domingo, 21 de outubro de 2007

OS DIAS NEGROS DE OUTUBRO - Parte II

Quase sessenta anos volvidos sobre a data da Black Thursday[1] e três grandes conflitos armados depois (II Guerra Mundial e as Guerras da Coreia e Vietname), o mês de Outubro voltou a revelar-se aziago para os mercados de capitais, quando no dia 19 de Outubro de 1987 o índice Dow Jones caía 22%, tendência que alastrou aos mercados inglês e japonês há velocidade da luz.

Literalmente, pois na época as principais bolsas mundiais, Nova Iorque, Londres e Tóquio já se encontravam completamente informatizadas, facto que aliás viria a ser utilizado para explicar a dimensão da crise, uma vez que a maioria dos operadores dispunham da recente inovação que constituía o mecanismo automático de “stop-loss”[2].

Mas o que originou esta situação?

Contrariamente ao clima económico que se vivia em 1929, momento em que já se faziam sentir os sinais de uma crise económica, nomeadamente uma retracção no consumo interno norte-americano por via do agravamento das taxas sobre os produtos comerciais, em 1987 a economia dos EUA apenas apresentava os primeiros sinais de abrandamento. Dois anos antes a actuação das autoridades monetárias tinha-se revelado eficaz a debelar as falências das empresas hipotecárias que, aproveitando a ausência de regulamentação eficaz, se tinham envolvido num processo de concorrência directa com os bancos tradicionais, mas o mercado de capitais debatia-se agora com uma crise de confiança originada pela ideia generalizada de que as cotações estariam inflacionadas por práticas de “inside trading”[3] e que os processos de aquisições entre empresas se encontrariam sustentados por crédito bancário e não numa efectiva criação de valor por parte das empresas compradoras.

Para agravar tudo isto a confiança no dólar estava em queda e pior ficou quando a Alemanha decidiu subir as suas taxas directoras, aumentando ainda mais o valor do marco contra o dólar. A reacção do FED, baixando a taxa de juro ajudou a recuperar os níveis de confiança e a sustentar o aumento da procura interna nos EUA., mas esta crise que demonstrou o elevado grau de interligação entre as economias e a importância dos efeitos conjugados das políticas monetárias dos diferentes países teve também um aspecto positivo que foi o do endurecimento das regras para o combate ao “inside trading”.

Se nos mercados mais desenvolvidos o “crash”[4] de 1987 aparentou uma duração limitada, já nos mercados periféricos, como o português, o seu efeito foi bastante mais prolongado.

O crescimento da economia americana, sustentado por um clima geopolítico favorável, permitiu que entre a Black Thursday e a Black Monday[5] mediasse mais de meio século, mas o crescimento das trocas comerciais e o desenvolvimento do mercado de capitais terá tido forte influência na redução desse prazo. Apenas onze anos foram necessários para que novamente a economia mundial voltasse a sentir os efeitos de nova crise.

Desta vez pelas suas características eminentemente financeiras a crise que ocorreu em 1989, teve início em 1997 na Ásia, alastrou no ano seguinte à Rússia e ao Brasil e conheceu o seu pico em 1989 com o colapso de um fundo de longo prazo[6]. Iniciada por razões de natureza económica alastrou aos mercados de capitais e conheceu maior amplitude por se ter revelado particularmente adversa a uma teoria então dominante e que esteve na sua origem. Apresentada por dois premiados com o Nobel da Economia - Myron Scholes and Robert Merton postulava que a longo prazo haveria uma convergência nas taxas das obrigações dos diferentes países e provocou uma verdadeira corrida aos fundos que especulassem nas diferenças registadas entre as diferentes taxas.

O pior foi quando em 1998 a Rússia suspendeu o pagamento dos juros da sua dívida, originando um movimento de rejeição da generalidade das obrigações públicas que teve como contrapartida uma corrida às obrigações do tesouro americano (US Treasury Bonds) e originou uma subida no diferencial entre aquelas taxas. O LTCM que tinha recorrido ao crédito para construir as suas carteiras segundo os pressupostos da convergência das taxas, via-se a braços com sérias dificuldades de liquidez e contribui em muito para ampliar o efeito de choque; afim de minimizar os efeitos negativos sobre o mercado de capitais o FED liderou a formação de um sindicato bancário para socorrer o fundo e mais de3,5 mil milhões de dólares foram nele injectados até à sua liquidação em 2000.

Ainda mal refeitos dos efeitos da falência do LTCM, logo em 2000 o mercado de capitais voltou a conhecer uma nova corrida e um novo “crash”. Desta feita o estranho objecto de desejo foram as acções de um mercado recentemente criado, o NASDAQ[7] e cujas empresas listadas ficaram na gíria como as “dot com”[8], independentemente da reduzida dimensão das empresas e dos reduzidos ou nulos lucros que geravam na sus actividade económica. A bolha rapidamente rebentou e em finais de Outubro de 2000 o índice NASDAQ tinha caído quase 80%.

Tal como em situações anteriores o efeito deste “crash” também se fez sentir na economia norte-americana, com uma quebra no investimento e o abrandamento do crescimento económico, situação que seria ainda ampliada com o 11 de Setembro de 2001. Tal como no passado o FED voltou a recorrer à receita do corte nas taxas de juro visando a dinamização da economia.

Embora a actual crise, originada na falência do mercado “subprime” norte-americano possa parecer diferente das anteriores e não respeite a tendência para a redução dos ciclos de ocorrência (sempre mediaram sete anos desde a crise das “dot com”, contra apenas dois entre esta e a do LTCM), todas apresentam em comum o facto de terem sido geradas a partir de expectativas generalizadas de grandes e rápidos ganhos.

Assim, uma lição que delas se pode extrair, sempre repetida e sempre esquecida, é a de que as árvores não crescem até ao céu…
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[1] Nome pelo qual ficou conhecido o dia 24 de Outubro de 1929, quando uma queda de 13% nas cotações das principais acções de Wall Street mergulharam a economia numa profunda crise.
[2] O mecanismo de “stop-loss” consiste num simples algoritmo de cálculo que gera automaticamente ordens de venda quando a cotação dos títulos atingir valores considerados demasiado baixos. Como a maioria dos principais operadores (e as grandes carteiras de títulos por eles geridas) se encontrava ligado informaticamente às bolsas os sistemas informáticos agiram como previsto: perante a queda das cotação “dispararam” as programadas ordens de venda; ora como há medida que aumentam as ofertas de venda aumenta a pressão sobre o preço este tendia a cair a velocidade crescente, gerando um número cada vez maior de ordens de venda.
[3] Designação que no mercado de capitais se dá quando existem agentes no mercado a actuar com base em informação privilegiada (por exemplo quando os agentes decisores de uma empresa que se prepara para adquirir outra usam essa informação em benefício próprio e adquirem acções da sua própria empresa) ou, pior ainda quando um número restrito de operadores actua em função de informações não disponibilizadas para o público em geral.
[4] Designação usada nos mercado de capitais para uma descida grande e inesperada do valor das acções que se traduz num impacto negativo na economia nacional e/ou mundial.
[5] Designação atribuída ao “crash” de 1987 por analogia com a de 1929.
[6] Na sua maioria tratava-se de fundos especulativos (hedge funds) que procuravam obter ganhos a partir dos curtos diferenciais entre as taxas de juro das dívidas públicas de diferentes países e do postulado que a longo prazo aqueles tenderiam para zero. Ficaram conhecidos como Long-Term Capital Market (LTCM)
[7] O NASDAQ (North American Securities Dealers Automated Quotation System) é uma Bolsa de valores electrónica, constituída por um conjunto de corretores conectados por um sistema informático. Esta bolsa lista mais de 3.000 acções de diferentes empresas (este número já superou 5.000 no ano de 2000), na sua maioria de pequena e média capitalização. Caracteriza-se por compreender as empresas de alta tecnologia em electrónica, informática, telecomunicações, biotecnologia, etc., e deve parte do seu sucesso inicial ao facto do processo de abertura de capital ser bem mais simples e barato que no NYSE (o mercado de capitais principal), razão pela qual empresas não muito grandes fazem o seu lançamento inicial de acções (IPO - initial public offering) no NASDAQ. Depois de uma profunda reestruturação em 2000, converteu-se numa empresa totalmente regida por accionistas, com acções próprias negociadas no NASDAQ. Actualmente é a maior bolsa de valores do planeta, em número de acções transaccionadas e em número de negócios. (adaptado de Wikipédia)
[8] A designação associa a actividade das empresas em questão com o surto de expansão da Internet e do facto de nesta as respectivas páginas serem designadas pelo nome da empresa, um ponto (dot) e a extensão «com».

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