sexta-feira, 2 de agosto de 2013

CADA VEZ MAIS GREGOS

Por muito que isso desgoste os líderes europeus, parece cada vez mais inevitável o aprofundamento da crise em que mergulhou a Europa e a Zona Euro.

Seja por insuficiência das acções ou por completo desajustamento das políticas, o certo é que após uma primeira notícia dando conta que o «FMI começa a duvidar que a Grécia seja solvente», de pronto os europeus começaram a ser confrontados com outra, na qual o «FMI avisa zona euro que vai ter de perdoar parte do empréstimo à Grécia».


Contrariando as afirmações mais optimistas de Berlim ou de Paris, o que ressalta das conclusões dos técnicos do FMI é que o problema das dívidas denominadas em euros está para continuar… e cada vez pior. Desmascarado o dogma da “recessão expansionista” e evidenciadas as limitações das políticas do empobrecimento geral, o que resta aos técnicos que as recomendaram é assumirem que a situação está hoje pior que no início da sua intervenção. Isso mesmo é confirmado pela notícia que, em proporção do PIB, a «Dívida portuguesa pode ser a segunda maior da EU», o que, continuando a registar-se a regressão daquele indicador, ninguém poderá dizer que constituirá surpresa inimaginável.

O tom claramente pessimista (ou realista, consoante as opiniões) dos especialistas do FMI admitindo publicamente a possibilidade de insolvência dum membro da Zona Euro é, além duma evidente confissão do insucesso das suas soluções, uma óbvia oportunidade para repetir a ideia que desde o início da crise aqui tenho defendido: a solução terá que ser gizada em várias frentes, integrando uma actuação a nível europeu que atribua ao BCE o papel de financiador da dívida pública (pelo menos até ao limite dos 60% do PIB estabelecido nos tratados) e outra ao nível interno de cada estado que mediante um processo de auditoria permita a determinação dos níveis de dívida ilegítima, cujo pagamento deve ser recusado pelos cidadãos, ao mesmo tempo que se recoloca o sistema financeiro em patamar de igualdade com os restantes sectores da actividade económica, isto é, eliminando a prerrogativa dos resgates públicos garantidos.

Mas a situação dos países periféricos já intervencionados (Grécia, Irlanda e Portugal) é ainda mais grave que a da generalidade dos seus parceiros (Espanha e Itália aparte), pois a ruinosa aplicação das panaceias recomendadas pelo FMI, BCE e FEEF (o cardápio do Consenso de Washington) ao longo dos últimos anos, de que resultou a quase paralisação da actividade económica e a redução dos rendimentos das famílias (salários e pensões), além da óbvia redução do PIB e aumento do peso relativo do endividamento, que levou João Rodrigues, economista e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, a preconizar num artigo do PUBLICO, «O PODER DE ENGANAR OS PORTUGUESES COM A VERDADE», a necessidade de “…recusar o memorando e declarar uma moratória ao pagamento da dívida, isto é, uma suspensão dos pagamentos dos juros e das amortizações ao longo de um processo negocial que terá na agenda, entre outros temas, a reestruturação da tal dívida, reduzindo em profundidade o seu montante”.

Demonstrada a impraticabilidade da solução preconizada pelos sectores (económico e intelectual) que estiveram na origem da crise (ou pelo menos da sua dimensão e rápida expansão), a insistência na perpetuação do erro que ensaiam as elites políticas ameaça asfixiar a resiliência dos cidadãos e transformar-se numa inexorável certidão de óbito colectivo.