sábado, 20 de outubro de 2007

OS DIAS NEGROS DE OUTUBRO - Parte I

Têm-se multiplicado desde meados de Agosto os artigos e as notícias a propósito da situação económica, com especial relevo para a crise originada pelo rebentar da bolha especulativa do imobiliário norte-americano, mantendo em aberto o debate sobre se esta crise é uma mera crise financeira e conjuntural ou a ponta do iceberg que será uma crise económica e estrutural. Distinguindo-se as duas por factores como a duração e a dimensão, economistas, analistas e especialistas dos mercados de capitais esgrimem argumentos enquanto as notícias da repercussão dos efeitos continuam a surgir com regularidade.

Entre intervenções dos bancos centrais, traduzidas em injecções de liquidez ou no corte das taxas directoras, notícias de bancos em notórias situações de falta de liquidez ou que decidiram unilateralmente encerrar fundos de investimento que geriam, tem surgido de tudo um pouco e com evidentes sinais de alastramento – se as primeiras notícias se referiam ao mercado norte-americano, rapidamente os efeitos se fizeram notar em bancos ingleses, franceses e... portugueses.
Apesar das regulares declarações dos responsáveis políticos, nacionais e estrangeiros, que procuram manter elevados os níveis de confiança, o facto é que as perspectivas estão longe de ser animadoras e nem os esforços das autoridades monetárias parecem suficientes para controlar a situação, embora a sua existência se justifique para essa função.

Isto tornar-se-á bem mais claro se recordarmos que a actual função de gestão das crises financeiras desempenhada pelos bancos centrais resultou precisamente de em finais do século XIX e em consequência da falência de um banco inglês se revelado evidente a necessidade de uma instituição que desempenhasse a função de emprestador de último recurso. No caso concreto, quando o banco que habitualmente fornecia liquidez ao conjunto da banca comercial, o Overend & Guerney, entrou em situação de falência arrastou consigo outros bancos que não encontraram alternativa de financiamento. Esta situação demonstrou a necessidade de uma estrutura que garantisse a liquidez no sistema financeiro e a sua aplicação prática em breve revelou toda a sua utilidade quando em 1890 o Banco Barings entrou em crise na sequência de investimentos ruinosos que realizara na Argentina. Graças à actuação do Banco de Inglaterra, que organizou com a restante banca um fundo de vários milhões de libras e cobriu os prejuízos do Barings garantindo o normal funcionamento de toda a banca, a situação foi ultrapassada sem significativas dificuldades.

Mas o que parecia ser uma história de sucesso foi brutalmente abalada em 1929 quando na sequência do Black Thursday (24 de Outubro de 1929) as quebras registadas em Wall Street mergulharam a economia numa profunda crise. A data que ficou assinalada em todos os manuais de história mais não representou que o pico de uma fase de acentuada especulação bolsista (lideradas pelos sectores da rádio e indústria automóvel as cotações caíram nesse dia 13%) que nem a intervenção do FED logrou debelar. De queda em queda e de falência em falência o mercado de Wall Street atingiu o seu mínimo três anos depois quando as cotações se situaram 90% abaixo dos valores de topo. A par com esta crise financeira, que paralisou completamente o sistema bancário, a economia americana registou entre 1929 e 1932 uma quebra de 50% e uma taxa de desemprego da ordem dos 30%.

Como se vê os efeitos na economia foram desastrosos atingindo todas as camadas da população. Segundo a opinião dos mais variados economistas a Grande Depressão, como ficou conhecida a época, talvez pudesse ter sido minimizada se o FED não tivesse adoptado uma medida tão desadequada como a da subida das taxas de juro. Mas foi essa a opção tomada no intuito de proteger o valor internacional do dólar e o seu padrão-ouro.

Apenas em 1933 com o lançamento de uma nova estratégia económica pela Casa Branca, que ficaria conhecida pelo New Deal, e o deflagrar da II Guerra Mundial é que a economia americana viria a recuperar. Para muitos observadores as medidas de apoio social introduzidas pelo New Deal – aumento dos gastos públicos como forma de compensação para a retracção do investimento privado - foram até contraproducentes, mas datam dessa época a criação de alguns mecanismos de controle e regulamentação sobre o mercado de capitais, tais como a SEC – Securities and Exchange Comission, e a banca em geral no sentido de minimizar novos movimentos especulativos.

Se é verdade que a crise seguinte demorou mais de meio século a produzir-se, as opiniões dividem-se sobre se tal se deveu à nova regulamentação ou principalmente ao efeito expansionista sobre a economia que teve o deflagrar da guerra em 1939 e o seu epílogo em 1945 com os EUA numa posição de hegemonia político-militar, de total controlo do comércio mundial e do sistema financeiro dele emergente.

Certo é que o mês de Outubro voltaria a ser marcante na história económica recente...

1 comentário:

antonio disse...

Realmente nós temos ou muita sorte ou o timoneiro certo! Conseguimos os 3% e o tratado europeu e o mundo todo à nossa volta a desmoronar-se! Porreiro, pá...