O título poderia sugerir uma reflexão sobre a obra homónima ou o seu autor – Eça de Queirós – mas prosaicamente devo confessar que surgiu ao ler as notícias sobre o actual surto grevista em França.

Seis meses volvidos sobre a tomada de posse de Nicolas Sarkozy como Presidente da República eis que surge a primeira verdadeira prova de força entre o novo poder e os sindicatos com a questão do alargamento da idade da reforma a assumir o papel de leit motiv da contestação, a qual deverá agravar-se quando no dia 20 a função pública e os professores entrarem também em greve. Nada disto constitui novidade para ambas as partes (os sindicatos franceses são há muito conhecidos pelas suas manifestações de força e Sarkozy já desempenhara as funções de ministro do interior no governo de Dominique de Villepin) salvo o facto da principal reivindicação agora apresentada constituir um dos temas mais escaldantes por essa Europa fora.
Bom, por toda a Europa não! Existe um pequeno rectangulo onde os governantes ainda conseguem introduzir alterações daquele tipo sem dificuldades de maior; apesar de algumas vozes de protesto e uma ou outra crítica mais feroz, o governo de José Sócrtaes conseguiu fazer em Portugal o que Sarkozy está agora a tentar.
Há semelhança da dicotomia que Eça de Queirós estabeleceu entre a França e o Portugal dos finais do século XIX, também agora se manifesta uma evidente diferenciação entre uma classe trabalhadora que resiste a mudanças gravosas no regime de previdência e segurança social e outra que pacificamente aceitou mudanças de idêntico calibre.
Bom, para um observador mais atento talvez a aceitação não tenha sido assim tão pacífica...
O que na realidade marca a diferença entre os que resistem e os outros é que no caso nacional grande número dos visados com as novas medidas estarão a adaptar-se ao novo modelo! Como?
Simples, recorrendo à proverbial capacidade de adaptação que os lusos manuais de história costumam louvar. Mesmo que de forma inconsciente uns, consciente outros, o que estará a acontecer é que os trabalhadores tenderão a ajustar o seu esforço a um período de tempo de trabalho mais dilatado.
Com a inteligente solução de aumentar a vida útil de trabalho como forma de ultrapassar a imprevidência (quando não a pura desonestidade) com que têm sido geridos os fundos que supostamente deveriam gerar os rendimentos necessários ao pagamento das reformas futuras[2], o que os modernos governos liberais e neoliberais, que campeiam por esse mundo fora, vão alcançar é uma muito provável redução da sua sacrossanta produtividade.
A confirmar-se esta hipótese, as gerações mais jovens devem ir-se preparando para sucessivos alargamentos do período de vida útil (caminha-se a passos largos para um círculo vicioso onde no limite será proibido a qualquer trabalhador morrer antes de tempo[3]) e a uma muito provável recuperação de antigas práticas utilizadas nos tempos da escravatura para assegurar a produção mínima – a aplicação de castigos físicos aos mais “preguiçosos”...
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[1] Atrás dos EUA, Japão, Alemanha, China e Grã-Bretanha.
[2] Sobre esta questão ler os seguintes posts sobre o assunto: A PROPÓSITO DA FALÊNCIA DA SEGURANÇA SOCIAL, AS MENTIRAS DA FALÊNCIA DA SEGURANÇA SOCIAL e O MODELO FUTURO PARA A SEGURANÇA SOCIAL.
[3] Os governantes mais espertos, cientes da ineficácia de uma medida de mera proibição, introduzirão, no mínimo, a obrigação legal dos herdeiros pagarem os descontos a que o defunto se tenha eximido por ter morrido antes de atingido o número máximo de anos de descontos.
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