quinta-feira, 19 de março de 2015

O LABIRINTO DE DAVID

Embora raramente reconhecido é muitas vezes referido o facto dos processos e das campanhas eleitorais se pautarem por debater o acessório em lugar do essencial. Os últimos anos têm sido fartos nessa matéria, mas talvez um dos exemplos mais gritantes tenham sido as últimas eleições em Israel.

Independentemente do resultado eleitoral, quer Netanyahu forme novo governo ou não, a questão central, para os eleitores israelitas, ficou por debater e ainda mais por resolver. A ocupação israelita dos territórios árabes eterniza-se, as sucessivas medidas para fomentar a sua colonização (ilegal ao abrigo do direito internacional e à revelia das decisões da ONU) continuam a inviabilizar a mínima hipótese da constituição de jure dum estado palestiniano, enquanto o próprio estado israelita se afunda num crescente isolamento internacional e no seu próprio labirinto.


Já não são apenas os revezes do reconhecimento à Autoridade Palestiniana da qualidade de observador na ONU ou o reconhecimento do estado palestiniano por países europeus, é principalmente o crescente afastamento da matriz democrática que se vive em Israel.

Tradicionalmente apontada como a única democracia no Médio Oriente, a persistência numa estratégia de isolamento imposta pelos pequenos partidos religiosos ortodoxos e pelos “falcões” duma direita, em tempos vista como alternativa a sucessivos governos trabalhistas, tem minado não apenas a sociedade judaica mas principalmente os seus próprios alicerces.

Numa sociedade onde o laicismo perde terreno para uma visão sionista ortodoxa e messiânica (não esqueçamos que a questão que originou estas eleições foi a recusa de dois ministros, Tzipi Livni e Yair Lapid, em votarem um projecto de lei que excluía os não judeus dos direitos de cidadania) pode começar equacionar-se o fim da democracia.

É claro que para o cidadão israelita médio talvez o agravamento da situação económica, ditada pelo efeito de contágio da crise global, seja verdadeiramente importante, a ponto de fazer esquecer que a questão palestiniana e a solução dos “dois estados” será afinal bem mais relevante que a azáfama diária deixa antever. Disso mesmo se fez recentemente eco o escritor e jornalista Amos Oz – co-fundador do movimento pacifista israelita Shalom Akhshav (Peace Now) quando nas páginas do jornal HAARETZ deixou a ideia que «…se aqui não houver rapidamente dois estados, haverá um. Se aqui houver apenas um estado, será um Estado árabe…» e disso também será reflexo que, em resultado das eleições a terceira força política passou a ser a Lista Árabe Unidaconstituída por partidos árabes e englobando judeus como o ex-presidente do Knesset, Avraham Burg – cuja campanha se centrou na defesa da igualdade de direitos entre judeus e árabes no Estado de Israel.

Esta preocupação que parece alastrar entre sectores menos dogmáticos e mais esclarecidos da população judaica, não constitui novidade nem representa um qualquer corte radical, antes uma adaptação a uma realidade – a solução um estado-dois povos – a que já tinha aludido no “post” «NOVAS IDEIAS PARA A PALESTINA?», em Julho de 2007.

Sem comentários: