sábado, 10 de dezembro de 2011

A CENOURA E O CACETE


Os inefáveis Merkel e Sarkozy apresentaram-se na última cimeira europeia com uma solução que pré-cozinharam uns dias antes.Vazia de ideias novas, a proposta alemã (porque é disso que na realidade se trata, pois a presença de Sarkozy constitui apenas uma desesperada colagem para tentar a reeleição) foi muito bem caracterizada por José Manuel Pureza no seu mais recente artigo no DN, como a «…disciplina prussiana ao serviço do fundamentalismo calvinista».

Esta proposta para solucionar a crise da dívida europeia não passa duma versão actualizada da velha estratégia da “cenoura ou o cacete”, com a diferença que no caso vertente não existe “cenoura” (continua por explicar como serão reunidos os biliões de euros indispensáveis para acorrer a todas as situações possíveis de resgate) e estou bem em crer que na realidade ninguém acredita muito no “cacete”.


Só isso (ou pior, o absoluto desconhecimento do seu conteúdo e das respectivas implicações) é que pode justificar a forma apressada como os chefes de governo europeus aceitaram o que não constitui mais que um processo de ingerência, pois a simples aplicação de medidas ou princípios de controlo orçamental não assegura uma resolução efectiva dum problema que é o da falta de credibilidade política da moeda e das dívidas da Zona Euro, problema que só a existência dum banco central que emita moeda em função das necessidades dos Estados pode resolver com eficácia.

Se dúvidas ainda pudessem existir, o actual presidente do BCE, o italiano Mario Draghi, desfê-las na véspera quando, como escreveu o PUBLICO, excluiu «…um reforço da compra de dívida pública e um empréstimo de dinheiro ao FMI para que este financie os países da zona euro», assim assegurando a continuação duma política de clara privilégio do sector financeiro em detrimento dos estados, que deixou bem clara quando anunciou novas medidas para ajudar os bancos através de «empréstimos ilimitados a 3 anos, redução das exigências de rating nos colaterais e aceitação de empréstimos como garantias pelos bancos centrais nacionais…»[1], que levou até o NEGÓCIOS a descrever a situação de forma extremamente clara: «Bancos aliviados, Estados pressionados».

Da conjugação da ortodoxia alemã sobre as virtualidades de medidas como a da imposição do orçamento-zero, que ao ser designada por “regra de ouro” transmite uma subliminar relação com conceitos religiosos, com a rigidez instrumental dum banco central que limitado a servir os interesses do sector financeiro despreza a defesa e protecção da unidade monetária que constitui a razão da sua existência, pouco se pode esperar num contexto económico recessivo como aquele que vive a UE.

Desprovida da “cenoura”, que poderia traduzir-se nem que fosse apenas na flexibilização da intervenção do BCE na defesa do Euro, a proposta da chanceler Merkel arrisca-se ainda a que ninguém reconheça o “cacete”, pois não faltará quem na primeira oportunidade lhe lembre que nos actuais tratados europeus já existem regras claras sobre os limites do défice e do endividamento e que foi a própria Alemanha um dos primeiros estados a desrespeitá-los quando tal lhe conveio para atenuar os efeitos do processo de integração da ex-Alemanha de Leste.


[1] A citação foi retirada desta notícia do PUBLICO.

1 comentário:

O sofrologista católico disse...

Existem duas formas de destruir a misericórdia: eliminando o pecado e eliminando o perdão. Estas são precisamente as duas atitudes mais comuns nos dias que correm. Numa enorme quantidade de situações não se vê nada de mal. Naquelas em que se vê, não há desculpa possível. As acções do próximo ou são indiferentes ou intoleráveis. O que nunca são é censuradas e perdoadas. O que nunca se faz é combinar o repúdio do pecado com a compaixão pelo pecador.