sexta-feira, 27 de junho de 2014

VONTADE PRÓPRIA

Os desenvolvimentos na situação interna do Iraque, onde as forças “jihadistas” do ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) parecem capazes de manter a pressão militar sobre o regime de Bagdad, continuam a centrar as atenções de vários quadrantes.

No Ocidente continuam as movimentações diplomáticas, confirmadas pela notícia de que o secretário de estado John «Kerry chega a Bagdad para analisar crise no Iraque», enquanto se mantêm em aberto a hipótese de ver regressar os bombardeamentos norte-americanos à região. Depois de Bagdad esteve «Kerry na região curda para discutir crise no Iraque», mas a única reacção conhecida continua a ser a de que, o primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-«Maliki rejeita governo de unidade nacional para travar ISIS».

A estratégia de aparente desinteresse curdo deve resultar da conjugação de factores como a impopularidade do xiita Nouri al-Maliki e da sua política sectária, a par com a opção táctica de aguardar para avaliar quem sairá vencedor do braço de ferro entre sunitas e xiitas; o enfraquecimento do poder em Bagdad e uma eventual fragmentação do Iraque parece a opção que melhor servirá a sua ancestral aspiração ao reconhecimento do direito à formação do estado curdo, preferível ao seu envolvimento directo em prol dum ou doutro dos opositores.

Já para Teerão e Damasco (cujo regime alauita de Bashar al-Assad é um velho aliado dos xiitas) a ascensão sunita e em especial a hipotética formação dum estado islâmico em parte do seu território, é algo tão difícil de aceitar quanto a dum estado curdo, apreciação que partilham com uma Turquia que continua a braços com as tendências independentistas do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) curdo.

Esta intrincada teia de interesses e a frágil estrutura governativa deixada pelos americanos no Iraque, que já levou a declarações onde «Nouri al-Maliki culpa "atraso" dos EUA pelos avanços do ISIS», explica a facilidade como que esta organização tem logrado ocupar ponto estratégico após ponto estratégico no território que reivindica. Outras razões têm sido aduzidas para aquele sucesso, entre as quais avulta a facilidade com que os radicais dos ISIS beneficiaram do armamento e demais material logístico disponibilizado aos opositores de al-Assad sem qualquer garantia sobre a idoneidade e efectivo destino, facto que motivou já escaramuças entre os grupos de opositores das diferentes origens e orientações.

Encontrando na corrente wahhabita (movimento muçulmano ultra-conservador originado na Arábia Central em meados do século XVIII e fundado por Muhammad bin Abd al Wahhab, continua a ter uma forte influência na actualidade política e cultural na Arábia Saudita, no Kuwait e no Qatar) a sua principal inspiração e na facilidade de recrutamento (ver a propósito o artigo de Bernardo Pires de Lima «‘JIHAD’ 3.0») a sustentação para a implantação dum califado islâmico, incluindo a aplicação da “sharia” (lei religiosa islâmica), em territórios maioritariamente ocupados por sunitas, está a ser objectivamente combatida no Iraque e na Síria (o ISIS é uma das várias organizações que se opõe militarmente ao regime de Bashar al-Assad), não beneficia do apoio ocidental e começará mesmo a inquietar as conservadoras monarquias árabes (reconhecidas financiadoras dos movimentos sunitas radicais) a ponto de recordar a situação em que a criatura ultrapassa o criador.


Para entender esta situação, recorde-se que a origem do ISIS deriva do ISI (movimento formado após a invasão americana do Iraque que integrava sunitas a par de “jihadistas” de diferentes proveniências e orientações que encontraram na presença ocidental o cimento para justificar a sua união) que então era ainda marcado por reminiscências dos movimentos “mujhaedin” criados ao tempo da ocupação soviética do Afeganistão. Deste tempo remonta também o apoio financeiro e logístico das conservadoras monarquias árabes (Arábia Saudita e Kuwait) e do Ocidente em geral, que não souberam, ou não quiseram, perceber as alterações conceptuais operadas e se confrontam agora com um movimento bem financiado e bem equipado, que com maior ou menor apoio das populações locais está a tentar redefinir fronteiras numa região onde elas foram desenhadas a régua e esquadro no início do século passado conforme os interesses de ingleses e franceses (ver o “post” «FRAGMENTOS DO CRESCENTE FÉRTIL») e onde agora se digladiam os modernos interesses energéticos.

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