUA e zona Euro);
  5. situação do sector bancário da zona Euro;
  6. recuo da regulação financeira;
  7. crescimento persistentemente fraco da produtividade;
  8. desequilíbrios nas contas externas de algumas das principais economias;
  9. desigualdade crescente provocada pela globalização, digitalização e um crescimento não inclusivo;
  10. abandono do multilateralismo, nomeadamente com a ascensão do protecionismo e das políticas de soma nula.
Embora outros factores apontados apenas às economias mais desenvolvidas – persistência num excesso de capacidade produtiva; envelhecimento populacional; fraco investimento; crescimento lento da produtividade; baixa inflação (inferior à meta dos 2%); risco de  rápida ‘normalização’ da política monetária da Reserva Federal norte-americana; resistência à subida dos salários; desequilíbrios na balança externa (sejam défices ou superhavits); crescimento não inclusivo (estagnação dos rendimentos reais médios) e aumento da desigualdade ao longo das últimas décadas – também devessem ser estendido ao conjunto da economia mundial (globalização oblige) e quase todos merecessem análise mais detalhada, gostava de me fixar, por agora, apenas num deles: o recuo da regulação financeira.

Esta afirmação é apenas mais um sinal da medonha hipocrisia que sempre rodeou a actuação do FMI. Organismo criado, a par com o Banco Mundial, na sequência da Conferência de Bretton-Woods que serviram de base ao sistema económico e financeiro do pós-guerra e destinado a apoiar a reconstrução do fistema monetário internacional, acabou a financiar os desequilíbrios das balanças de pagamentos dos cinco continentes segundo uma ortoxia própria (o Consenso de Washinton, que se pode resumir como conjunto de medidas – composto por dez regras básicas: disciplina fiscal; redução dos gastos públicos; reforma tributária; livre formação das taxas de juro e de câmbios; abolição das barreiras comerciais (pautas aduaneiras); investimento estrangeiro directo, com eliminação de restricções; privatização das empresas públicas; desregulamentação (afrouxamento das leis económicas e trabalhistas); direito à propriedade intelectual – formulado em Novembro de 1989 por economistas do FMI, do Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos EUA, fundamentadas num texto do economista John Williamson, do International Institute for Economy, e que se tornou a política oficial do Fundo Monetário Internacional em 1990, quando passou a ser "receitado" para promover o "ajustamento macroeconômico" dos países em desenvolvimento que passavam por dificuldades) que sempre aplicaram de forma dogmática onde que que fossem “chamados” a intervir e que o transformou no principal no baluarte da globalização e da desregulamentação...


Nada que os impeça agora de derramarem “lágrimas de crocodilo” sobre o recuo duma regulamentação financeira que eles próprios sempre impuseram e de nunca terem permitido a menor discussão sobre o assunto, porque o Consenso de Washinton é que está correcto e cosntitui uma verdade universal!

Mês após mês, ano após ano, relatório após relatório, os técnicos do FMI não param sequer para perceber que o que o seu trabalho possa ter de eventualmente positivo perde-se de imediato perante a hipocrisia dos seus dogmas e postulados. E pior, fosse na América Latina ou no Sudoeste Asiático, na Rússia ou mais recentemente na Europa, nunca as políticas recomendadas pelo FMI tiveram outro objectivo senão o do aumento da desigualdade.

sábado, 22 de julho de 2017

ALDRABICES

No quadro da apresentação dum candidato à Câmara do Funchal, o primeiro-ministro António Costa afirmou que os «Lesados do Banif confiaram "num sistema que os aldrabou"»,o que só poderá espantar por vir de onde vem: um chefe de Governo que há semelhança dos antecessores tem mantido intactas as prerrogativas dum sistema financeiro vocacionado para servir os interesses do capital especulativo.


Os chamados “lesados do BANIF” (como acontece com os “lesados do BES” e outros “lesados por outros bancos”) surgiram na sequência de processos de resolução dos bancos cujos clientes adquiriram produtos financeiros (acções, papel comercial e outros títulos financeiros) que sofreram degradações acentuadas de valor. Infelizmente este não é um tema novo nem ficará seguramente esgotado com qualquer que seja a solução proposta para compensação daqueles “lesados” que na sua maioria são clientes particulares (pequenos aforradores) aliciados pela perspectiva de ganhos superiores aos dos depósitos a prazo ou dos títulos do Tesouro.

E aqui começam dois problemas; os bancos venderam aos seus clientes de retalho (maioritariamente sem a cultura financeira indispensável à correcta avaliação dos riscos envolvidos) produtos financeiros nos quais detinham interesses directos (eram emitidos pelo próprio banco ou por empresas suas participadas), aliciando-os com a perspectiva de ganhos acima do normal. Segundo, fizeram-no através da respectiva rede comercial usando empregados igualmente desconhecedores dos riscos associados aos produtos que estavam a vender, aliciados a fazê-lo graças a mecanismos de prémios ou , pior, mediante pura e dura coacção psicológica.

Nada disto constitui problema novo (veja-se o post «A BANCA NA JUSTIÇA?», que escrevi em Abril de 2007 a propósito dum “problema” então surgido no BCP com a venda na rede de retalho de acções do próprio banco, onde o despautério chegou ao ponto de “oferecer” crédito para a realização da operação) nem a solução poderá deixar de passar por uma radical mudança na regulamentação da actividade bancária que imponha a separação entre a actividade de banca comercial (captação de depósitos e colocação de crédito) e a da banca de investimento.

É claro que «António Costa não tem dúvidas de que lesados do Banif foram aldrabados», nem eu tenho a mínima dúvida que este é um tema que continuará sem solução óbvia à vista, tanto mais que é um problema geral duma economia onde a especulação continua a importar mais que o investimento produtivo.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

PODEMOS CONFIAR?

O Comissário Europeu, Pierre Moscovici, passou por cá e terá dito que o «crescimento de Portugal poderá ficar acima de 2,5% este ano» (previsão que revê muito em alta a anterior estimativa de 1,8%); eufórico, o sr. «Moscovici considera “impressionante” progresso de Portugal. “Podemos confiar nesta economia”»... mas será que podemos confiar no Sr Moscovici?


É que os entusiastas de agora são os mesmos que antes nos impuseram a “canga” duma austeridade que o inefável duo Passos Coelho/Paulo Portas transformaram numa inenarrável “austeridade expansionista” e que afirmaram aos quatro ventos (ou a quem lhes desse ouvidos) que não havia alternativa! Como já tenho referido algumas vezes (por exemplo no post «AFINAL HÁ ALTERNATIVA»), o melhor da passagem de António Costa por São Bento é a comprovação de que existem alternativas... podem nem sequer ser as melhores, mas são alternativas.

A minha desconfiança perante tanto entusiasmo resulta principalmente de continuar a pensar que o principal problema do país – a monumental dívida (pública e privada) – persiste e pouco ou nada tem sido feito para a solucionar, ou sequer contrariar. E em especial porque tal só será exequível num cenário europeu que recentre as suas preocupações numa redefinição das “regras do jogo” onde todo o mecanismo de funcionamento da moeda única seja revisto e corrigido, como escrevi (entre outros) nos posts «O PAPEL DOS BANCOS CENTRAIS» e «AS PROPOSTAS DOS “ECONOMISTAS ATERRADOS” - III», de forma a transformar o BCE no principal financiador dos Estados.

terça-feira, 11 de julho de 2017

SENTIDO

Enquanto continua por esclarecer o assalto aos paióis de Tancos e grassa algum mal-estar nas fileiras castrenses, proliferam as notícias, os comentários e as polémicas sobre o assunto, parecendo cada vez mais evidente que o «Furto de armamento em Tancos humilha Exército» e adequada a atitude onde o CEME, «General Rovisco Duarte afasta responsabilidade do Governo no assalto a Tancos».


Além das notícias que dão um grupo de «Mercenários suspeitos de assalto em Tancos» e deixando no ar a possibilidade de concluio com militares no activo, ainda tivémos que suportar o vexame de saber que a imprensa de «Espanha divulga a lista de material roubado em Tancos», continuamos a assistir aos comentário diários de quem opina sobre tudo e pouco sabe sobre o assunto, como bem se refere neste artigo de opinião do EXPRESSO.

No campo das explicações apontam-se a redução das despesas com gastos militares, sendo especialmente caras a PSD e CDS as que culpam o recurso às cativações orçamentais praticadas pelo actual governo esquecendo que a referida política de redução vem sendo praticada há décadas e que nos últimos anos foi imposição da “troika”; ao invés Sarsfield Cabral refere no seu artigo «Repensar o serviço militar» a perca de importância social (com evidentes reflexos na esfera orçamental) da estrutura militar e lembra a estranha opção pelo fim do Serviço Militar Obrigatório, decidido em 2004 pelo então ministro da Defesa, Paulo Portas.

É claro que o sucedido é fruto dum conjunto de factores, onde avultam todos os enunciados – redução dos gastos militares, desprestígio e dificuldade no preenchimento dos quadros – e talvez mais um que ainda não vi referido: o aviltamento generalizado resultante da aplicação duma política de “austeridade-expansionista” justificada como se duma expiação colectiva se tratasse. Reduzir em simultâneo o rendimento das famílias e as prestações sociais como forma de punição da sociedade (não se traduz apenas em efeitos económicos mas também na redução da auto-estima colectiva) e estará agora a revelar a sua pior face, pelo que corremos o risco deste grave episódio constituir apenas o primeiro de vários...

quarta-feira, 5 de julho de 2017

COSMÉTICA DE ALTO RISCO

Com a aproximação da próxima cimeira do G20, que terá lugar este fim-de-semana em Hamburgo, e depois de notícias onde se assegura que «Trump prepara guerra comercial global antes da cimeira do G20» eis que o mesmo preparou uma pequena paragem na Polónia para melhorar a sua imagem.

Isto mesmo foi anunciado pelo LE MONDE numa notícia onde não esquece de referir a grande proximidade de ideias entre o partido no poder em Varsóvia (o PiS, Partido da Lei e da Justiça liderado pelo inefável Jaroslaw Kaczynski) e o próprio Trump, com especial destaque para as ideias populistas anti-emigração e anti-islâmicas, o nacionalismo e o soberanismo. Estas posições, claramente assumidas pelo governo da senhora Beata Szydlo em questões como emigração e as liberdades cívicas, ver-se-ão reforçadas com a visita dum presidente americano que espera em troca um “banho de popularidade” para efeitos de propaganda interna numa altura em que até se diz que os «Americanos confiam mais na CNN que em Donald Trump».


Claro que existem outras razões para esta opção de Donald Trump – fala-se de interesses norte-americanos no fornecimento de gás e da polémica questão duma NATO onde a Polónia parece ser um dos poucos países que cumpre a tal quota dos 2% do PIB em gastos militares – e a situação na Europa não pode deixar de ser uma delas, tanto mais que está prevista a participação de Trump numa reunião da Cimeira dos Três Mares (uma iniciativa polaca e croata que agrega uma dúzia de estados entre os mares Báltico, Adriático e Negro, organizada para retratar a Polónia como uma espécie de líder regional em oposição ao eixo Paris-Berlim) algo que é visto com enorme suspeita no resto da Europa.

Mas será que o Brexit em desenvolvimento (com o que isso significará duma ainda maior convergência de interesses entre o Reino Unido e os EUA) e uma estratégia americana aparentemente errática pode, como hoje mesmo escreveu Adriano Moreira no DN, “...ter efeitos colaterais positivos, porque a pressentida quebra da solidariedade atlântica, pela incerta visão do parceiro americano, tem sinais de reanimar a solidariedade da União...”, ou o seu resultado será um aprofundamento da crise de liderança da UE, quando ninguém esconde que a «Visita de Trump à Polónia aumenta receios de mais divisões na Europa»?

sábado, 1 de julho de 2017

ALÔ, ALÔ!?!?

Se no plano económico não têm faltado boas notícias para o governo de António Costa, agora que até o «FMI aplaude progressos e diz que meta do défice pode ser atingida “confortavelmente”», já no plano político as últimas semanas têm sido madrastas.

Primeiro foi aquele fatídico incêndio florestal que ceifou mais de meia dezena de vidas e depois o estranho caso do assalto aos paióis de Tancos. Se neste último o «Ministro da Defesa assume "responsabilidade política" pelo assalto a paióis em Tancos», no primeiro continuamos a assistir ao espectáculo diário do pingue-pongue de desculpas entre os diferentes intervenientes sem que até agora a respectiva ministra, Constança Urbano de Sousa, tenha dado o menor sinal de entender o cerne do problema: um ou vários dos organismos que tutela falharam em situação de elevada pressão. Enquanto o seu colega de governo, Azeredo Lopes, já veio assumir publicamente as suas responsabilidades – nem que seja pelo simples facto de dirigir o ministério que tutela o exército e as instalações objecto de furto – a Ministra da Administração Interna estará talvez à espera que seja o Primeiro Ministro a apontar-lhe a solução.


É claro, para quem queira analisar as duas ocorrências com um mínimo de objectividade, que os infaustos acontecimentos poderiam ter ocorrido neste ou noutro qualquer governo; a falta de ordenamento florestal, o abandono dos campos e desertificação do interior do país datam de há décadas sem que tal pareça alguma vez ter incomodado estes ou os anteriores governantes. A insistência na opção por uma estratégia de combate aos incêndios no lugar da sua prevenção foi escolha de vários governos, assim como o foi a do famigerado sistema SIRESP (Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal), envolto em polémicas (seja pelos custos, estimados em mais de 500 milhões de euros, seja pelas ligações ao universo BPN de alguns “parceiros” no negócio ou pelas recorrentes queixas sobre as suas falhas) desde a primeira hora.

Importante agora era que desta vez não ficassem dúvidas sobre os efectivos esforços para colmatar os erros e que as explicações não se resumam, como habitual, a um confortável processo de difusão de culpas. Isto é o mínimo a esperar para que o governo, que tão bem tem sabido demonstrar que, ao contrário do que afirmavam Passos Coelho e Paulo Portas, havia alternativas na aplicação duma política de contenção orçamental que não a transformasse num processo de radical empobrecimento dos portugueses, mantenha a credibilidade que soube conquistar.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

2019 A RECOMPOSIÇÃO DUMA NOVA EUROPA? (PARTE II)

Vimos no post anterior que a estratégia múltipla de Theresa May:
  •          reforçar a sua maioria parlamentar para avançar com a opção do hard Brexit;
  •          assegurar que até Maio de 2019 (data limite para o período de negociação com a UE), nada iria prejudicar a sua liderança;
  •          travar as tendências autonomistas da Escócia (que no referendo rejeitou o Brexit) e da Irlanda do Norte

assentou numa certa leitura sobre a opinião pública britânica e num esperado efeito dominó no continente que não se concretizou.

O mau resultado pode, ainda assim, traduzir-se num alívio das tendências separatistas porque na Escócia a descida do SNP (Partido Nacional Escocês, pró-independência) e na Irlanda a subida do Sinn Fein (a expensas dos separatistas) poderão atenuar aquelas tendências, ficando para avaliar os efeitos da aliança com os unionistas irlandeses do DUP (Partido Unionista Democrático, cujas origens remontam a Ian Paisley e ao Partido Unionista Protestante) que permitirá a sobrevivência política de Theresa May.

Resultado igualmente importante das eleições britânicas foi o claro afastamento dos defensores internos do hard Brexit, expresso no afastamento do UKIP do novo parlamento.

Claro que permanecem grandes incógnitas sobre o futuro do Reino Unido e da UE, que irão sendo respondidas à medida que avancem as negociações sobre o Brexit ou que resista a aliança dos tories (conservadores ingleses) com o DUP irlandês.


Duma forma ou outra o governo de Theresa May apresenta-se agora numa posição negocial bem mais frágil e se a hipótese dos britânicos procurarem um hard Brexit parece menos plausível ela não desapareceu de todo, passando a depender de algo não menos preocupante... a nomenklatura de Bruxelas que tão fracas provas tem dado na gestão de crises.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

2019 A RECOMPOSIÇÃO DUMA NOVA EUROPA? (PARTE I)

Depois dos resultados das recentes eleições na Europa (Austria, Holanda, França e Reino Unido), se a crise grega demonstrou a necessidade de mudar a Europa, o Brexit abriu essa possibilidade. Dito isto, durante um ano, foi difícil perceber como tudo poderia terminar: à moda inglesa (conduzindo-nos a uma recomposição das alianças) ou à maneira continental (mantendo os principíos unificadortes mas recuperando, de alguma forma, o controlo das intituições).

O sinal de mudança não derivou da votação britânica, antes das votações nos estados europeus que reafirmaram a sua lealdade aos princípios da comunidade europeia que obrigará um Reino Unido  que tinha apostado na fragmentação da UE a repensar a estratégia para encontrar uma forma de se manter ligado ao continente sem perder a face e salvar a sua própria união.

A intenção de Theresa May com a antecipação das eleições seria uma espécie de segundo referendo e um reforço da estratégia duma negociação dura com a UE, mas o resultado acabou por lhe ser desfavorável (à sua estratégia e aos interesses do sector financeiro que vêem no hard Brexit uma hipótese de manutenção de algum do actual poder da City), havendo até quem já levante a hipótese de ter colocado em dúvida o próprio Brexit.

Na ânsia de reforçar o seu peso político, Theresa May acreditando nas sondagens e na repetição dos resultados das últimas eleições locais que ditaram uma derrota dos nacionalistas do UKIP e dos trabalhistas, criou uma situação poticiamente instável ao nível interno, dificultou as negociações com a UE e ficou muito longe de acalmar os ventos autonomistas que sopram da Escócia e da Irlanda do Norte.


Quase certo é poder estar a criar um novo cenário, onde se assista à integração da Islândia e da Noruega, desde que este rompa com a tradição centralista de Bruxelas e venha a ser democraticamente validado pelos cidadãos europeus.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

ELEIÇÕES EM FRANÇA

Realizou-se ontem a segunda volta das eleições legislativas em França onde o resultado foi um «Recorde de abstenção e maioria para Macron»; nada de inesperado, salvo talvez o reconhecimento de que os «Franceses recusam dar cheque em branco ao Presidente Macron».

A já esperada vitória da nova formação política liderada por Emmanuel Macron poderá explicar em parte aqueles resultados, mas a generalização da tendência de aumento crescente da abstenção não pode ser explicado apenas pela antecipação dos resultados pois este é um fenómeno que parece cada vez mais generalizado.


Para comentar uma abstenção superior a 57% - um novo record, como escreveu o LE MONDE – é preciso ir além do óbvio (como a longa maratona de eleições regionais, das primárias dos partidos e das recentes presidenciais) e lembrar que entre a 1ª e a 2ª volta os votos brancos e nulos aumentaram 400%, algo que reforça a questão sobre a real legitimidade da consulta eleitoral ou, como escreveu aqui o semanário francês “L’OBS”, a falta dum candidato mobilizador...

Em resumo, os franceses foram às urnas escolher uma Assembleia Nacional favorável a Macron, mas desprovida do cheque em branco que este desejaria.

Não fosse a enorme abstenção, que graças aos sistemas eleitorais em pouco ou nada penaliza os partidos do poder, e talvez estivéssemos agora a comentar o sinal de maturidade dos eleitores franceses; assim, continuamos a tentar compreender o que está a levar ao alheamento dos eleitores e aqueles que o fomentam continuam a beneficiar do “crime”.

terça-feira, 13 de junho de 2017

A CAMINHO... DE QUÊ?

Como previsto, lá se vão sucedendo os actos eleitorais por essa Europa fora e assim, uns dias depois de ter chegado a notícia que do outro lado da Mancha «Theresa May ganha eleições sem maioria», deixando antever dificuldades acrescidas na negociação do Brexit, a grande notícia do fim-de-semana foi a de que «Macron é o grande vencedor da primeira volta das legislativas francesas», parecendo tranquilizar assim os que receavam a Frente Nacional e os que continuam a acreditar na estabilização do eixo Paris-Berlim.


É verdade que a generalidade da imprensa tece loas ao novo inquilino do Eliseu, mas ao contrário do que assegura aos seus leitores este tem ainda tudo para provar no campo da política e a incerteza que rodeia a sua eleição (reforçada agora com uma maioria parlamentar) contém todos os ingredientes (não fosse ele um produto da fileira Rothschild) para continuar a mergulhar o projecto europeu no marasmo em que vive.

domingo, 4 de junho de 2017

TRUMPWORLD

Depois de confirmado que «Trump retira os EUA do acordo de Paris sobre alterações climáticas», muitas foram as reacções críticas, acentuando-se ainda mais a ideia do crescente isolamento internacional dos EUA.

Esta decisão (promessa de campanha de Donald Trump), a par com aquela onde «Trump volta a exigir aos aliados da NATO mais gastos com defesa» e que pareceu abrir uma brecha entre as principais potências ocidentais não são apenas sinais da congruência do actual inquilino da Casa Branca, antes evidências duma certa maneira americana de ver o Mundo... Preconceituosa, estreita, mas determinada.


Tão determinada que não deve ser encarada de forma leviana nem displicente. Quando Trump ameaçou – porque o que na realidade fez foi ameaçar retirar ao Resto do Mundo hipóteses de concertação em matérias de segurança, confirmando que com ele os EUA só agirão em exclusivo benefício próprio – abandonar os restantes membros da NATO à sua sorte e estes não lhe manifestaram objectivamente a sua indisponibilidade para pagar mais para verem defendidos apenas os interesses dos EUA deixaram um sinal duma certa tibieza.

Como que em aparente ligação,ocorreu uma semana depois um ataque contra a zona das embaixadas em Cabul, aquela onde se diz que o nível de segurança é mais elevada, onde esta é assegurada principalmente pelo exército americano e onde, curiosamente, ninguém reivindicou o atentado.
Aliás,o que não tem faltado nos últimos anos são atentados – invariavelmente atribuídos a extremistas islâmicos – perpetrados em oportunidades particularmente adequadas a outros interesses que não os dos grupos que os reivindicam ou a quem são atribuídos. Exemplo disso mesmo foi o atentado de ontem em Londres, sobre o qual existem notícias contraditórias que começaram por falar em vários “ataques”, e que ocorre a poucos dias dumas eleições antecipadas, desendadeadas por um partido conservador que parece cada vez menos seguro de alcançar o resultado que antecipava.

Por um motivo ou por outro, inegável parece ser que o Mundo pós-Trump (ou pró-Trump) se está a transformar num lugar cada vez menos agradável.