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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

POBREZA

Embora já tenha decorrido mais dum lustro desde o despoletar crise do “subprime” os seus efeitos sobre as populações teimam em perdurar; seja por inépcia ou porque essa é a estratégia que pretendem seguir, os vários governos das diferentes grandes economias pouco ou nada fizeram no sentido de corrigir os gritantes desmandos que conduziram a generalidade daquelas economias ao estado em que se encontram.

Seja nos EUA, no Japão ou nos principais países da UE continua por realizar um esforço sério para a implementação duma regulamentação eficaz do sector financeiro – seja na indispensável separação entre as actividades comercial e de investimento seja na revisão das regras de funcionamento dos “offshores” – enquanto se assiste ao fracasso de quase todas as tentativas de revitalização das economias por via das políticas de injecção de liquidez que inevitavelmente se esboroam nas insaciáveis necessidades dos bancos.

Enquanto isto, seja por opção seja por real escassez de financiamentos os sectores produtores de bens transaccionáveis definham agravando o problema do desemprego. Desde que há algumas décadas, fruto da generalização das teorias monetaristas que defendem o principio do “trickle down economics”, se deu início ao processo de concentração de riqueza por via da redução dos rendimentos das famílias em benefício dos rendimentos do capital, no pressuposto que aquela concentração geraria mais investimento e mais empregos, que a situação das populações se tem agravado, a ponto de se afirmar já que estará «Metade da riqueza mundial nas mãos de 1 por cento da população».


Além da constatação prática do fracasso da teoria do “trickle down economics”, verifica-se ainda que crise iniciada em 2008 nos EUA e o seu prolongamento na Zona Euro através do empolamento que as dívidas públicas sofreram para resgatar o sistema financeiro foi usado para justificar a aplicação de políticas de austeridade através das quais «“Está a criar-se uma nova geração de pobres”», sem que se reduza o endividamento ou se estimule a economia.

No caso específico de Portugal e quando em Maio próximo se cumprirem 4 anos desde a assinatura do PAEF (Programa de Assistência Económica e Financeira) teremos passado dum volume de dívida da ordem dos 94% do PIB para um nível onde a «Dívida pública representava 129,4% no PIB no 2.º trimestre» de 2014, pelo que dificilmente se poderá afirmar que a finalidade do resgate era a redução da dívida…


mas em contrapartida já é garantida a situação que colocou «Um em cada cinco portugueses em risco de pobreza» e pior ainda quando o EUROSTAT divulgou que o número de agregados familiares com pessoas desempregadas «Um indicador de pobreza duplicou em 2013 em Portugal».

Assim, a afirmação de que «"Ter emprego não é uma vacina contra a pobreza"» traduz afinal o facto das políticas implementadas estarem a contribuir para um processo de empobrecimento generalizado, mesmo que Passos Coelho afirme que «Dados do INE sobre risco de pobreza "não reflectem situação actual"». Se isto não for julgado suficiente para justificar a necessidade de mudança nas políticas junte-se o facto, cada vez mais reconhecido, do desenvolvimento tecnológico estar a reduzir a quantidade de mão-de-obra necessária. Numa época em que a par com a sobrevalorização da produtividade (indicador que conjuga os factores capital e trabalho) se assiste a uma constante redução de postos de trabalho, fácil se torna antever que de futuro não existirá procura suficiente para a oferta natural de mão-de-obra, o que reforça a conclusão da indispensabilidade de um novo paradigma laboral, que se não for entendido pelos poderes estabelecidos acabará, inevitavelmente, por ser imposto pelos milhões de excluídos.

sábado, 14 de agosto de 2010

ANO INTERNACIONAL DA JUVENTUDE

Anunciado na Assembleia Geral da ONU da passada quinta-feira, com a habitual pompa e circunstância, eis-nos a viver um período de doze meses durante o qual é suposto que os poderes mundiais dediquem parte significativa da sua atenção a resolver os problemas que afectam directamente os mais jovens.

Ironicamente, ou não, simultaneamente com as notícias da iniciativa surgiram outras sobre o mais recente relatório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) sobre a situação dos jovens no mercado de trabalho e o cenário apresentado não podia ser mais chocante. Segundo aquele documento entre 2007 e 2009, surgiram em todo o mundo mais 7,8 milhões de desempregados entre os 15 e os 24 anos de idade elevando o número de jovens desempregados aos 80,7 milhões, número que representa 13% da população activa daquela faixa etária.


E não se pense que este é um problema das economias menos desenvolvidas, pois é nas mais desenvolvidas que a taxa atinge os valores mais altos (17,7%) e as perspectivas da OIT para o ano em curso apontam para que se alcancem os 19%, nem que a situação portuguesa é sequer semelhante, pois segundo dados do INE (consultáveis aqui) aquela taxa atingiu no primeiro trimestre deste ano os 22,7%.

Perante dados desta natureza que poderemos esperar do Ano Internacional da Juventude? Salvo as habituais iniciativas mediáticas que terão os governantes para oferecer a estes jovens?

Pior, teremos nós, a geração que os originou e que conduziu os destinos das economias ao ponto em que estamos, capacidade para os compensarmos e não originarmos, como há dias escreveu no seu editorial o LE MONDE, uma «geração perdida»?

É que aos mais de 80 milhões de jovens desempregados é preciso juntar ainda os 152 milhões de jovens (cerca de 28% da população activa daquela faixa etária) que recebem um salário inferior a UM EURO diário. Embora esta realidade extrema nos possa parecer estranha, confortados que estamos com a fixação de um salário mínimo nacional de 475€, não podemos esquecer que mesmo assim grande número dos jovens portugueses sofrem do mesmo fenómeno de exclusão social, pois comparativamente com as faixas etárias mais velhas apresentam melhores níveis de escolaridade e auferem salários invariavelmente inferiores.

Sobre este fenómeno já em Julho de 2007 escrevia a jornalista Carla Aguiar no DN que o «....afunilamento do mercado de trabalho, com a economia deprimida e a administração pública a reduzir contratações, está a empurrar cada vez mais jovens para o desemprego ou para o trabalho ocasional. As escassas oportunidades de emprego [...] surgem em regime de trabalho temporário, com contratos renováveis de três meses. Muito em particular, no sector dos call centers, onde mais têm crescido as ofertas de trabalho, empregando já cerca de 50 mil pessoas. Porém, apesar de as licenciaturas serem comuns nos centros de atendimento de chamadas, os salários são baixos e incertos. É a chamada "geração dos 500 euros"» e esta situação em pouco ou nada se alterou desde essa data. Os nossos jovens continuam a sair das escolas e ser submersos num mundo laboral onde há muito deixaram de imperar critérios de conhecimento e qualidade para passarem a vigorar o compadrio e o nepotismo agora agravados pela precariedade e pelos baixos salários que a crise tão generosamente oferece ao exército de desempregados que gerou.

A última esperança que me resta é que a apreciação do LE MONDE seja demasiado pessimista e que os jovens de agora ainda consigam superar as suas actuais dificuldades de forma idêntica à que nós conseguimos na década de 80 e que eles, ao contrário de nós, consigam proporcionar aos filhos uma economia (e uma sociedade) melhor que a que nós construímos para eles.