terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

LIBERDADES E PRÁTICAS ESCANDALOSAS

De tempos a tempos o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, na sigla inglesa) volta a encher cabeçalhos nos jornais. Desta vez, num contexto de grande incerteza em torno da solução para a Grécia e a continuidade da Zona Euro, a grande parangona é que a «Economia norte-americana pode salvar mais uma vez uma Europa em depressão», como se na actualidade a finalidade dum acordo de comércio livre (sobre algumas das implicações do TTIP ver os “posts” «O PROBLEMA EUROPEU» e «RECONFIGURAÇÃO GEOPOLÍTICA MUNDIAL») fosse a salvaguarda doutro interesse que não o das grandes empresas e das grandes fortunas que as financiam, como fica amplamente evidente com a inclusão da famigerada clausula ISDS (Investor-State Dispute Settlement) que garantirá às grandes empresas o recurso a tribunais especiais para resolver eventuais conflitos com os Estados.

Nem de propósito, na mesma ocasião e demonstrando precisamente essa dicotomia entre o interesse das populações e o das grandes fortunas, vieram a público notícias onde a «Investigação "Swissleaks" revela esquemas de evasão fiscal no banco HSBC», nomeadamente com «Sessenta mil ficheiros de reis, países e famosos identificados num esquema de evasão fiscal», envolvendo qualquer coisa como 180 mil milhões de euros, ou seja um valor superior ao PIB nacional, só numa filial dum banco!


A revelação destes dados relativos a um único banco (o britânico HSBC), da responsabilidade do ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação) vem confirmar a necessidade de actuação contra as verdadeiras multinacionais do crime fiscal e da lavagem de dinheiro que são os “offshores” e em especial as sucursais financeiras que neles operam, que têm proliferado em claro prejuízo da generalidade dos trabalhadores, pequenos empresários e reformados que por esse mundo fora continuam a ver os seus rendimentos reduzidos em nome dum rigor orçamental que como se vê não é aplicado de forma universal.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

REALISMOS

Muitos têm sido os cabeçalhos jornalísticos que nos últimos dias têm surgido sobre a Grécia e o diferendo que opõe o actual governo, liderado por Alexis Tsipras, e uma UE onde prevalece o dogma ordoliberal da “austeridade expansionista”, com especial destaque para os que não têm perdido o ensejo para denegrir os esforços helénicos. Curiosamente, ou talvez não, a imprensa especializada estrangeira, nomeadamente o ECONOMIST e o FINANCIAL TIMES, tem sido mais comedida a respeito das propostas gregas.

Enquanto de forma nem sempre muito esclarecedora a imprensa vai dizendo que a «Grécia deixa cair perdão de dívida e pede reembolsos ligados ao crescimento» e a realização de reuniões com vários dirigentes europeus confirmam a mudança de estratégia onde a «Grécia vai trabalhar com as instituições europeias e não com a troika», o que representa uma clara inversão do modelo em uso  que a própria UE já reconhecera quando surgiu o anúncio de que «Bruxelas admite desmantelar troika como concessão à Grécia».


Os resultados das passagens por Roma e Paris, onde «Grécia e Itália alinham discurso por uma "Europa de crescimento"» enquanto de Paris se fala em «Aliviar dívida grega sim, perdoar não», são de algum modo exemplo das diferentes sensibilidades na abordagem do problema. Quando a «Alemanha quer que Grécia coloque promessas de lado e mantenha compromissos» não se estranha que os servilíssimos Rajoy ou Passos Coelho disso se façam eco, nem o anúncio que o «BCE deixa de aceitar dívida grega como garantia para financiar a banca do país», numa estratégia que, fomentando o risco da moeda única, poderá revelar-se calamitosa para o conjunto da Zona Euro.

Esta óbvia forma de pressão sobre os gregos foi respondida de imediato nas ruas de Atenas e pela voz do próprio primeiro-ministro quando este afirmou que a «"A Grécia não aceitará mais ordens, sobretudo ordens recebidas por email"», cimentando a ideia que os eleitores poderão ter escolhido quem efectivamente defenda o interesse nacional e esvaziando parcialmente o conteúdo da medida e de declarações como aquela onde Jean-Claude «Juncker diz que UE não vai mudar tudo devido a resultados eleitorais na Grécia».

Enquanto isto, no rescaldo duma reunião onde «Schäuble e Varoufakis assumem discordar sobre quase tudo», ficámos também a saber que para o ministro alemão as «“Promessas às custas dos outros não são realistas”», argumento aplicado às intenções do governo grego de ver alterados os termos da sua dívida mas que não terá sido das ideias mais brilhantes de Schäuble, pois, na essência, igualmente irrealista será esperar que as economias reduzidas ao estado de indigência alguma vez lograrão pagar as suas dívidas. Esta velha sanha contra os países periféricos da Europa, que tem sido alimentada nos países do Norte europeu sob a capa duma moralidade controversa, parece cada vez mais alimentada pelas fragilidades internas duma Alemanha que continua a escamotear os elevados riscos associados ao seu sistema de segurança social e de fundos de pensões (já em 2011 havia quem apontasse uma dívida escondida de cinco biliões de euros) e a fragilidade do seu sistema financeiro regional.

Ainda que o anúncio de que o «Eurogrupo convoca reunião extraordinária para debater a Grécia» represente mais uma manobra no sentido de isolar a Grécia – fazer uma reunião do Eurogrupo, órgão claramente dominado pela ortodoxia austeritária, nas vésperas duma cimeira europeia onde as hipóteses de crítica àquela prática serão maiores – seria mais realista que políticos e comentaristas esperassem pelo seu desfecho antes de persistir numa bacoca condenação generalizada dum esforço legítimo e que, contrariamente ao que se pretende fazer crer, não tem forçosamente que estar condenado ao insucesso.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

POBREZA

Embora já tenha decorrido mais dum lustro desde o despoletar crise do “subprime” os seus efeitos sobre as populações teimam em perdurar; seja por inépcia ou porque essa é a estratégia que pretendem seguir, os vários governos das diferentes grandes economias pouco ou nada fizeram no sentido de corrigir os gritantes desmandos que conduziram a generalidade daquelas economias ao estado em que se encontram.

Seja nos EUA, no Japão ou nos principais países da UE continua por realizar um esforço sério para a implementação duma regulamentação eficaz do sector financeiro – seja na indispensável separação entre as actividades comercial e de investimento seja na revisão das regras de funcionamento dos “offshores” – enquanto se assiste ao fracasso de quase todas as tentativas de revitalização das economias por via das políticas de injecção de liquidez que inevitavelmente se esboroam nas insaciáveis necessidades dos bancos.

Enquanto isto, seja por opção seja por real escassez de financiamentos os sectores produtores de bens transaccionáveis definham agravando o problema do desemprego. Desde que há algumas décadas, fruto da generalização das teorias monetaristas que defendem o principio do “trickle down economics”, se deu início ao processo de concentração de riqueza por via da redução dos rendimentos das famílias em benefício dos rendimentos do capital, no pressuposto que aquela concentração geraria mais investimento e mais empregos, que a situação das populações se tem agravado, a ponto de se afirmar já que estará «Metade da riqueza mundial nas mãos de 1 por cento da população».


Além da constatação prática do fracasso da teoria do “trickle down economics”, verifica-se ainda que crise iniciada em 2008 nos EUA e o seu prolongamento na Zona Euro através do empolamento que as dívidas públicas sofreram para resgatar o sistema financeiro foi usado para justificar a aplicação de políticas de austeridade através das quais «“Está a criar-se uma nova geração de pobres”», sem que se reduza o endividamento ou se estimule a economia.

No caso específico de Portugal e quando em Maio próximo se cumprirem 4 anos desde a assinatura do PAEF (Programa de Assistência Económica e Financeira) teremos passado dum volume de dívida da ordem dos 94% do PIB para um nível onde a «Dívida pública representava 129,4% no PIB no 2.º trimestre» de 2014, pelo que dificilmente se poderá afirmar que a finalidade do resgate era a redução da dívida…


mas em contrapartida já é garantida a situação que colocou «Um em cada cinco portugueses em risco de pobreza» e pior ainda quando o EUROSTAT divulgou que o número de agregados familiares com pessoas desempregadas «Um indicador de pobreza duplicou em 2013 em Portugal».

Assim, a afirmação de que «"Ter emprego não é uma vacina contra a pobreza"» traduz afinal o facto das políticas implementadas estarem a contribuir para um processo de empobrecimento generalizado, mesmo que Passos Coelho afirme que «Dados do INE sobre risco de pobreza "não reflectem situação actual"». Se isto não for julgado suficiente para justificar a necessidade de mudança nas políticas junte-se o facto, cada vez mais reconhecido, do desenvolvimento tecnológico estar a reduzir a quantidade de mão-de-obra necessária. Numa época em que a par com a sobrevalorização da produtividade (indicador que conjuga os factores capital e trabalho) se assiste a uma constante redução de postos de trabalho, fácil se torna antever que de futuro não existirá procura suficiente para a oferta natural de mão-de-obra, o que reforça a conclusão da indispensabilidade de um novo paradigma laboral, que se não for entendido pelos poderes estabelecidos acabará, inevitavelmente, por ser imposto pelos milhões de excluídos.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

QE PARA QUÊ?

O resultado das eleições gregas contribuiu para eclipsar dos comentários o anúncio feito uns dias antes de que o «BCE avança com compra de 60 mil milhões de euros de dívida pública e privada por mês», que no imediato terá influenciado expectativas, levando até a declararem-se os «Empresários alemães mais optimistas depois da ‘bazuca' de Draghi», mas que não resultará no milagre salvífico que alguns lhe atribuem.

O mecanismo de “quantitative easing” (QE) anunciado por Draghi consiste, na teoria, numa injecção monetária destinada a aumentar a liquidez na economia e assim fomentar o seu crescimento. Teoria à parte, a opção do BCE traduz-se, na prática, na aquisição ao sistema financeiro de dívida titularizada, algo que já vinha sendo feito – sob designações como OMT (Outright Monetary Transactions) e TLTRO (Targeted Longer-Term Refinancing Operations) – com os resultados conhecidos: saneamento do balanço dos bancos e pouco ou nenhum efeito sobre a economia real.


Sob a pressão da realidade europeia, confortado com uma decisão onde o «Tribunal europeu deixa BCE mais à vontade para começar a comprar dívida pública» e para obviar as habituais críticas alemãs, Mario Draghi justificou a medida agora proposta com a necessidade de cumprir o objectivo prioritário de manutenção da inflação nos 2%, numa conjuntura claramente deflacionária e quando são cada vez mais consistentes os sinais de que a prazo a inflação se situará próxima de zero.

Os defensores da opção QE recorrem aos exemplos de actuação do FED norte-americano, do Banco de Inglaterra e do Banco do Japão que há algum tempo vêm utilizando a injecção de liquidez como via para o relançamento das respectivas economias… com os resultados que se conhecem; tanto assim é que enquanto a «Economia japonesa entra em recessão após contracção inesperada no terceiro trimestre» e o «PIB do Reino Unido cresce menos do que o esperado», no seu recente discurso sobre o estado da nação «Obama afirma que a economia dos EUA já recuperou da recessão», apesar de nem todos os dados serem coincidentes (veja-se a avaliação da inflação e da evolução do desemprego e do PIB norte-americano realizada pelo Shadow Government Statistics) com a afirmação.

Seja por constituir uma clara inversão às políticas de austeridade que tem imposto (algumas vezes em oposição ao discurso dos seus principais responsáveis), seja por continuar a considerar a necessidade de reformas estruturais, o FMI vai avisando que o «Programa do BCE não é suficiente para reactivar economia europeia»; em simultâneo, as agências de “rating” apontam as limitações resultantes dos desequilíbrios nos balanços dos bancos que atenuarão a transmissão do efeito ao tecido económico e enquanto a «Fitch considera que programa do BCE não vai estimular o crédito» a homóloga «Moody's prevê que programa de estímulos do BCE terá "um efeito limitado"». Este efeito deverá ser ainda mais sentido nos países da periferia europeia (os mais afectados pela crise) cujas empresas apresentam elevados níveis de endividamento que os excluem no acesso a mais crédito.

Mesmo reconhecendo que o programa de QE agora proposto apresenta algumas vantagens relativamente aos anteriores (OMT e TLTRO), nomeadamente o facto de ser extensivo a todas as economias da Zona Euro e não se limitar à redução dos custos de financiamento de economias solventes relativamente às quais os mercados implementassem estratégias especulativas ou alimentassem dúvidas sobre a liquidez e a sua solidez financeira, continuará por resolver a questão dum modelo de financiamento da dívida pública assente, exclusivamente, no recurso ao mercado de capitais.

Mau grado esta forte limitação (a par com a inegável realidade da fragilidade dos balanços do sector financeiro) tendo a concordar com Alexandre Abreu, que concluiu a sua crónica «A bazuca não é o que parece» dizendo: «O QE não é uma bazuca, não é uma injecção de liquidez a uma escala sem precedentes, e é provável que não tenha grande impacto na massa monetária. Mas é um passo no sentido da monetização da dívida europeia. É por aí que, a meu ver, é importante.»

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O PODER GREGO

Contra as ameaças e chantagens da UE e de países como a Alemanha, os herdeiros de Péricles foram às urnas e votaram precisamente como os defensores do ordoliberalismo não queriam.

No lugar do medo colocaram o que entenderam ser o principal interesse nacional e votaram por larga maioria no partido que há muito tempo defende a indispensabilidade da renegociação da dívida pública.


Recusando a submissão à ideia da ausência de alternativa, esmagados por um crise que além dos empregos lhes está a negar a própria dignidade, ergueram-se e gritaram BASTA!; trocaram um futuro de austeridade certa por um esperançoso, mesmo que de desfecho incerto. Mal ou bem, foram eles a escolhê-lo e ninguém poderá negar que claramente escolheram outra opção que não a ditada a partir de Bruxelas e Berlim.

Se o SYRIZA (e os parceiros de coligação dos Gregos Independentes) vão ou não conseguir realizar os desejos da maioria da população grega é ainda uma incógnita; para já conseguiram abalar o “status quo” europeu e romper o discurso da inevitabilidade da política de “austeridade expansionista”, deixando para a confirmação duma habilidade negocial a resposta à dúvida expressa pelo FINANCIAL TIMES (Será Tsipras um Lula ou um Chávez?).

Para já retenha-se o significado do resultado do sufrágio grego no panorama europeu e num ano em que serão vários os sufrágios por essa Europa fora (ver o “post” «EURO-TENSÕES») e a evidência, ao contrário do que se afirma na Europa, que a «Vitória do Syriza tem consequências para a Europa» ao apresentar como vencedor um programa construtivo e que pretende reforçar a coesão europeia.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

JUSTÍSSIMO...

Apesar da coincidência com o anúncio de que «BCE confima que vai usar a "bazuca" monetária» a que se seguiram reacções onde o «Presidente do banco central alemão critica programa do BCE» ou onde a Directora-geral do FMI assegura que «Operação anunciada pelo BCE não é suficiente», a reunião anual do Fórum Económico Mundial (o areópago que anualmente reúne em Davos os mais ricos) lá tem prosseguido com o desfilar dos habituais participantes e das vedetas convidadas. Dizem alguns comentadores bem-intencionados (ou simplesmente ingénuos) que os ricos estão preocupados com o combate à desigualdade, enquanto outros garantem que «Em Davos olha-se para 2015 como "um ano de encruzilhada"».

Seguramente mais consensual é a afirmação que «Davos arranca com CEO menos optimistas que em 2014», como se a conjuntura global fosse tudo menos volátil. Sinal evidente desta preocupação é o facto dum recente inquérito da PricewaterhouseCoopers, a mais de um milhar de CEO’s, revelar que 78% destes escolheram o “excesso de regulação” como a sua principal preocupação, no que pode ser entendido como uma clara percepção dos “riscos” associados ao facto de integrarem o grupo dos 1% mais ricos, precisamente quando a OXFAM anuncia que veremos em 2016 «Metade da riqueza mundial nas mãos de 1 por cento da população».


Claro que a previsão nada tem de surpreendente numa época em que a velocidade de concentração da riqueza foi especialmente acelerada nos países mais desenvolvidos graças ao hábil artifício de ampliar uma crise financeira até a transformar num processo de clara espoliação de quem trabalha em proveito dos detentores de capital.

Este processo de concentração da riqueza, iniciado em meados do século passado, na América Latina, a coberto das teorias monetaristas de Milton Friedman e da escola de Chicago, levado a cabo sob o pretexto da necessidade do reequilíbrio financeiro dos estados mais não constitui que o passo mais recente para o estabelecimento duma “economia do caos” que os organismos internacionais se recusam a admitir mesmo quando os próprios vêem revendo sucessivamente em baixa as perspectivas de evolução da economia mundial. Isso mesmo se confirma quando no seu último “Outlook” o «FMI corta previsões para economia mundial e espera crescimento de 3,5% este ano» e, aquele que, a par com o Banco Mundial, tem sido um dos principais agentes daquela formulação, insiste quando a «Directora-geral do FMI deixa aviso à Grécia» sobre as consequências de reestruturar a sua dívida, como se não existisse alternativa à condenação dos povos à miséria colectiva.

Evidentemente que os super-ricos encontram neste modelo de distribuição da riqueza a justiça própria dum processo equitativo (haverá algo mais equilibrado e democrático que distribuir metade para eles e metade para os outros?), do mesmo modo que os “banksters” continuam a recusar-se a reconhecer que o modelo suicida da alavancagem financeira que praticam mais não é que um criminoso “esquema de Ponzi” que, esperam, continue a ser financiado pelo erário público.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

INDECISÕES

Tantos e tão significativos são os eventos previstos para a semana que vivemos que esta pode bem tornar-se na mais importante do ano… ou talvez não!

Além das eleições gregas a realizar no Domingo, assistiremos ainda a uma reunião do BCE, no dia 22, e à reunião do Fórum Económico Mundial, que já decorre em Davos.

Começando pelo conclave que anualmente reúne a nata do mundo empresarial importa saber que este ano «Três gestores portugueses marcam presença no fórum de Davos» para debater as questões candentes do momento: os conflitos que emergem no redesenho do xadrez político-económico (com especial destaque para o que opõe a China ao Japão); a escassez de recursos naturais, como a água; a nova realidade geoestratégica no Médio Oriente; o desemprego. No final dos “trabalhos” voltaremos a ouvir referências à importância de conceitos como a sustentabilidade e outras fantasias mais ou menos ligadas à globalização, repetir-se-ão os apelos ao fim dos conflitos (em especial os que as potências ocidentais fomentaram no mundo árabe) e, depois que a «OIT alerta para aumento de desemprego no mundo e critica austeridade na Europa», pias intenções de reduzir o desemprego, mas nada de concreto.

A reunião BCE, que terá lugar em Frankfurt, deverá saldar-se pelo anúncio da compra de dívida soberana europeia, mas, ordoliberalismo obriga e situação indefinida na Grécia recomenda, sob condições tais que suavizarão significativamente os seus efeitos práticos. Antecipando esta decisão e um aumento do fluxo de capitais, a «Suíça desiste de manter a divisa ligada ao euro e franco dispara», para desgosto e preocupação dos seus sectores exportadores.


Resta, assim, o pleito eleitoral grego e o arremedo de esperança que uma mudança radical na orientação política do seu governo possa trazer a uma Europa à muito tempo à deriva, tanto mais que o «Syriza volta a dominar sondagens a poucos dias das eleições».

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

PENSEM SÓ…

No dia em que foi revelado que a «ONU aceita pedido de adesão palestiniana ao Tribunal Penal Internacional» e quando a comunidade internacional deveria estar a assinalar este passo no sentido duma progressiva aproximação em pé de igualdade entre israelitas e palestinianos, eis que a notícia do ataque à redacção do CHARLIE HEBDO tudo fez esquecer.

Demasiado ocupadas com a profissionalíssima actuação dos irmãos Kouachi, as redacções remeteram para o limbo da memória a já costumeira reacção de Tel-Aviv, anunciando que «Israel congela transferência de impostos para palestinianos por causa de pedido de adesão ao TPI», e sem maiores comentários uma afirmação do ainda primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, segundo a qual «Israel não permitirá que os seus soldados sejam julgados no Tribunal Penal Internacional».

Com todas as atenções centradas nas peripécias para a captura dos foragidos, poucos considerandos ou nenhumas observações sobre contradições grosseiras dos factos noticiados (o já referido profissionalismo na execução do ataque e o óbvio amadorismo do esquecimento dum documento de identificação numa das viaturas usadas numa fuga para o Norte e durante o cerco no regresso aos arredores de Paris) foram sendo conhecidos pelo que não se estranhará que também aquele gravíssimo desrespeito à comunidade internacional tenha passado em claro.

Quando o tempo tem vindo a desmentir a viabilidade do modelo “dois povos-dois estados” e quando surge uma ou outra iniciativa para o desbloqueio do impasse, nomeadamente quando entre os dois povos até se debate a hipótese antevendo que «Estado único surge como solução ao conflito Palestina-Israel», seria expectável alguma evolução na postura oficial de Israel. Não fossem os actores sempre os mesmos e mínimas as diferenças entre conservadores e moderados e talvez às alterações no poder em Tel-Aviv pudesse corresponder alguma evolução no rumo das negociações israelo-palestinianas.


Ao invés parece que as principais forças políticas israelitas redobram de esforços na radicalização das suas posições no que à questão palestiniana respeita, arrastando no tempo, com o beneplácito de americanos e europeus, uma solução de confronto que cada vez menos promete vir a ser justa e equitativa.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

SEM PRECEDENTES…

O inqualificável atentado contra o corpo redactorial do semanário satírico CHARLIE HEBDO tem merecido um forte repúdio da comunidade em geral. Não será pois motivo de espanto saber que «Mais de um milhão marcham contra o terrorismo em Paris», ou que «Líderes mundiais comandam marcha contra terrorismo em Paris».

Além das imagens dos milhões de europeus que se manifestaram nas ruas de várias das suas cidades, têm-se sucedido as homenagens dos colegas de ofício através das mais variadas imagens, como estas lágrimas tricolores a que o holandês Hajo de Reijger designou por “Tinta, Lágrimas e Sangue”…


estas “Plumas caídas” do cubano Angel Boligan…

ou esta excelente alegoria do austríaco Petar Pismestrovic, que representa em simultâneo uma lúcida antevisão de como se desenvolverá a comunidade de criativos.


A importância de divulgar a reacção duma comunidade, seja ela considerada numa perspectiva ampla ou mais localizada, levou a que a realização duma «Manifestação "sem precedentes" em Paris junta milhares na Europa»; lamentável é que esta tenha terminado sob a vergonha de sabermos que, num claro desrespeito pelos princípios que dizem defender e pelos milhões que deveriam ter liderado, afinal os «Líderes estrangeiros desfilaram 20 minutos em Paris», limitando-se a percorrer uma centena de metros e a posar para as fotografias da praxe que a imprensa utilizará na promoção das suas carreiras.

Tudo indica que outras loucuras se seguirão ao ataque ao CHARLIE HEBDO, mas depois disto alguém ficará verdadeiramente espantado?

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

JE SUIS CHARLIE

Depois do atentado contra o jornal satírico francês CHARLIE HEBDO, que custou a vida uma dezena dos seus principais colaboradores e a dois agentes de segurança, as páginas dos jornais encheram-se com uma simbólica frase de apoio: “Je suis Charlie”.


Dizermos-nos “Charlie” significará, depois das mortes de figuras como o seu director Charb (Stéphane Charbonnier), Cabu (Jean Cabut) um dos maiores cartoonistas franceses, Georges Wolinski (também autor de banda desenhada e uma das figuras popularizadas pelo Maio de 68 nas páginas da revista Action), Tignous (Bernard Verlhac), Honoré (Philippe Honoré) e Bernard Maris (Oncle Bernard) que partilhamos a necessidade de reafirmar os valores fundamentais da liberdade de pensamento e de expressão, valores que certas correntes fanáticas não conseguem entender.

Sob a mira de organizações extremistas islâmicas desde 2006, quando em solidariedade com o jornal dinamarquês “Jyllands-Posten” publicou um conjunto de caricaturas de Maomé, alvo dum atentado à bomba em 2011 e agora decapitado nas suas principais figuras resta esperar que o “Charlie” sobreviva e renasça mais forte e mais convicto. A sanha de que agora foi alvo só pode traduzir-se num reforço que, a crer na “leitura” do caricaturista holandês Joep Bertrams, acontecerá seguramente…


Além da grave dimensão de desrespeito pela vida humana, a aparente frieza com que o atentado foi executado remete a sua análise para uma outra dimensão: a dos grupos radicais islâmicos e anti-islâmicos a quem só interessa o uso da força pela força. Para estes a melhor resposta é precisamente a sátira iconoclasta – que nunca poupou católicos, protestantes, muçulmanos, judeus, políticos e demais figuras públicas – praticada nas páginas do CHARLIE HEBDO.

Por isso, julgo bem mais adequado substituir a afirmação “Je suis Charlie” por algo mais empenhado e resiliente, como “Je serai toujours Charlie”, porque o humor verrinoso e cáustico continuará a ser a melhor forma de denunciar e combater um mundo que se quer submetido a ideias feitas e raramente adequadas ao interesse geral.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

EURO-TENSÕES

Não foi por acaso que escrevi no “post” «PRESENTE ESCONDIDO» que «2015 pode bem vir a ser o ano de todos os perigos...», pois além duma conjuntura mundial pouco estável junta-se o facto da Europa registar ao longo do ano processos eleitorais em 10 dos seus 28 estados-membros, com a agravante de nalguns deles se prefigurarem cenários de clara mudança política ou, no mínimo, de grande alteração no seu xadrez político.


É claro que o caso mais falado no momento é o da Grécia (especialmente abordado no “post” «2015») ou não estivesse claramente em causa a hipótese de continuidade do modelo político-económico que tanto tem favorecido o sector financeiro; mas a par deste também a Croácia, a Dinamarca, a Espanha, a Estónia, a Finlândia, a Polónia, a Suécia, o Reino Unido e Portugal conhecerão eleições legislativas ao longo do ano enquanto a França terá eleições locais.

A importância do calendário eleitoral europeu resulta principalmente duma reconhecida deriva xenófoba e isolacionista, resultante da clara incapacidade das elites políticas para lidarem com o processo de construção europeu a par com a desagregação das suas próprias sociedades. Com o modelo da globalização a aproximar-se perigosamente do esgotamento, com as economias domésticas dilaceradas pelas políticas de deslocalização e de desregulamentação, espartilhadas entre a quase total ausência de crescimento económico e um desemprego persistente, antevêem-se sérias probabilidades de mudança nos panoramas políticos nacionais, a principal das quais poderá ocorrer já este mês na Grécia.

Numa época em que é visível o descrédito e a rejeição do sistema partidário e voltam a despertar partidos radicais, regista-se também o aparecimento de movimentos mais ou menos inorgânicos que estão a atrair os cidadãos para o debate político. Se no caso do Reino Unido, da Finlândia e da Suécia (a par com a França) se assiste à emergência de partidos nacionalistas e anti-europeus, já no caso espanhol a grande novidade (e incógnita) será um movimento como o Podemos que, conjuntamente com os gregos do Syriza, defende abertamente uma abordagem para a questão da dívida pública em oposição à solução ordoliberal da “austeridade-expansionista”.

Um bom resultado dos independentistas britânicos do UKIP ou da Frente Nacional francesa constituirá um severo revés para a ideia da União Europeia, mesmo considerando que o “diktat” ordoliberal a vem enfraquecendo substancialmente, o mesmo podendo acontecer em caso de reforço dos populistas suecos do SD (Democratas Suecos), já em Março. Esta situação parecia impensável há um par de anos, mas o xadrez europeu evoluiu num sentido de extrema volatilidade a ponto de na própria Suécia (país tradicionalmente conotado com um clima de estabilidade política e de grande abertura ao acolhimento de refugiados) se antever agora uma significativa mudança nesse capítulo.

Numa Europa onde o ideal da cooperação tem vindo a ser abandonado e os cidadãos vêm preteridos os valores da coesão social parecem criadas todas as condições para transformar este ciclo eleitoral em algo mais que a habitual alternância política instituída pelos partidos tradicionais. Se tal se traduzirá, ou não, em melhoria das suas condições de vida só o tempo o dirá.

sábado, 3 de janeiro de 2015

PRESENTE ESCONDIDO

A crer em analistas e observadores bem mais abalizados que os políticos que nos têm governado, 2015 pode bem vir a ser o ano de todos os perigos...

A crise financeira despoletada em 2008 continua por resolver e o clima de aparente normalidade esconde mal o vulcão que permanece activo e a acumular razões para voltar a explodir. À sucessão de eventos recentes (como o reacender do conflito no Médio Oriente ou a crise ucraniana e os seus reflexos sobre o preço do petróleo), à insistência na conclusão/aprovação do TTIP (Transatlantic Trade and Investmente Partnership), juntou-se no final do ano passado a aparente novidade de ver, como disse o EXPRESSO, «O mesmo desejo de fim de ano: BCE e FMI querem mais estímulos monetários em 2015».

Desiluda-se porém, quem queira ver nesta concordância qualquer sinal de melhoria para a situação mundial. Tal como há umas semanas o Congresso norte-americano voltou a defraudar as expectativas dos que desde 2008 se batem pelo regresso a uma regulamentação mais restritiva sobre o sistema financeiro, dando assim mais um “presente” a Wall Street...


... pois bastará ler o artigo que a Directora-geral do FMI, Christine Lagarde, fez publicar no jornal italiano IL SOLE 24 ORE para melhor entender a verdadeira finalidade dos estímulos monetários.

É verdade que naquele artigo a Srª Lagarde defende a necessidade de «...de melhores leis para as para-bancárias, controle mais rígido do sistema bancário sombra e maior protecção e transparência nos mercados de derivativos, é preciso um maior esforço para resolver a falta de dados sobre o sector financeiro, de modo que os reguladores possam avaliar adequadamente os riscos para a estabilidade financeira», mas de imediato abandona o que poderia ser interpretado como uma posição de maior dureza para dizer que «...acima de tudo, deve haver uma alteração na cultura do sector financeiro. A principal função da finança é oferecer serviços aos parceiros económicos, o que é impossível se não houver confiança daqueles que dependem desses serviços, ou de todos nós».

Em resumo, apesar de iniciar a sua análise dizendo que actualmente os «...governos, parlamentos e os bancos centrais enfrentam três opções: lutar para o crescimento ou resignar-se à estagnação, melhorar a estabilidade ou o risco de sucumbir à fragilidade, agindo em conjunto ou isoladamente», a Srª Lagarde afirma mais adiante que «[p]ara dar um novo impulso, além de reformas estruturais, será preciso recorrer a todas as alavancas possíveis para apoiar a procura global»; ora como bem sabem os “banksters” de Wall Street e do resto do Mundo, preconizar a alavancagem é assegurar a sua continuidade e a das práticas que levaram a economia mundial à situação em que se encontra.