sábado, 10 de novembro de 2007

O DILEMA PAQUISTANÊS

Prometida em Agosto passado por responsáveis governamentais paquistaneses, eis que chegou a implantação do estado de emergência àquele país islâmico[1].

Quando parecia estar a dar frutos a estratégia norte-americana de futura divisão do poder entre o actual ditador militar Pervez Musharraf e a ex-primeiro-ministro Benazir Bhutto, eis que pretendendo manter o país sujeito à sua vontade, sob permanente pressão dos movimentos islâmicos radicais e receando uma decisão desfavorável do Supremo Tribunal que o impedisse de manter a presidência do país, Musharraf terá optado pelo mal menor e pela solução que melhor conhece – o uso da força e a declaração do estado de emergência.

Tal como já aconteceu este ano, quando Iftikhar Mohammad Chaudhry, o presidente do Supremo Tribunal, foi afastado das suas funções[2], os advogados e juízes voltam a manifestar-se como a principal fonte de oposição ao poder militar enquanto se aguarda que a recém chegada líder do PPP (Partido do Povo Paquistanês) Benazir Bhutto decida se também pretende engrossar a lista dos contestatários ou manter-se fiel aos acordos firmados com a secretaria de estado norte-americana e aguardar pelo desenrolar dos acontecimentos.

As incógnitas são múltiplas, porque se pouca gente duvida da verdadeira razão para a aplicação do estado de emergência[3] e a limitação das poucas liberdades vigentes no Paquistão, começa a crescer a convicção de que os principais beneficiados estarão a ser os grupos radicais islâmicos contra os quais Musharraf diz ter agido. Enquanto americanos e ingleses tentam desesperadamente não “perder” o grande aliado na «guerra contra o terror» inventada pelos neocons, no terreno o confronto entre Musharraf e Benazir Bhutto parece estar a ganhar novos contornos.

Afastados parecem os tempos em que tudo se resumiria a uma briga de cão e gato (ou gata) apadrinhada pela inefável secretária de estado norte-americano, Condoleezza Rice, como então os retratou Jeff Danziger nas páginas do New York Times...

porque embora se mantenha a indefinição quanto à posição de Benazir Bhutto e do seu PPP – dividida que está entre manter os acordos com os americanos que lhe darão acesso directo e rápido ao poder e integrar o movimento que nas ruas vai contestando a política de Musharraf – esta veio recentemente reafirmar os termos para o acordo, quando ameaçou apelar à mobilização dos partidários do PPP caso Musharraf não aceite restaurar a constituição, não anuncie a data das próximas eleições e não abandone o cargo militar de chefe do estado-maior.

Enquanto se sucedem as notícias sobre prisões de opositores (com as prisões domiciliárias de Chaudhry e de Benazir a revelarem-se respectivamente a mais representativa e as mais mediática), o correspondente local da BBC[4] assegura que aqueles mesmos termos terão sido reafirmados telefonicamente por George W Bush e que poderão até já ter produzido algum efeito uma vez que o general anunciou posteriormente a realização de eleições em 15 de Fevereiro do próximo ano. Porém, na opinião dos seus opositores esta não passará de mais um logro uma vez que têm sido múltiplos os avanços e recuos dos militares quanto à realização de eleições e o inevitável regresso aos quartéis.

Como que a dar razão a esta leitura, em resposta às suas declarações Benazir Bhutto foi colocada em situação de prisão domiciliária e impedida de participar em qualquer manifestação; este facto não parece preocupar uma parte da oposição na medida em que para alguns dos seus líderes a actuação de Benazir Bhutto caracteriza-se por uma manifesta indecisão quanto a integrar o movimento de oposição aos militares.

Um dos críticos assumidos de Benazir é Imran Khan líder do PTI (Pakistan Tehreek-e-Insaf ou Movimento para a Justiça, partido que ajudou a fundar em 1997) e ex-capitão da equipa paquistanesa de cricket[5] que venceu a Taça do Mundo em 1992, que se opõe frontalmente a que Musharraf continue a exercer qualquer tipo de cargo no Paquistão; o seu principal problema é que continua a ser mais conhecido pelos feitos desportivos e pelo papel de playboy que pela sua actuação política e não dispõe da capacidade de mobilização popular equivalente à de Benazir.

A estratégia ambivalente desta deverá começar a ser cada vez mais encarada como uma parte do problema, tanto mais que paralelamente se torna cada vez mais evidente a incapacidade dos militares paquistaneses lidarem com os extremistas islâmicos, num território que além de vizinho partilha fortes ligações tribais com o cada vez mais problemático Afeganistão.

Aliás, o fenómeno da ambivalência parece der uma nota dominante na política paquistanesa. Começando na já referida actuação de Benazir Bhutto durante a actual crise, passando pela de Musharraf que justifica a instauração do estado de emergência como meio de combate aos extremistas islâmicos mas deste resulta a suspensão das liberdades cívicas, a prisão de juízes, advogados, políticos oposicionistas e estudantes enquanto liberta extremistas islâmicos ao abrigo de um acordo de troca de prisioneiros e acabando nas conhecidas ligações entre o ISI (serviços secretos paquistaneses) e a Al-Qaeda[6], tudo reforça a imagem de reduzida credibilidade de um país que desde a sua fundação há sessenta anos nunca conheceu uma verdadeira estabilidade de regime, oscilando entre períodos de alguma democraticidade com outros de ditadura militar.

Talvez por tudo isto a preocupação dos países ocidentais com o desenvolvimento da actual crise seja perfeitamente justificada, tanto mais que o Paquistão, a par com a Índia e Israel, é um dos países da zona que dispõe de tecnologia nuclear (do seu interior terá partido o know how[7] que facilitou à Coreia do Norte a entrada no clube dos países com armamento nuclear) e a instabilidade reinante pode bem constituir uma oportunidade de ouro para grupos extremistas conseguirem obter material e equipamento nuclear. Esta hipótese estará entre as principais preocupações da administração Bush e é apresentada como principal justificação para o apoio que mantém ao general Musharraf, mesmo quando este se tem revelado totalmente ineficaz na estratégia de combate à Al-Qaeda.

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[1] Veja-se o que a propósito desta hipótese e da crise da Mesquita Vermelha escrevi aqui.
[2] No início deste ano o presidente do Supremo Tribunal paquistanês foi afastado do cargo, decisão a que se seguiu um período de manifestações e confrontações entre autoridades e advogados até à reinstalação de Chaudhry no cargo.
[3] O estado de emergência traduz-se entre outras medidas na suspensão das salvaguardas constitucionais sobre liberdades e segurança, aumenta os poderes policiais de detenção e privação de assistência jurídica, suspende o funcionamento dos meios de informação.
[4] Veja a notícia aqui.
[5] Desporto considerado por muitos como parecido com o basebol americano; as suas origens remontam à Idade Média tendo-se tornado num desporto bastante admirado no Reino Unido, na Índia e no Paquistão. É disputado por duas equipas com onze jogadores, num campo sem dimensões fixas, com cada uma das equipas a tentar, à vez, atingir o alvo do adversário (três varetas fincadas no solo, chamadas wicket); os jogadores das duas equipas tomam posições de ataque ou defesa, de acordo com a posse da bola, e agem com o objectivo de atacar ou defender o wicket.
[6] Esta organização, que sempre tem mantido fortes laços com a CIA, foi por esta utilizada para fomentar o movimento taliban na oposição à presença soviética no Afeganistão e, como recentemente se pode comprovar no incidente da Mesquita Vermelha, com ele continua a manter relações particularmente estreitas.
[7] É habitualmente atribuído ao paquistanês Abdul Qadeer Khan, designado pai da bomba atómica paquistanesa, a proliferação dessa tecnologia por outros países, entre os quais a Coreia do Norte.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O PAPEL DAS ONG

O incidente recentemente ocorrido no Chade que envolve uma ONG francesa - a Arche de Zoé - e uma centena de crianças que esta pretendia transportar para a Europa, alegadamente órfãos da região do Darfur[1], para serem alvo de adopção, recolocou na ordem do dia uma questão que recorrentemente surge: a da actuação das ONG em cenários de catástrofe.

Há muitos anos que se multiplicam as interrogações sobre a utilidade da maior parte destas organizações. Mesmo sem querer pôr em causa o voluntarismo e a boa vontade que moverá a grande maioria dos intervenientes, casos como este não só deterioram o clima de trabalho das restantes ONG (onde quer que estas operem) como colocam os seus voluntários em situação de crescente risco.

Polémica política aparte – e neste capítulo o governo de Sarkozy terá agido particularmente mal em quase todas as fases do processo quer quando, conhecedor dos contornos da operação ou não, disponibilizou meios militares em apoio da Arche de Zoé para em seguida informar o governo chadiano sobre a acção da ONG e acabar agora pela voz do seu presidente a afirmar que «resgatará todos os detidos seja qual for o crime que cometeram» - e após um completo apuramento das responsabilidades dos envolvidos no polémico assunto (já se fala em pagamentos de vários milhares de euros realizados pelas “famílias adoptantes”) deveria ser dado lugar a um profunda reflexão sobre os modelos de actuação das ONG em acções humanitárias.
Independentemente do evidente conflito de interesses que mantém vivo o que tudo indica seja um cenário de limpeza étnica no Darfur e da inegável tentação de intervenção militar que o governo francês vem revelando, o debate sobre os modelos de funcionamento das ONG e os princípios éticos e diplomáticos que terão que respeitar parece cada vez mais necessário e deveriam ser os principais responsáveis pelas ONG a fomentar e facilitar esse mesmo debate.

Além das questões de natureza ética que deveriam presidir à actuação destas organizações há ainda que considerar a avaliação dos efeitos da sua presença em termos culturais e religiosos[2], porque o facto do Ocidente ter abandonado os modelos colonialistas não significa que os territórios e as populações até há poucas gerações colonizados não sintam ainda o seu prolongado efeito[3].

Neste caso, como em tantos outros no nosso dia-a-dia, é bem adequado o ditado popular que lembra que «de boas intenções está o Inferno cheio» e serão seguramente meritórias todas as iniciativas que contribuam para minorar os efeitos físicos e materiais dos conflitos que um pouco por todo o lado continuam a deteriorar as condições de vida das populações das regiões mais carenciadas, mas que de modo algum interfiram com o direito dos povos escolherem e manterem os seus modelos culturais.
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[1] O Darfur é uma região do Sudão, próxima da fronteira com o Chade, a República Centro Africana e a Líbia, onde decorre um conflito armado, iniciado em Fevereiro de 2003, que opõe principalmente forças muçulmanas de origem árabe aos não-árabes da área; segundo algumas fontes os milicianos estarão a ser apoiados pelo governo sudanês que nega o envolvimento. Embora não oficialmente reconhecido como genocídio a Organização Mundial de Saúde estimava em 2004 que já teriam morrido mais de 50 mil pessoas enquanto diversas ONG apontam para que o número atinja os 400 mil mortos e 2 milhões de deslocados. Enquanto isto, em termos diplomáticos, arrasta-se a decisão tomada pela ONU em Agosto de 2006 de enviar uma força internacional de manutenção de paz face à oposição do governo sudanês.
[2] Recorde-se o caso recentemente ocorrido no Afeganistão com os membros de uma organização religiosa sul-coreana
[3] Exemplo disso mesmo surge neste caso recente quando se debate a nacionalidade das crianças que a Arche de Zoé pretendia transferir do Chade; em regiões onde imperam ainda estreitos laços tribais o conceito de nacionalidade (associado à definição de linhas fronteiriças artificiais que não respeitam os tradicionais limites tribais) é algo de muito vago ou de todo em todo inexistente.

domingo, 4 de novembro de 2007

ATENÇÃO AO QUE SE LÊ NOS JORNAIS

Na semana que agora terminou voltou a ser notícia um novo recorde do preço do petróleo. O DIÁRIO ECONÓMICO informava num dia que o petróleo bate novos recordes em Londres e Nova Iorque e no dia seguinte que o choque petrolífero será a sério em 2008, fundamentando esta afirmação no pressuposto de que «...o euro deixará de proteger a economia da subida imparável dos preços do petróleo (importado) e do qual Portugal é totalmente dependente».

Por curiosidade, no mesmo dia o LE MONDE escrevia que o petróleo e o euro continuam a subir e que os mercados anteviam já que o FED voltasse a cortar a sua taxa de referência na sua reunião de final do mês (o que se confirmou com a redução de 4,75% para 4,5%), que o mesmo é dizer que será de esperar que o dólar continue a perder valor, ou pelo menos não o recupere rapidamente, face ao euro e às principais moedas mundiais.

O que deve pensar quem tenha lido estas notícias?

Será que vamos mesmo enfrentar um ciclo de subida generalizada dos preços?

Para facilitar a resposta, separemos as duas questões: o comentário das notícias e o da situação real.

Fazendo fé no LE MONDE o que escreveu Luís Reis Ribeiro no DIÁRIO ECONÓMICO deixa de ser um exercício de análise económica para passar a ser uma mera manobra de desinformação. Que os preços aumentarão em Portugal no próximo ano não me suscita qualquer dúvida (bem como o facto de dependermos totalmente do petróleo importado), já as razões para esse aumento de preços serão diversas da enunciada pelo articulista.

Repetindo uma expressão que usei no meu “post” anterior, a tese da culpabilização do petróleo pela subida generalizada dos preços constitui apenas mais uma barbaridade pseudo económica.

Duvidam?

Então vejamos qual tem sido a evolução do preço do petróleo.

Segundo dados disponibilizados na página oficial da OPEP na Internet, os preços médios anuais do barril de petróleo pago no mercado internacional, têm sido os seguintes desde 1994:

Este gráfico que traduz a evolução do preço médio anual “spot”[1] de um cabaz de países produtores deve ser comparado com a evolução das cotações do petróleo nos mercados a prazo (por exemplo o NYSE):
no qual se verificam os tais preços “históricos” que são objecto de notícia nos meios de comunicação, mas de modo algum reflectem o preço a que o barril é realmente transaccionado.

Para o confirmar vejam os dois gráficos sobrepostos[2]:

e notem que os preços médios anuais são tanto mais divergentes com as cotações a prazo quanto maiores forem as respectivas oscilações[3].

Se isto parecer pouco claro, note-se que sendo inegável a tendência de subida do preço do crude, particularmente visível após a invasão americana do Iraque, não é menos verdade que o preço a que efectivamente as gasolineiras adquirem a matéria prima para refinação e transformação se encontra longe dos valores normalmente referidos nas notícias, porque estas respeitam a preços especulativos praticados num mercado a prazo que pouco ou nada têm a ver com os efectivamente praticados no mercado à vista.

Clarificada a questão da interpretação das notícias com que diariamente somos bombardeados, vejamos o que será de esperar no futuro próximo.

Se para os mais informados, ou mais pessimistas, não restarão muitas dúvidas de que o próximo ano trará novo aumento generalizado dos preços, tanto mais que os últimos números adiantados para a inflação em 2007 andam entre os 2,3% e os 2,4% quando em média os salários no início do ano sofreram uma actualização inferior a 2%, resta perceber qual o peso representado pelos combustíveis.

Sendo facilmente entendível a importância que tem para os orçamentos das famílias a variação do preço dos combustíveis, agora que a globalização dos mercados determinou um aumento exponencial do volume de transporte das mercadorias cuja produção foi deslocalizada para regiões de mão-de-obra mais barata ou dotadas de melhores condições naturais, é preciso conhecer melhor como é formado aquele preço. Contrariando a tendência dominante entre nós de atribuir o aumento do preço dos combustíveis à componente fiscal, Eugénio Rosa chamou oportunamente a atenção num recente artigo sobre a explicação para o crescimento dos lucros da GALP[4], demonstrando que não é apenas o agravamento fiscal o responsável pelos aumentos mas principalmente o aumento do lucro daquela empresa oligopolista[5]. Na comparação que realizou para os quinze países da UE ressaltam algumas conclusões interessantes:

nomeadamente as variações registadas nos preços sem impostos e nas cargas fiscais que revelam que Portugal integra o grupo de países que apresentam preço antes de impostos, preço de venda e imposto superiores à média, que a Grécia (economia em muito comparável à nossa) é o país que apresenta o segundo preço sem imposto mais elevado mas graças ao menor peso da carga fiscal é o que apresenta o preço de venda mais baixo do conjunto observado e que a Inglaterra beneficiando de um dos preços antes de impostos mais reduzido (para algo deverá servir a sua posição de ex-colonizador no Médio Oriente e o seu pronto alinhamento com a política norte-americana) é o que aplica uma maior carga fiscal.

Vistos há muitos anos como meio fácil de receita fiscal, os combustíveis têm sofrido o efeito da subida do preço do crude (petróleo bruto à saída dos poços de extracção), mas principalmente o aumento da carga fiscal e do ganho dos intermediários em todo o processo de refinação (transformação do crude nos múltiplos derivados dele obtidos) e de distribuição, não sendo por isso de estranhar o seu importante contributo para o aumento generalizado dos preços o que reforça a ideia transmitida pelo articulista do DIÁRIO ECONÓMICO de que em 2008 tudo será mais caro!

Mas o que ninguém deve esquecer é que os aumentos que o próximo ano nos trará não serão consequência principal do aumento do petróleo, tanto mais que o seu preço medido em euros está inferior ao registado em 2006 e não é previsível que o dólar (moeda em que ainda é cotado o crude) venha a valorizar-se significativamente, mas resultado da incapacidade de sucessivos governos para prosseguirem políticas que não subordinem o bem estar das populações à exclusiva necessidade de contenção do deficit nem pactuem com o oportunismo daqueles que tentam esconder o acréscimo dos seus lucros por detrás da cortina do preço do petróleo.
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[1] Designa-se por preço “spot” ou “á vista” aquele que é efectivamente pago no acto de transacção de bens e serviços por oposição ao preço “a prazo”, ou seja aquele que alguém pode vir a pagar.
[2] Esta sobreposição é um “trabalho caseiro” pelo que os resultados não podem ser entendidos como rigorosos, mas é suficiente para visualizar a ideia que pretendo transmitir.
[3] É este fenómeno que se designa por volatilidade e traduz, nem mais nem menos, que a incerteza que se pensa existir sobre o produto em causa; no caso concreto do petróleo são normalmente aceites como factores influentes sobre a volatilidade os possíveis cenários de conflito nas zonas de produção, as tempestades (por causa das plataformas “offshore”) e as flutuações do dólar (moeda em que tradicionalmente se denominam os contratos).
[4] Ver o artigo Porque os lucros da GALP aumentaram 71% no 1º semestre de 2007?.
[5] Empresa que pratica, conjuntamente com outra ou outras do mesmo sector de actividade, uma forma de domínio e concertação sobre o mercado, seja através da criação de barreiras à entrada de novos concorrentes seja na concertação dos preços de venda dos seus produtos. Esta prática de concertação de preços, a forma mais simples de oligopólio, também se designa por cartel; formas mais avançadas de oligopólio são o trust - quando as empresas abdicam da sua autonomia para constituírem uma única organização empresarial - e o holding - quando criam uma nova entidade para gerir o conjunto das participações sociais.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

A PROPÓSITO DO DIA MUNDIAL DA POUPANÇA

Assinala-se hoje mais uma efeméride: o Dia Mundial da Poupança.

Não é pois de estranhar que aproveite aqui o ensejo para retomar o estafado tema da retracção da poupança que governantes e altos responsáveis pelo sistema financeiro nacional há vários anos vêm apregoando. Ao que dizem aquelas personalidades os portugueses, e em especial as camadas etárias mais jovens, estão a perder o saudável hábito de poupar; por outras palavras as novas gerações comportam-se como estouvados consumidores e abandonaram a salutar prática de amealhar como mecanismo de prevenção e de segurança para o futuro.

Regularmente ouvimos referir que o endividamento das famílias é já superior ao seu rendimento disponível, afirmação que, há semelhança de muitas outras barbaridades pseudo económicas que se afirmam, merece adequada reflexão.

Que as famílias portuguesas poupem hoje menos que há 30 ou 50 anos atrás é perfeitamente normal atendendo à evolução registada, quer ao nível interno quer ao nível externo, num período de tempo em que o país passou de uma situação de isolamento político e económico para outra de grande abertura aos mercados internacionais. Abandonámos um regime político enfeudado a valores económicos bulionistas[1] para passarmos a integrar um dos maiores espaços económicos mundiais – a União Europeia – pelo que é perfeitamente natural que as poupanças antigamente originadas pela simples ausência de produtos e mercados se tenham convertido em melhorias da qualidade de vida das populações.

Porém este fenómeno não explica tudo, há que lhe associar outros como o despertar de uma maior propensão ao consumo (meramente induzida pelo mercado e pela publicidade) mas também pela criação de uma nova “necessidade” – a da aquisição de habitação própria. Quando no início do último quartel do século XX os poderes instituídos começaram a incentivar a aquisição de habitação própria como forma das famílias acederem à habitação alguém se interrogou sobre os efeitos que tal opção comportaria?

Outra variável de grande peso na formação da poupança das famílias é o seu rendimento... Assim, não é de estranhar que fenómenos como o da indexação das revisões salariais a indicadores fantasmas, como a inflação esperada, tenham acabado por se traduzir numa constante degradação dos rendimentos reais das famílias que dependem de rendimentos do trabalho e que representam a grande maioria. Esta realidade, bem demonstrada em trabalhos do economista Eugénio Rosa[2], associada a fenómenos de natureza conjuntural, como o da variação das taxas de juro, ajudou a ampliar o efeito que conhecemos.

É evidente que outros factores devem ser tomados em linha de conta quando analisamos fenómenos como o da redução da poupança, não sendo de modo nenhum displicente considerar a massificação dos sistemas de reforma e de assistência na saúde, como co-responsáveis pela modificação dos padrões de poupança e de consumo das gerações mais jovens, sem que tal tenha que ser associado a comportamentos mais irresponsáveis.

Em resumo, o que me parece merecedor de profunda atenção é a banalizada atitude de permanente desresponsabilização dos decisores e responsáveis políticos e pelo escamoteamento de uma realidade económica – a da concentração da riqueza num segmento cada vez menor da população – que nada tem a ver com alterações dos padrões de consumo e poupança, como ingenuamente nos querem fazer crer, mas sim com uma radical alteração do modelo de distribuição da riqueza produzida.
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[1] Defensores de uma teoria económica que avalia a riqueza a partir da quantidade de ouro e outros metais preciosos acumulados; privilegiando a acumulação em detrimento do investimento produtivo. Esta corrente, que conheceu o seu período áureo entre os séculos XV e XVIII, defendia uma versão ainda mais extremista que os mercantilistas por não revelarem qualquer preocupação com a vertente produtiva da economia.
[2] Ver os artigos: A PARCELA DO PIB QUE REVERTE PARA OS TRABALHADORES TEM DIMINUÍDO EM PORTUGAL, O QUE AGRAVA A SUA SITUAÇÃO E AS DESIGUALDADES e· EM 2006, OS LUCROS DAS 500 MAIORES EMPRESAS AUMENTARAM 66,8% ENQUANTO OS SALÁRIOS DOS TRABALHADORES PORTUGUESES SUBIRAM APENAS 2,4%.

domingo, 28 de outubro de 2007

É PRECISO AINDA MAIS…

A semana terminou com a divulgação das conclusões do estudo encomendado pela CIP sobre a localização do NAL[1] em Alcochete e, conforme se previa, não deixam dúvidas quanto às vantagens comparativas com a Ota.

Além dos custos de construção se mostrarem inferiores em mais de 30% - 2 mil milhões de euros contra os 3,1 mil milhões estimados para a Ota -, os custos com outras infraestruturas podem elevar aquele montante aos 3 mil milhões de euros. A localização defendida por este estudo apresentará ainda a vantagem de reduzir os custos com as expropriações, porque os terrenos são já de propriedade pública, e com as obras de terraplanagem e de consolidação, indispensáveis na Ota mas desnecessárias em Alcochete face às características do terreno do Campo de Tiro de Alcochete.

Segundo o estudo, além dos menores custos originados pelas características do Campo de Tiro de Alcochete, outras poupanças serão possíveis caso se opte por uma nova abordagem nas ligações viárias àquela localidade: redesenho das linha do TGV, optando por uma única saída de Lisboa pelo Sul e posterior derivação para o Porto e Madrid, e a opção por uma ligação Lisboa-Montijo em substituição da prevista Lisboa-Barreiro, mais extensa e que não permitirá uma opção em túnel, mais económica que a clássica solução suspensa.

Mas a grande vantagem desta nova opção é inegavelmente o facto da solução Ota, condicionada pelas limitações geográficas não permitir qualquer expansão futura enquanto a opção por Alcochete permitirá que o investimento agora realizado possa ser amortizado num período de tempo mais longo uma vez que a infraestrutura agora construída poderá vir a sofrer as ampliações que o futuro determine.

Se mais razões não houverem, estas já me parecem mais que suficientes para justificar a necessidade de não avançar de forma cega para o investimento na Ota.

Na presença de novos dados, de novas estimativas de custos e de investimento, de novas opções (veja-se o caso das ligações ferroviárias e da travessia do Tejo), quem poderá negar que dispomos hoje de mais e melhor informação para tomar a decisão de onde irá ser implantado o NAL?

Se este pode ser já um bom momento para louvar toda a movimentação em torno da polémica do NAL, é fundamental não esquecer, nem calar, que continuam ainda a faltar dados indispensáveis a um processo de tomada de decisão consciente. Enquanto se aguarda pelo estudo da opção Portela+1, prometido em Agosto passado por José Manuel Viegas, professor do Instituto Superior Técnico, o JORNAL DE NOTÍCIAS veio fazer eco das conclusões de um estudo patrocinado pela Associação Comercial do Porto, que se revela muito favorável aquela solução.

Segundo os autores daquele trabalho (cuja autoria não consegui apurar) a opção pela adaptação do aeródromo do Montijo para receber os voos das “low cost” não é apenas viável, como deve ser encarado como alternativa ainda mais válida agora que o Governo anunciou a intenção de investir 32 milhões de euros na adaptação do aeródromo de Beja para que este funcione como apoio ao Aeroporto de Faro.

Mas além dos estudos que pouco a pouco vão surgindo mantém-se a necessidade de um que aborde as perspectivas futuras do transporte aéreo face aos crescentes custos energéticos e ao crescimento da rede de alta velocidade no espaço da União Europeia e assim demonstre a necessidade ou a inutilidade da construção de uma nova infraestrutura de grande dimensão e elevados custos como a de um novo aeroporto internacional.
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[1] Ver as notícias do DIÁRIO DE NOTÍCIAS e do DIÁRIO DIGITAL

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

AS MARAVILHAS DAS ESCOLAS PRIVADAS

Com a publicação da listagem das classificações por escola nos exames da 1ª fase do ensino secundário parece ter voltado à ordem do dia o debate ensino privado versus ensino público.

De pronto os habituais defensores da privatização de tudo e mais alguma coisa saíram a terreiro para defenderem as virtudes da iniciativa privada contra o laxismo da gestão pública. Apoiados nos resultados estatísticos que colocam nove escolas privadas na classificação das dez melhores, não houve jornal ou televisão que não nos bombardeasse com a “receita mágica” para o sucesso – trabalho e mais trabalho, professores motivados e alunos ávidos de aprenderem.

Mas o que nenhum panegirista da excelência da iniciativa privada refere é que entre as escolas melhores classificadas não figura nenhuma localizada fora de um grande centro populacional ou que sirva uma população escolar heterogénea.

Verdadeiramente interessante e irrefutavelmente confirmador das apregoadas virtualidades da iniciativa privada seria encontrarmos entre os primeiros lugares uma escola privada instalada em qualquer uma dos muitos bairros da lata lisboetas ou das ilhas portuenses onde “vivem” os trabalhadores mais mal pagos deste país.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

CONTINUA A SAGA NO BCP

Há pouco mais de uma semana deixei aqui uma interrogação a propósito da polémica criada em torno da anulação de uma dívida que um dos filhos de Jardim Gonçalves contraiu no banco que este dirige.

Procurei na oportunidade deixar claras algumas das dúvidas que prontamente terão assaltado o espírito de muita gente:
  1. a imoralidade de quem autoriza financiamentos a si próprio ou a familiares;
  2. a total ausência de ética de quem autoriza esses mesmos financiamentos em condições privilegiadas relativamente ao conjunto dos clientes do banco e às próprias normas gerais de crédito;
e se na altura tinha poucas esperanças de as ver esclarecidas estas acabaram por ruir com a notícia[1] de que Jardim Gonçalves procedeu à liquidação dos 12,4 milhões de euros que Filipe Pinhal, actual presidente do Conselho de Administração do BCP e na época simples membro daquele conselho, classificou como incobrável em 2004.

A decisão de liquidar a dívida do filho, tardiamente tomada por Jardim Gonçalves, não só não responde às dúvidas anteriores como origina outras: quais os critérios económicos e financeiros em que se fundamentou Filipe Pinhal para declarar o crédito como incobrável? Serão estes os mesmos normalmente utilizados pela banca?

Este novo desenvolvimento longe de esclarecer o imbróglio apenas pode servir para fundamentar nova avalanche de dúvidas e críticas. Se pouca gente duvidará da prática de evidente favorecimento na decisão de contratação de um crédito de montante elevado (cerca de 15 milhões de euros), uma vez que esta operação foi autorizada sem qualquer tipo de garantias, contrariando todas as normas e regras de prudência, será agora ainda maior o número daqueles a quem não restará qualquer dúvida que a polémica decisão de considerar a dívida terá sido tomada em resultado de uma profunda submissão e subserviência hierárquica – quem ousaria enfrentar o todo poderoso Jardim Gonçalves, ou melhor, quem resistiria a não aproveitar a oportunidade para manifestar uma tão profunda prova de servilismo?

Se esta história rocambolesca revela uma leviandade e uma ausência de ética de todos os intervenientes, destrói completamente o mito do rigor de actuação dos bancos e expõe ainda o ambiente que neles grassa (e por analogia no país): aos poderosos tudo é permitido, tanto mais que haverá sempre alguém suficientemente subserviente para facilitar todo o processo.

Mas não este episódio não se revela paradigmático apenas pelas questões que coloca em torno da ética (ou da sua ausência) uma vez que a sua origem está muito para além do simples facto descrito; não fora a luta que se trava nos bastidores pelo poder no BCP e o crescente mal-estar entre os seus trabalhadores e possivelmente nada disto teria vindo a público.

Seguro é que toda esta agitação e as sucessivas notícias em torno de operações bancárias pouco claras são particularmente estranhas e pouco úteis num ramo de actividade onde a descrição é a norma e a confiança é a pedra basilar da actividade; para avaliar os “estragos” que Jardim Gonçalves, os seus pares e os seus opositores estão fazer ao próprio banco basta ler os comentários às notícias que vão surgindo na Internet.

Como medida positiva seria particularmente interessante que os banqueiros e Banco de Portugal atentassem nesta situação e a entidade fiscalizadora produzisse normas e impusesse medidas mais eficazes de fiscalização e prevenção de casos semelhantes (na política como no mundo dos negócios não pode bastar que a mulher de César seja séria, também tem que o parecer), aplicando sanções muito mais pesadas aos prevaricadores.

Quando tanto se fala na investigação de casos de lavagem de dinheiro e no indispensável combate à corrupção, aqui temos um bom exemplo do que nunca poderia ter acontecido… a menos que teses como esta se venham a confirmar.
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[1] Notícias publicadas no DIÁRIO ECONÓMICO, no DIÁRIO DE NOTÍCIAS e no JORNAL DE NEGÓCIOS.

domingo, 21 de outubro de 2007

OS DIAS NEGROS DE OUTUBRO - Parte II

Quase sessenta anos volvidos sobre a data da Black Thursday[1] e três grandes conflitos armados depois (II Guerra Mundial e as Guerras da Coreia e Vietname), o mês de Outubro voltou a revelar-se aziago para os mercados de capitais, quando no dia 19 de Outubro de 1987 o índice Dow Jones caía 22%, tendência que alastrou aos mercados inglês e japonês há velocidade da luz.

Literalmente, pois na época as principais bolsas mundiais, Nova Iorque, Londres e Tóquio já se encontravam completamente informatizadas, facto que aliás viria a ser utilizado para explicar a dimensão da crise, uma vez que a maioria dos operadores dispunham da recente inovação que constituía o mecanismo automático de “stop-loss”[2].

Mas o que originou esta situação?

Contrariamente ao clima económico que se vivia em 1929, momento em que já se faziam sentir os sinais de uma crise económica, nomeadamente uma retracção no consumo interno norte-americano por via do agravamento das taxas sobre os produtos comerciais, em 1987 a economia dos EUA apenas apresentava os primeiros sinais de abrandamento. Dois anos antes a actuação das autoridades monetárias tinha-se revelado eficaz a debelar as falências das empresas hipotecárias que, aproveitando a ausência de regulamentação eficaz, se tinham envolvido num processo de concorrência directa com os bancos tradicionais, mas o mercado de capitais debatia-se agora com uma crise de confiança originada pela ideia generalizada de que as cotações estariam inflacionadas por práticas de “inside trading”[3] e que os processos de aquisições entre empresas se encontrariam sustentados por crédito bancário e não numa efectiva criação de valor por parte das empresas compradoras.

Para agravar tudo isto a confiança no dólar estava em queda e pior ficou quando a Alemanha decidiu subir as suas taxas directoras, aumentando ainda mais o valor do marco contra o dólar. A reacção do FED, baixando a taxa de juro ajudou a recuperar os níveis de confiança e a sustentar o aumento da procura interna nos EUA., mas esta crise que demonstrou o elevado grau de interligação entre as economias e a importância dos efeitos conjugados das políticas monetárias dos diferentes países teve também um aspecto positivo que foi o do endurecimento das regras para o combate ao “inside trading”.

Se nos mercados mais desenvolvidos o “crash”[4] de 1987 aparentou uma duração limitada, já nos mercados periféricos, como o português, o seu efeito foi bastante mais prolongado.

O crescimento da economia americana, sustentado por um clima geopolítico favorável, permitiu que entre a Black Thursday e a Black Monday[5] mediasse mais de meio século, mas o crescimento das trocas comerciais e o desenvolvimento do mercado de capitais terá tido forte influência na redução desse prazo. Apenas onze anos foram necessários para que novamente a economia mundial voltasse a sentir os efeitos de nova crise.

Desta vez pelas suas características eminentemente financeiras a crise que ocorreu em 1989, teve início em 1997 na Ásia, alastrou no ano seguinte à Rússia e ao Brasil e conheceu o seu pico em 1989 com o colapso de um fundo de longo prazo[6]. Iniciada por razões de natureza económica alastrou aos mercados de capitais e conheceu maior amplitude por se ter revelado particularmente adversa a uma teoria então dominante e que esteve na sua origem. Apresentada por dois premiados com o Nobel da Economia - Myron Scholes and Robert Merton postulava que a longo prazo haveria uma convergência nas taxas das obrigações dos diferentes países e provocou uma verdadeira corrida aos fundos que especulassem nas diferenças registadas entre as diferentes taxas.

O pior foi quando em 1998 a Rússia suspendeu o pagamento dos juros da sua dívida, originando um movimento de rejeição da generalidade das obrigações públicas que teve como contrapartida uma corrida às obrigações do tesouro americano (US Treasury Bonds) e originou uma subida no diferencial entre aquelas taxas. O LTCM que tinha recorrido ao crédito para construir as suas carteiras segundo os pressupostos da convergência das taxas, via-se a braços com sérias dificuldades de liquidez e contribui em muito para ampliar o efeito de choque; afim de minimizar os efeitos negativos sobre o mercado de capitais o FED liderou a formação de um sindicato bancário para socorrer o fundo e mais de3,5 mil milhões de dólares foram nele injectados até à sua liquidação em 2000.

Ainda mal refeitos dos efeitos da falência do LTCM, logo em 2000 o mercado de capitais voltou a conhecer uma nova corrida e um novo “crash”. Desta feita o estranho objecto de desejo foram as acções de um mercado recentemente criado, o NASDAQ[7] e cujas empresas listadas ficaram na gíria como as “dot com”[8], independentemente da reduzida dimensão das empresas e dos reduzidos ou nulos lucros que geravam na sus actividade económica. A bolha rapidamente rebentou e em finais de Outubro de 2000 o índice NASDAQ tinha caído quase 80%.

Tal como em situações anteriores o efeito deste “crash” também se fez sentir na economia norte-americana, com uma quebra no investimento e o abrandamento do crescimento económico, situação que seria ainda ampliada com o 11 de Setembro de 2001. Tal como no passado o FED voltou a recorrer à receita do corte nas taxas de juro visando a dinamização da economia.

Embora a actual crise, originada na falência do mercado “subprime” norte-americano possa parecer diferente das anteriores e não respeite a tendência para a redução dos ciclos de ocorrência (sempre mediaram sete anos desde a crise das “dot com”, contra apenas dois entre esta e a do LTCM), todas apresentam em comum o facto de terem sido geradas a partir de expectativas generalizadas de grandes e rápidos ganhos.

Assim, uma lição que delas se pode extrair, sempre repetida e sempre esquecida, é a de que as árvores não crescem até ao céu…
___________
[1] Nome pelo qual ficou conhecido o dia 24 de Outubro de 1929, quando uma queda de 13% nas cotações das principais acções de Wall Street mergulharam a economia numa profunda crise.
[2] O mecanismo de “stop-loss” consiste num simples algoritmo de cálculo que gera automaticamente ordens de venda quando a cotação dos títulos atingir valores considerados demasiado baixos. Como a maioria dos principais operadores (e as grandes carteiras de títulos por eles geridas) se encontrava ligado informaticamente às bolsas os sistemas informáticos agiram como previsto: perante a queda das cotação “dispararam” as programadas ordens de venda; ora como há medida que aumentam as ofertas de venda aumenta a pressão sobre o preço este tendia a cair a velocidade crescente, gerando um número cada vez maior de ordens de venda.
[3] Designação que no mercado de capitais se dá quando existem agentes no mercado a actuar com base em informação privilegiada (por exemplo quando os agentes decisores de uma empresa que se prepara para adquirir outra usam essa informação em benefício próprio e adquirem acções da sua própria empresa) ou, pior ainda quando um número restrito de operadores actua em função de informações não disponibilizadas para o público em geral.
[4] Designação usada nos mercado de capitais para uma descida grande e inesperada do valor das acções que se traduz num impacto negativo na economia nacional e/ou mundial.
[5] Designação atribuída ao “crash” de 1987 por analogia com a de 1929.
[6] Na sua maioria tratava-se de fundos especulativos (hedge funds) que procuravam obter ganhos a partir dos curtos diferenciais entre as taxas de juro das dívidas públicas de diferentes países e do postulado que a longo prazo aqueles tenderiam para zero. Ficaram conhecidos como Long-Term Capital Market (LTCM)
[7] O NASDAQ (North American Securities Dealers Automated Quotation System) é uma Bolsa de valores electrónica, constituída por um conjunto de corretores conectados por um sistema informático. Esta bolsa lista mais de 3.000 acções de diferentes empresas (este número já superou 5.000 no ano de 2000), na sua maioria de pequena e média capitalização. Caracteriza-se por compreender as empresas de alta tecnologia em electrónica, informática, telecomunicações, biotecnologia, etc., e deve parte do seu sucesso inicial ao facto do processo de abertura de capital ser bem mais simples e barato que no NYSE (o mercado de capitais principal), razão pela qual empresas não muito grandes fazem o seu lançamento inicial de acções (IPO - initial public offering) no NASDAQ. Depois de uma profunda reestruturação em 2000, converteu-se numa empresa totalmente regida por accionistas, com acções próprias negociadas no NASDAQ. Actualmente é a maior bolsa de valores do planeta, em número de acções transaccionadas e em número de negócios. (adaptado de Wikipédia)
[8] A designação associa a actividade das empresas em questão com o surto de expansão da Internet e do facto de nesta as respectivas páginas serem designadas pelo nome da empresa, um ponto (dot) e a extensão «com».

sábado, 20 de outubro de 2007

OS DIAS NEGROS DE OUTUBRO - Parte I

Têm-se multiplicado desde meados de Agosto os artigos e as notícias a propósito da situação económica, com especial relevo para a crise originada pelo rebentar da bolha especulativa do imobiliário norte-americano, mantendo em aberto o debate sobre se esta crise é uma mera crise financeira e conjuntural ou a ponta do iceberg que será uma crise económica e estrutural. Distinguindo-se as duas por factores como a duração e a dimensão, economistas, analistas e especialistas dos mercados de capitais esgrimem argumentos enquanto as notícias da repercussão dos efeitos continuam a surgir com regularidade.

Entre intervenções dos bancos centrais, traduzidas em injecções de liquidez ou no corte das taxas directoras, notícias de bancos em notórias situações de falta de liquidez ou que decidiram unilateralmente encerrar fundos de investimento que geriam, tem surgido de tudo um pouco e com evidentes sinais de alastramento – se as primeiras notícias se referiam ao mercado norte-americano, rapidamente os efeitos se fizeram notar em bancos ingleses, franceses e... portugueses.
Apesar das regulares declarações dos responsáveis políticos, nacionais e estrangeiros, que procuram manter elevados os níveis de confiança, o facto é que as perspectivas estão longe de ser animadoras e nem os esforços das autoridades monetárias parecem suficientes para controlar a situação, embora a sua existência se justifique para essa função.

Isto tornar-se-á bem mais claro se recordarmos que a actual função de gestão das crises financeiras desempenhada pelos bancos centrais resultou precisamente de em finais do século XIX e em consequência da falência de um banco inglês se revelado evidente a necessidade de uma instituição que desempenhasse a função de emprestador de último recurso. No caso concreto, quando o banco que habitualmente fornecia liquidez ao conjunto da banca comercial, o Overend & Guerney, entrou em situação de falência arrastou consigo outros bancos que não encontraram alternativa de financiamento. Esta situação demonstrou a necessidade de uma estrutura que garantisse a liquidez no sistema financeiro e a sua aplicação prática em breve revelou toda a sua utilidade quando em 1890 o Banco Barings entrou em crise na sequência de investimentos ruinosos que realizara na Argentina. Graças à actuação do Banco de Inglaterra, que organizou com a restante banca um fundo de vários milhões de libras e cobriu os prejuízos do Barings garantindo o normal funcionamento de toda a banca, a situação foi ultrapassada sem significativas dificuldades.

Mas o que parecia ser uma história de sucesso foi brutalmente abalada em 1929 quando na sequência do Black Thursday (24 de Outubro de 1929) as quebras registadas em Wall Street mergulharam a economia numa profunda crise. A data que ficou assinalada em todos os manuais de história mais não representou que o pico de uma fase de acentuada especulação bolsista (lideradas pelos sectores da rádio e indústria automóvel as cotações caíram nesse dia 13%) que nem a intervenção do FED logrou debelar. De queda em queda e de falência em falência o mercado de Wall Street atingiu o seu mínimo três anos depois quando as cotações se situaram 90% abaixo dos valores de topo. A par com esta crise financeira, que paralisou completamente o sistema bancário, a economia americana registou entre 1929 e 1932 uma quebra de 50% e uma taxa de desemprego da ordem dos 30%.

Como se vê os efeitos na economia foram desastrosos atingindo todas as camadas da população. Segundo a opinião dos mais variados economistas a Grande Depressão, como ficou conhecida a época, talvez pudesse ter sido minimizada se o FED não tivesse adoptado uma medida tão desadequada como a da subida das taxas de juro. Mas foi essa a opção tomada no intuito de proteger o valor internacional do dólar e o seu padrão-ouro.

Apenas em 1933 com o lançamento de uma nova estratégia económica pela Casa Branca, que ficaria conhecida pelo New Deal, e o deflagrar da II Guerra Mundial é que a economia americana viria a recuperar. Para muitos observadores as medidas de apoio social introduzidas pelo New Deal – aumento dos gastos públicos como forma de compensação para a retracção do investimento privado - foram até contraproducentes, mas datam dessa época a criação de alguns mecanismos de controle e regulamentação sobre o mercado de capitais, tais como a SEC – Securities and Exchange Comission, e a banca em geral no sentido de minimizar novos movimentos especulativos.

Se é verdade que a crise seguinte demorou mais de meio século a produzir-se, as opiniões dividem-se sobre se tal se deveu à nova regulamentação ou principalmente ao efeito expansionista sobre a economia que teve o deflagrar da guerra em 1939 e o seu epílogo em 1945 com os EUA numa posição de hegemonia político-militar, de total controlo do comércio mundial e do sistema financeiro dele emergente.

Certo é que o mês de Outubro voltaria a ser marcante na história económica recente...

domingo, 14 de outubro de 2007

BCP ANULA DÍVIDA DE FILHO DE JARDIM GONÇALVES

Foi com este título que o semanário SOL deu à estampa a notícia de que o maior banco nacional pratica uma política de dois pesos e duas medidas.
Mais que uma questão de óbvio favorecimento e de evidente falta de ética, questiono-me sobre a forma como terá sido possível uma empresa, ou grupo de empresas, contratar créditos de quase 15 milhões de euros sem qualquer garantia!

Será esta a prática normal do BCP?

Não o creio, o que agrava ainda mais esta situação.

Considerando que estes factos só terão chegado ao conhecimento público em virtude da luta de poder no interior do BCP, quantos mais existirão naquele banco? E nos outros?

Os conselhos de administração estarão todos ao abrigo de críticas?

Não haverá mais situações de créditos que envolvam familiares de titulares dos órgãos que autorizaram as operações?

Quase todos os que anteciparem as respostas a estas perguntas não deixarão de formular uma outra: AINDA EXISTIRÁ ÉTICA NO SECTOR FINANCEIRO NACIONAL?

Numa época em que ouvimos falar em crise e em reduzido crescimento económico, em que assistimos ao regular crescimento dos lucros das empresas financeiras é indispensável que estas questões tenham resposta e de forma a eliminar todas as dúvidas!

sábado, 13 de outubro de 2007

13 DE OUTUBRO DE 1307

Cumprem-se exactamente hoje sete séculos sobre a data que marcou o fim da Ordem do Templo. Foi nesta data que por ordem do rei francês Filipe IV, o Belo, e do papa Clemente V grande número dos seus membros foi preso naquele país; por ter ocorrido numa sexta-feira é vulgarmente aceite como a origem da superstição associada às sextas-feiras 13 como um dia de azar.

Fundada em 1118, na cidade de Jerusalém, esta ordem de cavalaria de origem francesa[1] tinha por finalidade a defesa dos interesses e protecção dos peregrinos cristãos na Terra Santa, território que fora conquistado aos árabes no final do século XI por Godofredo de Bulhão, comandante da I Cruzada. Fosse pelo continuado contacto com as práticas comerciais árabes, fosse por efeito do grande volume de doações de terras na Europa, rapidamente os seus membros passaram de pobres cavaleiros (o nome original da ordem era Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão) ao estabelecimento de uma poderosa rede de comércio e de influências em todo o território da cristandade.

Esta situação não seria minimamente prejudicada pela reconquista árabe de Jerusalém, que ocorreria em 1187, num período em que Saladino[2] pontificava na região como líder muçulmano hegemónico e que poderá mesmo ter marcado um dos períodos de maior florescimento comercial e cultural da região.

Perdida a vertente religiosa da ordem esta multiplicaria o seu poder e influência numa Europa medieval dividida por querelas políticas e religiosas.

Muito se tem escrito e especulado sobre a Ordem dos Templários; desde as suas origens, envoltas em algum mistério, dos quais o menor é a total impraticabilidade de um grupo de nove cavaleiros poder assegurar a protecção dos milhares de peregrinos que cruzavam as inseguras rotas do Médio Oriente, até às especulações em torno dos possíveis achados nas escavações que realizaram nos alicerces do Templo de Salomão[3], até à sua extinção, decidida no Concílio de Viena de 1311-1312, os Templários cresceram em influência e poder[4] até se transformarem num corpo autónomo (por decisão do papa Inocêncio II os Templários eximiram-se a qualquer forma de autoridade espiritual ou temporal além da do papado) que através da acumulação de vastos domínios e da concessão de créditos a reis, nobres e prelados, associados à respectiva cobrança de juros, alcançaram um patamar de poder muito superior ao dos fracos estados medievais.

Muitas vezes apontados como os percursores do moderno sistema financeiro[5] os Templários foram seguramente uma enorme fonte de vitalidade e desenvolvimento numa época muito pouco propícia a semelhantes eventos. No século XIV, a Ordem teria alcançado tamanho poder que o rei de França e o papado, colocaram em prática uma estratégia para a esmagar e se apoderarem dos seus recursos; baseando-se em acusações de heresia, de adoração ao demónio, homossexualidade, desrespeito à cruz, sodomia e outros comportamentos de blasfémia conseguiram destruir a Ordem. Os resultados da estratégia foram ambivalentes, pois se o Papa viu reforçado o poder da Igreja Católica, já o rei de França que não se conseguiu apropriar das incontáveis riquezas atribuídas aos Templários, apenas se viu livre das dívidas que contraíra com a Ordem.

O seu líder na época, Jacques de Molay, seria executado, a Ordem dissolvida mas grande número dos seus membros escapou ao braço secular e procurou refúgio na Escócia e em Portugal, país onde aquela seria convertida numa nova ordem – a Ordem de Cristo – que esteve, no século seguinte, na origem do processo de expansão marítima. Analisando friamente os custos de planificação e desenvolvimento de um projecto da envergadura deste e comparando-os com as débeis capacidades da generalidade dos estados medievais e do português em particular, fácil se torna admitir a enorme probabilidade de ter sido este o destino de parte do tesouro templário[6] (sem esquecer a importância do conhecimento que possuíam das técnicas de navegação e de orientação), tanto mais que as próprias naus sempre ostentaram nas suas velas uma variação da cruz templária.

Correntemente aceite é o facto de os Templários, mergulhados numa semiclandestinidade, terem estado na origem de outras organizações, tais como a maçonaria[7] e outras correntes mais ou menos esotéricas, que marcaram o desenvolvimento do pensamento e da organização política e social da Europa nos séculos seguintes. Cultivadores da chamada história alternativa chamam a atenção para outros factos ligados às origens dos Templários, como a aparente ligação pouco natural[8] entre os cavaleiros fundadores e aquele que é tido como o principal ideólogo da ordem (o monge beneditino Bernardo de Claraval), a possível existência de uma superestrutura secreta e o total distanciamento da ordem no desenrolar da Cruzada contra os Albigenses[9]. No seu conjunto estes factos poderão explicar acontecimentos tão estranhos como a aparente facilidade com que foi posto termo à actividade dos templários e a coincidência do desaparecimento do famigerado tesouro (de palpável o Filipe IV encontrou poucos ou nenhuns valores); para alguns investigadores este é um claro indício da existência de uma estrutura paralela que facilitou (se não fomentou) o “desaparecimento” dos cavaleiros e do seu “tesouro”.

Ao longo dos tempos muitas especulações têm sido elaboradas em torno de todas estas conjecturas, fazendo com que a os templários surjam associados a inúmeras situações e lendas; desde a famosa Demanda do Graal[10] (um dos objectos cuja descoberta nos alicerces do Templo de Salomão lhes é atribuída), às origens de movimentos secretos, místicos e esotéricos como a Maçonaria e a Ordem da Rosacruz[11], que, mesmo quando aparentemente distantes, por vezes evidenciam pontos de contacto[12]. O fascínio mantém-se tão actual que nos dias de hoje ainda persistem organizações que se reivindicam templárias.

Se após a extinção dos Templários têm corrido rios de tinta a propósito do muito que rodeou (e rodeia) aquela organização que de venerados e pobres cavaleiros religiosos passaram a poderosos detentores de efectivo poder financeiro (a crença popular atribui-lhes riquezas provavelmente exageradas pela imaginação), muito campo existirá ainda para investigação – facto que tem determinado a forte especulação que continua a rodear a sua existência e o seu legado – que não deixará de continuar a atiçar a curiosidade de investigadores, historiadores e até simples especuladores que ultimamente têm explorado a vertente literária do mito.
______________
[1] Os fundadores, entre os quais Hugo de Payens e Geoffroy de Saint-Omer, eram em número de nove e todos de origem francesa, tal como o seu principal ideólogo (e grande responsável pelo reconhecimento papal da ordem) que foi São Bernardo de Claraval.
[2] Saladino, nome original Salah al-Din Yusuf bin Aiub, foi o sultão do Egipto, Síria e Palestina e o chefe militar que liderou os muçulmanos contra os cristãos durante as últimas cruzadas, acabando por reconquistar os territórios perdidos pelo Islão, e tendo-se tornado uma lenda tanto entre os muçulmanos como no ocidente. De origem curda, distinguiu-se em campanhas no Egipto, onde chegou a ser nomeado vizir e aproveitou um período conturbado de sucessão para unificar o país, a Síria e a Mesopotâmia, tornando-se um poderoso dirigente. Encorajou o seu povo a encarar a luta contra a cristandade como uma guerra santa (jihad); distinguiu-se com a reconquista de Jerusalém, em 1187, e posteriormente com as derrotas militares que impôs à III Cruzada (comandada por Ricardo Coração de Leão). Além de génio militar, fundou colégios para o ensino da religião islâmica, foi um protector da cultura islâmica e um excelente administrador dos seus domínios, contando-se entre as suas obras a reconstrução da mesquita de Al-Aqsa, na cidade de Jerusalém, e a construção da cidadela do Cairo.
[3] Originariamente a Ordem ficou sediada no que restaria do Templo de Salomão (daí a designação de Ordem do Templo) e os seus membros ter-se-ão dedicado as escavações no local. Várias lendas sobre o tema mencionam a descoberta das mais extraordinárias relíquias de natureza religiosa, chegando mesmo a incluir-se entre estas o próprio Cálice do Graal, que terão sido responsáveis pelo crescente poder espiritual e económico da Ordem. Mais prosaicamente é bem possível que os templários tenham trazido como principal riqueza da Terra Santa o conhecimento, adquirido em contacto com os árabes (recorde-se que na época esta constituía a civilização tecnicamente mais avançada, repositório do conhecimento grego e grande responsável pelo desenvolvimento de ciências como a Matemática e a Medicina), e as práticas comerciais.
[4] Este crescimento e conversão em potentado económico não foi exclusivo dos Templários, uma vez que a Ordem dos Cavaleiros Teutónicos, também ela fundada no século XII no Médio Oriente, se viria a radicar no Báltico, após a queda de Jerusalém sob o domínio de Saladino em 1187, e a controlar um vasto império comercial onde predominava o comércio do âmbar.
[5] É inegável que os Templários terão sido os precursores do cheque (e do certificado de depósito) quando na sua época criaram um mecanismo que evitava os riscos de transporte de riquezas; na prática qualquer viajante poderia depositar determinada quantia numa fortaleza templária recebendo um documento cifrado que poderia ser descontado em qualquer outra fortaleza, pagando-se uma percentagem por tais serviços.
[6] Importa voltar aqui a referir a possível dualidade do chamado tesouro templário. Sem esquecer a componente material, a Ordem foi detentora de grande domínios numa época em que a posse da terra era efectiva fonte de riqueza, é igualmente conhecido o facto desta ter revelado a capacidade e habilidade para usar muito do conhecimento técnico que os árabes preservaram e desenvolveram; no caso concreto das artes de marear estes foram importante veículo de preservação e transmissão do conhecimento mediterrânico (grego, fenício, latino, etc.), nomeadamente de técnicas e instrumentos como o astrolábio, cuja criação é atribuída ao astrónomo grego Hiparco, e o quadrante.
[7] Associação de carácter universal, cujos membros, homens livres e de bons costumes, cultivam a justiça social, os princípios da liberdade, democracia e igualdade, o aperfeiçoamento intelectual e a fraternidade. Os Maçons, também designados por pedreiros-livres, estruturam-se em células autónomas e organizam-se em oficinas ou lojas. Trata-se de uma obediência iniciática, filosófica, filantrópica e educativa. (adaptado de Wikipédia)
[8] Esta observação resulta da aparente contradição entre uma ordem religiosa monástica, como a beneditina, muito mais orientada para a reflexão e a protecção do conhecimento e uma organização militar, mesmo quando esta apresenta fortes raízes religiosas.
[9] Nome por que ficou conhecida a cruzada lançada em 1209 pelo Papa Inocêncio III contra os Cátaros. Prolongou-se até 1229 e destinou-se a erradicar a heresia – o nome cátaro deriva do grego katharós que significa puro, foi mais trade atribuído à corrente religiosa que defendia um regresso às primitivas práticas cristãs e que se eximia da autoridade papal – que conheceu particular expansão na região então designada por Occitânia, composta pelo actual sul de França (Midi) e por grande parte da actual Catalunha; foi igualmente utilizada pelo reino de França para aniquilar a resistência dos senhores feudais locais à sua expansão em direcção ao sul e ao Mediterrâneo. Após o fim dos combates, a Inquisição, criada em 1231 pelo Papa Gregório IX, e sob a direcção dos dominicanos irá acabar definitivamente com o movimento. (adaptado de Wikipédia)
[10] Também designado Santo Graal ou Santo Gral é uma expressão medieval que designa normalmente o cálice usado por Jesus Cristo na Última Ceia. Ele está presente nas Lendas Arturianas, sendo o objectivo da busca dos Cavaleiros da Távola Redonda, único objecto com capacidade para devolver a paz ao reino de Artur. No entanto, em outra interpretação, ele designa a descendência de Jesus segundo a lenda, ligada à dinastia Merovíngia. Noutra interpretação, defendida por investigadores como Michael Baigent, Richard Leigh, Henry Lincoln, Lynn Picknet e Clive Prince, o Santo Graal significaria Sangreal ou seja Sangue Real, partindo da especulação em torno de uma possível descendência de Jesus Cristo – a linhagem sagrada. Finalmente, também há uma interpretação em que ele é a representação do corpo de Maria Madalena, a suposta esposa de Jesus e sua herdeira na condução da nova religião. Esta última ideia foi explorada recentemente pelo livro "O Código Da Vinci", de Dan Brown. (adaptado de Wikipédia)
[11] É uma Ordem que foi pela primeira vez publicamente conhecida no século XVII através de três manifestos e insere-se na tradição esotérica ocidental. Esta Ordem hermética é vista por muitos Rosacrucionistas antigos e modernos como um "Colégio de Invisíveis" nos mundos internos, formado por grandes Adeptos, com o intuito de prestar auxílio à evolução espiritual da humanidade. Por um lado, alguns metafísicos consideram que a Ordem Rosacruz pode ser compreendida, de um ponto de vista mais amplo, como parte, ou inclusive a fonte, da corrente de pensamento hermético-cristã patente no período dos tratados ocidentais de alquimia que se segue à publicação de A Divina Comédia de Dante (1308-1321). Por outro lado, alguns historiadores sugerem a sua origem num grupo de protestantes alemães, cujos textos datados do início do século XVII conduziram pela sua influência a historiadora Frances Yates a denominar aquele período como o período do Iluminismo Rosacruz. (adaptado de Wkipédia)
[12] Exemplo disto é o facto de surgirem referências cruzadas, como a existência do Grau de príncipe Rosa–Cruz (o 18º Grau do "Rito Escocês Antigo e Aceite") da corrente maçónica de origem escocesa e desta ter sido precisamente uma das regiões que abrigaram muitos dos templários que no século XIV fugiram à perseguição de que foram alvo.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

CHE GUEVARA

Simpatize-se, ou não, com as causas que abraçou e os métodos que usou ninguém pode hoje negar que volvidos quarenta anos sobre o seu assassinato (de que outra forma se pode designar a morte sem julgamento ou condenação de um prisioneiro) Che Guevara entrou para o imaginário colectivo a um título muito superior ao que se poderia esperar.

Assim é hoje inegável o seu papel na história mundial e na da América Latina em particular. Pleno de energia e incapaz de se acomodar a qualquer situação, percorreu das mais variadas formas o continente que o viu nascer e por ele deu tudo o que tinha.

Aplicou até à última hora os princípios que enunciou: «Não quero nunca renunciar à liberdade deliciosa de me enganar» e «[p]or mais rosas que os poderosos matem nunca conseguirão deter a primavera».

Que melhor forma, para celebrar um poeta dos ideais que um poema do seu compatriota Júlio Cortázar:

Che

Eu tive um irmão
não nos vimos nunca
mas não importava.

Eu tive um irmão
que andava na selva
enquanto eu dormia.

Amei-o ao meu modo,
tomei-lhe a voz
livre como a água,
caminhei às vezes
perto da sua sombra
meu irmão desperto
enquanto eu dormia.

Meu irmão mostrando-me
por detrás da noite
a sua estrela eleita.

domingo, 7 de outubro de 2007

UM DIÁRIO SEMPRE ACTUAL

Cumpre-se hoje um ano que ocorreu o assassinato da jornalista Anna Politkovskaya. Personalidade profundamente envolvida na vida política russa, declarada oponente do presidente Putin e convicta crítica da guerra na Chechénia, Anna Politkovskaya foi mais uma das vozes jornalísticas silenciadas na Rússia.

A tese oficial do governo de Putin é a de que o assassinato foi organizado por interesses exteriores (chechenos e de oposicionistas russos), argumentação que se baseará no facto da jornalista ter sido uma forte crítica do conflito na Chechénia e de em várias ocasiões ter denunciado muitas das práticas de violação dos direitos humanos que rodeiam aquele conflito.

Independentemente das verdadeiras motivações que possam ter sustentado aquele acto e do inegável facto que Putin não constitui um paladino da democracia nem da liberdade de expressão, o mais importante é recordar que esta prática de silenciamento das vozes mais incómodas não constitui exclusivo de Putin nem da Rússia que governa. Um pouco por todo o mundo o poder continua a julgar-se no direito de silenciar os seus opositores e ainda mais quando aquele não resulta de nenhum processo de exercício mais ou menos democrático.

Se em alguns países, como é exemplo recente Myanmar onde entre as primeiras vítimas mortais dos recentes confrontos se contam dois repórteres fotográficos, a eliminação física de jornalistas ainda é encarada como uma forma simples de limitar o direito à informação (e à indignação), também importa recordar outros acontecimentos, como os que rodearam a morte de jornalistas que cobriam a invasão do Iraque, transformados em alvos pelo simples facto de não estarem a relatar o ponto de vista do invasor.

Esta data não deveria servir apenas para o lançamento de um novo livro da jornalista - Um Diário Russo – no qual esta relata as suas opiniões e convicções relativamente ao governo de Putin, mas também como fonte de reflexão sobre o que todos nós pretendemos que seja o papel da imprensa (e dos seus profissionais) nas sociedades e economias cada vez mais desumanizadas e devastadas por guerras e outras práticas predatórias.