Mostrar mensagens com a etiqueta Efemérides. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Efemérides. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 1 de maio de 2018

1º MAIO 2018

Provando que há sempre mais que uma forma de comemorar qualquer efeméride, deixo hoje uma proposta de reflexão em torno duma imagem; não uma qualquer, nem uma directamente alusiva à comemoração do Dia do Trabalhador (efeméride internacional que assinala a luta dos trabalhadores pela jornada de trabalho de 8 horas, que embora iniciada em 1866 só seria reconhecida pela OIT em 1919) mas um trabalho dum dos mais importante carticaturistas da actualidade: Michael Kountouris


Kountouris, grego de nacionalidade e caricaturista desde 1985 em várias publicações gregas, tem sido uma das mais importantes “vozes” no comentário à situação grega e europeia; vencedor de vários prémios internacionais no Irão, Espanha, Itália, Bélgica e Portugal, recebeu em 2013 o 1º Prémio do World Press Cartoon, deixa-nos hoje a sua visão duma sociedade dividida, não no essencial mas nos pormenores.

Para reflectirmos... TODOS!

quarta-feira, 25 de abril de 2018

AS PORTAS DE ABRIL




Quando em 1975 o poeta Ary dos Santos escreveu:

«Era uma vez um país

onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.

(...)
Era uma vez um país

de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

(...)
Foi então que Abril abriu

as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra

na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.

(...)
Foi esta força viril

de antes de quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.

E em Lisboa capital

dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.»

(...)
Excerto de As Portas que Abril Abriu, de José Carlos Ary dos Santos - 1975.


poderá tê-lo feito como celebração, mas hoje, quase duas gerações volvidas sobre a data, devemos lê-lo como recordação do muito que Abril nos deu no campo da Saúde, da Educação, da Segurança Social e da Democracia.

Claro que também não podemos esquecer o aumento da Corrupção e a degradação de valores como a Honestidade e a Hombridade, que sendo fruto dos tempos são-no igualmente da nossa apatia e comodismo...

Hoje, mais que nunca, importa recordar as portas que Abril abriu e tudo fazermos para que as gerações que nos seguirem entendam a importância de as mantermos abertas e que isso depende apenas de nós!

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

UN CHIEN À MONTREUX

Assinala-se hoje o centenário do nascimento de um dos nomes maiores da música contemporânea; francês por adopção, mas monegasco por nascimento, Léo Ferré não foi apenas o compositor de algumas da mais conhecida música popular francesa, antes um artista polifacetado que juntou à música a densidade da sua poesia (publicou cerca de dezena e meia de livros) ou a de outros poetas consagrados – como Charles Baudelaire, Louis Aragon, Guillaume Apollinaire e Arthur Rimbaud – e o valor dos seus ideais.

Lembrá-lo tão só como o autor de “Avec Le Temps” não é apenas injusto, como redutor é associá-lo apenas ao ideário libertário; Ferré foi muito mais que isso... Compôs música popular mas também a ópera “La Chanson du Mal-Aimé” e uma “Sinfonia Incompleta”, escrevendo e interpretando com todo o seu sentimento verdadeiros panfletos de inconformismo.


Quem nunca ouviu o já referido “Avec Le Temps”, “Amour Anarchie”, “La Solitude” ou até “Un Chien à Montreux” (gravação ao vivo da sua passagem pelo Festival de Montreux), tem agora uma boa oportunidade para se redimir e deixar-se embalar pelo jovem velho sem idade que é Léo Ferré...

segunda-feira, 25 de abril de 2016

ABRIL, 42 ANOS DEPOIS

Hoje, dia em que celebramos mais um aniversário sobre a reconquista da democracia e da liberdade, deveríamos dedicar uma atenção especial a tentar recordar o que então pensámos e projectámos para o futuro e onde hoje estamos.


Esqueçamos o conceito maniqueísta de “celebrar Abril” e reflictamos um pouco sobre o que aqui nos trouxe... Mais de quatro décadas volvidas em que um verdadeiro turbilhão de acontecimentos mudou radicalmente a nossa vida colectiva, estaremos inegavelmente melhor que então, mas quase certamente muito longe de onde sonhámos poder estar.

Então o futuro éramos nós e estava, em boa medida, nas nossas mãos; hoje parece não termos futuro ou então sentimos perante ele todo o peso duma impotência que nos querem impor. À alegoria das brilhantes “portas que Abril abriu” deixámos que construíssem muros (reais e imaginários) que nos isolam dos outros – até dos que nos são próximos e semelhantes – e, sob a ameaça de desempregos e demais vilanias, nos transformassem em “zombies” políticos e sociais.

No meio da incerteza, da desesperança, da dúvida e de todos os medos, deve emergir a ideia que é urgente recuperar o sonho (aquele que o poeta nos ensinou que comanda a vida...) de querermos ser melhores e todos iguais, mas diferentes!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

HUGO PRATT – EM BUSCA DA LIBERDADE PERDIDA

Na data em que se assinalam vinte anos sobre a sua morte e quando se espera para Outubro a publicação dum novo álbum de Corto Maltese[1] – o personagem que criou e lhe granjeou reconhecimento geral –, mais que se justifica lembrar esse nome mítico da 9ª arte, que foi Hugo Pratt e cuja vida e obra podem ser tão intimamente misturadas e indissociáveis.


Itinerâncias

Nascido em 1927, numa família veneziana onde se misturavam a ascendência inglesa, por parte do pai, e a judaico-espanhola, por parte da mãe (o avô materno, que retratará em “Fábula de Veneza”, era o poeta Eugenio Genaro e um dos fundadores do fascismo veneziano), rapidamente se viu envolvido no turbilhão duma Itália onde o fascismo em ascensão redescobre o fascínio imperial e colonialista.

Muito jovem, Hugo Pratt chega a solo africano instalando-se com os pais na Abissínia; quando a guerra eclode, é alistado no exército fascista com a idade de 13 anos, tornando-se, como ele o referiu, o mais jovem soldado de Mussolini. Destruído o sonho duma Itália colonialista, o pai morto, Hugo Pratt e a mãe serão repatriados pela Cruz Vermelha. Esta sucessão de viagens desde a infância, uma família cosmopolita e muito feminina, versada nos mistérios da cabala e do esoterismo, convida à pesquisa, às deslocações geográficas e à viagem interior.

Guiado por uma curiosidade sem limites, Hugo Pratt conduziu a sua vida e a sua obra como uma busca; …busca de si próprio e vagabundagem para compreender, um pouco mais e um pouco melhor, o mundo.

Depois, por trabalho ou prazer, Pratt não deixará mais de cruzar o mundo: Europa, África, América, cada viagem leva-o um pouco mais longe na sua busca… Da sua longa estadia na Argentina, dirá: «A Argentina fez de mim um adulto …», mas foi em França que primeiramente lhe reconheceram o talento.

Um pouco da obra…

Tendo iniciado a sua carreira de desenhador (como o próprio reconheceu sob a forte influência do norte-americano Milton Caniff), colaborou com argumentistas, como o italiano Alberto Ongaro (Asso di Picche), o argentino Hector Oesterheld (argumentista e editor desaparecido durante a ditadura do general Videla, com o qual criou as figuras de Sargento Kirk, Ticonderoga e Ernie Pike). Ainda do período argentino datam os primeiros trabalhos a solo (Ana da Selva, Capitão Cormorant e Wheeling, uma sequela de Ticonderoga) e as primeiras evidências do despoletar dum estilo próprio.

De regresso a Itália lança, com o promotor Fiorenzo Ivaldi, a revista Sargento Kirk em cujas páginas serão publicadas as primeiras pranchas da “Balada do Mar Salgado”, obra que marcará definitivamente o nascimento de Corto Maltese e o mito de Hugo Pratt.

Profundamente marcado pelo fenómeno da guerra, legou-nos a sua visão dos conflitos em muitas da suas obras (principalmente em “Ernie Pike” e nos “Escorpiões do Deserto”, série que foi a primeira conhecer um continuador no desenhador suíço Pierre Wazem, ou nos seus últimos trabalhos: “Sob um Céu Longínquo” e “Morgan”), mas à semelhança de tantos outros autores, uma das principais fontes de inspiração de Pratt, são os seus encontros, nomeadamente com as mulheres; como o seu criador, Corto, cruzar-se-á com muitas mulheres excepcionais durante as suas peregrinações, mas nenhuma o fará abandonar o seu nomadismo!


Na sua obra deixou-nos soberbos “retratos” dum feminino sempre presente mas muitas vezes inacessível, com destaque para duas das suas obras mais tardias (“Um Verão Índio”, de 1983 e “El Gaúcho”, de 1991) onde curiosamente deixou o desenho para Milo Manara, assumindo apenas o papel de argumentista.

Dotado duma elegância e virtuosidade muito próprias, o artista, que sempre fez questão de se considerar apenas um artesão, legou-nos obras plenas duma sensibilidade que questiona sem ambiguidades os grandes valores da vida ou não a tivesse encerrado com uma reflexão sobre Antoine de Saint-Exupéry no seu “O Último Voo”.

O homem que amava os livros

Aguarelista de talento, desenhador reconhecido e escritor confirmado, Pratt era também um grande bibliófilo e um leitor insaciável; na sua casa de Grandvaux, na Suíça, possuía uma biblioteca com cerca de 30.000 obras, onde destacava os "travel writers", principalmente anglófonos. O próprio disse que «A minha geografia está sempre ligada a um mundo literário e fantástico. Para mim, uma viagem é uma descoberta despertada por uma leitura.» (Le désir d'être inutile), pelo que não se estranham as contantes referências literárias (e não só) a nomes como Jack London, James Curwood, Rimbaud, Hesse, Kipling, Yeats e tantos outros.


Citava R.L. Stevenson e a fabulosa descrição da ilha do tesouro como a sua referência em matéria de inspiração; muitos do seus personagens, onde Corto Maltese é sempre o paradigma, procuram um tesouro… mas é o seu mundo interior que Pratt explora e ilustra.

Esse formidável narrador, desenhador de talento, inspirado tanto pela literatura e pelo cinema como pela mitologia, era um artista complexo e tornou-se rapidamente um personagem de culto…um mito vivo!

Em 1995 trocou o mundo real pelo dos sonhos, ele que dizia: «Acontece-me não ter vontade de sair do mundo dos mitos, deixando até de saber onde está o mundo real».



[1] A nova obra terá autoria duma dupla espanhola composta por Juan Diaz Canales, autor de “Blacksad”, e Rúben Pellejero, que desenhou “Dieter Lumpen” e terá como título “Sous le Soleil de Minuit”.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

LEMBREM-SE DE HIROSHIMA…

Assinala-se hoje o 70º aniversário da deflagração da primeira bomba atómica. No dia 6 de Agosto de 1945 o bombardeiro Boeing B29 Superfortress, cognominado Enola Gay, procedeu ao lançamento dum engenho nuclear sobre a cidade japonesa de Hiroshima, com o conhecido balanço trágico de cerca de 140 mil mortos.

Uma sobrevivente, Bun Hashizume, recordou o acontecimento duma forma talvez poética, mas não menos brutal: «Pensei que o Sol havia caído diante dos meus olhos».

Esta imagem forte sugere uma outra para condenar o “feito”…


…e não deixar esquecer que por melhor que fosse a justificação, a opção não pode deixar de constituir um crime de guerra!

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

MADHIBA

No dia em que Nelson Mandela nos deixou, recordo uma das frases emblemáticas de um dos homens que melhor terá interpretado o legado de Gandhi:

“A educação é a ferramenta mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo”


Obrigado, Madhiba!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A INDIGNAÇÃO VIVA


Morreu esta madrugada Stéphane Hessel.


Insatisfeito com o seu papel de ex-resistente francês, de colaborador de De Gaulle, de diplomata (foi redactor da Declaração Universal dos Direitos do Homem), legou-nos, aos 93 anos de idade, um fenómeno editorial com o livro «Indignai-vos!» que constitui um poderoso grito contra a apatia e o laxismo dos cidadãos face à arbitrariedade dos poderes que nos governam.

Rapidamente adoptado como o manifesto do movimento dos “Indignados” tem ajudado a mobilizar vontades tão jovens quanto a sua, que espera-se agora se mostrem dignas do seu mentor!

quinta-feira, 8 de março de 2012

MULHERES DE ATENAS


Quando na actual conjuntura europeia se assinala mais um Dia Internacional da Mulher, faz acrescido sentido recordar aqui o seu papel e a sua importância.


Na ausência de melhores palavras (tolhidas pela fúria e a revolta criada pela vergonha que insistem em lançar sobre os gregos) recordo aqui a lírica de Augusto Boal:

Mulheres de Atenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seu maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obscenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Ás suas novenas
Serenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas
2012-3-08

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

ZECA - 25 ANOS


Para não deixar passar em claro os 25 anos que o Zeca nos deixou sem novidades, lembro aqui o Homem que desde os tempos DE CAPA E BATINA entoou FADOS DE COIMBRA E OUTRAS CANÇÕES e imortalizou as CANTIGAS DO MAIO.


Fez-se à estrada COM AS MINHAS TAMANQUINHAS e entoou muitos (e bons) CANTARES DE ANDARILHO, quem sabe se não o fez até no CORO DOS TRIBUNAIS…

Ensinou-nos CONTOS VELHOS RUMOS NOVOS e a importância de dizer (e fazer) TRAZ OUTRO AMIGO TAMBÉM; cantou (e encantou) ENQUANTO HÁ FORÇA, disse VENHAM MAIS CINCO ou EU VOU SER COMO A TOUPEIRA, insistiu em FURA FURA, em transformar o nosso dia-a-dia e partiu sabendo que o estava a fazer.

Mais que o cantor de intervenção a que ainda insistem a reduzi-lo, Zeca Afonso foi a voz duma geração que embalou um sonho… que merece ser reavivado!

domingo, 1 de maio de 2011

MAIO, MADURO MAIO

Ao longo dos tempos sempre ouve quem mantivesse viva a chama de valores e ideais que por desagradáveis aos poderes estabelecidos iam sendo alvo de velados ostracismos ou até de declaradas perseguições.

Foi assim com Galileu Galilei, físico, matemático, astrónomo e filósofo italiano que teve um papel preponderante na chamada revolução científica, é hoje é considerado como o "pai da ciência moderna" mas que na sua época se viu forçado a negar as suas próprias descobertas para escapar à perseguição da Inquisição, com Mahatma Gandhi, o maior defensor do princípio da não-violência enquanto forma de protesto, até como meio revolucionário, e que assim conseguiu a libertação da Índia da colonização britânica, com Martin Luther King Jr, pastor protestante, activista político norte-americano, líder do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, apologista da não-violência que foi assassinado pelas suas ideias, com Nelson Mandela, o líder histórico da oposição negra sul-africana ao regime do “apartheid” que mau grado a condenação a uma pena de prisão perpétua viria a ser o primeiro presidente negro da África do Sul, na sequência dum longo processo de desobediência civil levado a cabo por uma população negra privada de quase todos os direitos e com tantos outros, em maior ou menor escala.

Por todos eles, a celebração de um dia consagrado aos trabalhadores, aos seus direitos e às suas conquistas é algo que importa preservar e engrandecer; mas porque outros melhores que eu descreveram a importância de Maio e a urgência da luta aqui relembro a lírica com que Zeca Afonso cantou revoluções colectivas e pessoais:

Maio maduro Maio, quem te pintou?
Quem te quebrou o encanto, nunca te amou.
Raiava o sol já no Sul.
E uma falua vinha lá de Istambul.

Sempre depois da sesta chamando as flores.
Era o dia da festa Maio de amores.
Era o dia de cantar.
E uma falua andava ao longe a varar.

Maio com meu amigo quem dera já.
Sempre no mês do trigo se cantará.
Qu’importa a fúria do mar.
Que a voz não te esmoreça vamos lutar.

Numa rua comprida El-rei pastor.
Vende o soro da vida que mata a dor.
Anda ver, Maio nasceu.
Que a voz não te esmoreça a turba rompeu.

Zeca Afonso