sexta-feira, 4 de outubro de 2019

LIÇÕES APRENDIDAS?


A pouca horas de novas eleições legislativas das quais resultará a formação de um novo governo, é da mais elementar justiça recordar a importância histórica do Parlamento que agora termina funções.

Independentemente das simpatias político partidárias ninguém de boa-fé poderá negar que o parlamento eleito em 2015 deu uma importante lição ao País. Depois duma questionável nomeação para a formação de governo e da sua rejeição no Parlamento, depois duma inominável acção de bloqueio presidencial que se recusava a aceitar outra solução governativa diversa da que lhe agradava, o Parlamento impôs uma solução inédita no País, juntando socialistas (mais correctamente deveria dizer-se sociais-democratas), comunistas, bloquistas (marxistas e trotskistas) e ecologistas.

Esta coligação – rapidamente apodada de “geringonça” por uma direita ressabiada, mas que se revelara absolutamente incapaz de alargar o espectro político além dos populares (que se auto-intitulam de sociais-democratas) e dos democratas cristãos (que querem ser populares) – teve o enorme mérito de refutar alguns dos mais perniciosos dogmas do nosso processo democrático. Primeiro o desgastado chavão de que a “esquerda” portuguesa é meramente contestatária e lhe falta visão e capacidade de gerar soluções governativas; depois a malfadada ideia de que existem candidatos ao lugar de primeiro-ministro (algo que estupidamente alguns líderes partidários continuam a persistir em afirmar); por último, devolveu ao Parlamento o seu verdadeiro papel de origem e suporte à formação de soluções governativas.


Outro importante resultado da solução governativa foi a refutação da ideia de que não existia alternativa à solução da “austeridade expansionista”, tão cara à corrente neoliberal que liderou o governo de Passos Coelho, pois o que fez na realidade o governo de António Costa foi a aplicação das mesmas regras e restrições orçamentais sem o exagero passista de querer ir além das próprias imposições dos credores.

Será que depois da “geringonça” nada voltará a ser como era? Descansem os mais saudosistas que todos os sinais apontam para um rápido esquecimento das lições que devíamos ter aprendido nestes últimos quatro anos.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

BORIS


Poucos ignorariam que o actual líder do Partido Conservador britânico (cujos membros são familiarmente designados por “tories”, reminiscência do nome de um antigo partido de tendência conservadora que reunia a aristocracia britânica) e Primeiro-ministro em exercício sempre fez do histrionismo uma capa sob a qual apresentou as suas variadas versões de jornalista, político, autarca e deputado. 

Conhecido pelas suas posições populistas, mas ainda mais pelas mais variadas trapalhadas com tem mimoseado seguidores e opositores, viu-se alcandorado a uma posição (há semelhança de outras que desempenhou) para a qual não reunia predicados especiais nem se preparou de forma minimamente digna.


Durante a campanha para o referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE, destacou-se não pela qualidade da sua argumentação, mas pelas múltiplas deturpações e mentiras difundidas sobre a Europa e o funcionamento das suas instituições. A tudo isto acrescentava já o pouco recomendável apoio doutro personagem idêntico – Donald Trump – mesmo antes de nos surpreender com esta peregrina ideia de propor a suspensão da actividade do mais antigo Parlamento do Mundo, que por mais legal e constitucional que seja, não é menos reveladora de uma clara faceta antidemocrática de Boris Johnson.

Sabendo-se já que a Rainha autoriza suspensão do parlamento britânico nem se estranha que a chefe do governo escocês, Nicola Sturgeon, tenha dito à laia de comentário que este foi “O dia em que a independência da Escócia se tornou inevitável” ou em que a democracia “morreu” e que se conte já pelas centenas de milhares os que assinaram petição contra o plano de Boris, que que outra não parece senão uma via para contornar qualquer forma de oposição àquele que sempre foi o seu plano original: garantir a saída do Reino Unido da UE de qualquer maneira e a qualquer preço. Preço que será pago pela população inglesa, tenha ou não apoiado Boris Johnson e o seu amigo Nigel Farrage (o líder do partido independentista – UKIP), e em especial pelas gerações dos mais jovens que nem sequer votaram no referendo.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

GRUNHOLÂNDIA


Quando vi, há dias, as imagens de uma peça televisiva onde aparecia um Donald Trump visivelmente incapaz de esconder a irritação e a frustração perante a evidência do convite formal do G7 para uma reunião com o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, voltou-me à memória o sucedido em meados deste mês quando surgiram as primeiras notícias de que «Trump manifesta interesse em comprar a Gronelândia», a que se sucederam várias reacções, havendo até quem tenha preferido salientar a irónica reacção dinamarquesa, que vendo bem até nem parece exagerada.

Claro que há antecedentes históricos da compra de territórios (os mesmos EUA compraram, no início do século XIX, a Louisiana aos franceses, em meados desse século compraram o Alasca aos russos e algumas dezenas de milhares de quilómetros quadrados aos vizinhos mexicanos, para no final desse século comprarem as Ilhas Filipinas aos espanhóis e em 1917 compraram à Dinamarca o que hoje é conhecido como as Ilhas Virgens Americanas) mas ao que parece não há registo histórico de algum dirigente o ter anunciado da forma que Trump agora o fez.


É que não há palavras para descrever a afirmação do imperador do Twitter de que quer comprar a Gronelândia para projecto imobiliário, quando são amplamente conhecidas as potenciais riquezas minerais dum território que o aquecimento global – que Trump continua a negar – está em vias tornar economicamente acessíveis, uma afirmação daquele jaez é, no mínimo, insultuosa para inteligência dos habitantes da região e do resto do planeta.

A reafirmação, uns dias depois de que «Trump confirma interesse em comprar a Gronelândia» e a reacção traduzida em adiar visita à Dinamarca após ver recusada a compra da Gronelândia, apenas revela um comportamento de quem ainda não aprendeu a ser contrariado e tem até o despautério de ainda endereçar a responsabilidade aos dinamarqueses quando justificou o cancelamento com a jactante afirmação: "Não se fala assim com os EUA".

E não é apenas a atitude de Trump que deve merecer crítica e repúdio, pois este episódio é apenas mais uma confirmação da grande impreparação da equipa que integra a actual administração norte-americana (que o deixa proferir este e outro tipo de alarvidades), de pouco ou nada servindo as tentativas de branqueamento ou apaziguamento do tipo: «Trump e a compra da Gronelândia. Uma loucura ou um contributo para a paz mundial?»

Trump gere os assuntos públicos norte-americanos com a mesma boçalidade que gerirá as suas empresas, esquecendo que as relações entre Estados diferem (e muito) do modelo relacional dependente patrão-empregado.