quarta-feira, 1 de setembro de 2010

NÓS E OS OUTROS

Com o fim do tradicional período de férias estivais, junta-se ao habitual regresso às aulas para os mais jovens a chamada “rentrée” política, que no plano europeu tem estado a ser marcada pela polémica decisão do governo francês, liderado por Nicolas Sarkozy, de proceder à expulsão de um elevado número de famílias ciganas naturais da Roménia.

Baseado no princípio imposto pelos países da Europa Central quanto à movimentação e instalação dos naturais da Roménia e da Bulgária aquando da adesão daqueles dois países à UEE, sequioso de melhorar a sua imagem eleitoral (principalmente junto dos sectores mais conservadores) o governo francês decidiu proceder à expulsão de famílias de etnia cigana.Esta decisão do governo conservador de Sarkozy poderia não ter atingido as proporções que está atingir não fossem as anteriores polémicas declarações do actual Presidente (quando em 2005, então como Ministro do Interior, apelidou os manifestantes dos arrabaldes de Paris escumalha e ameaçou “limpar a zona à mangueirada”) ou as actuais do Ministro do Interior em exercício e a anunciada intenção de vir a retirar a cidadania aos cidadãos de origem estrangeira envolvidos na prática de crimes, numa clara e directa ligação entre emigração e criminalidade.


Em resumo, em provável consequência do escândalo financeiro Woerth-Bettencourt e seguramente como reflexo da queda da sua popularidade, o exuberante Sarkozy deu início a uma campanha que em boa medida os seus opositores apelidam de xenófoba. O próprio LE MONDE (jornal francês reputado internacionalmente e correntemente designado como moderado) já se envolveu na polémica e de forma particularmente dura para o inquilino do Eliseu, que num editorial assinado pelo seu Director, Eric Fottorino, escreveu há uns dias: «Depois da “escumalha” e da “mangueirada”, imagens de marca do sarkozismo, depois da criação do ministério da identidade nacional e da imigração, comparação duvidosa sugerindo que a segunda ameaça a primeira, o presidente ergueu ele próprio o muro. O dos preconceitos, dos estereótipos, dos inimigos do interior. O da desconfiança entre Eles e Nós, entre a França dos “verdadeiros” franceses e o sofrimento de todos os que não roubam nem matam, mas carregam o estigma do estrangeiro. Raramente foi tão curto o caminho entre o amor próprio e o ódio aos outros

Aberta a polémica, inflamadas as paixões (algo tanto mais fácil quanto os tempos de incerteza mantém altas as taxas de desemprego), bem podem vir agora os panegiristas do inefável Sarkozy lembrar que os críticos têm responsabilidades históricas (como o fez o conselheiro presidencial Alain Minc a propósito da reacção do Vaticano à expulsão dos ciganos), a milenar questão da resistência à integração das comunidades ciganas, ou mesmo tentar dourar a pílula mediante a organização de um encontro para debater o tema da imigração; o que realmente ressalta de todo este imbróglio é que a par das tradicionais dificuldades na integração das comunidades errantes (seja por vontade própria ou dos poderes estabelecidos), sociedades ditas modernas e esclarecidas continuam a permitir o aflorar dos sentimentos mais primários que há pouco menos de um século e na sequência daquela que então era a maior crise económica de sempre conduziram à emergência de regimes nacionalistas, fascistas e militares.

Estigmatizando hoje os ciganos, amanhã os negros e todos os dias os muçulmanos, caminhamos alegremente, numa Europa que se quis farol de liberdades e de direitos cívicos, para a destruição do principal de todos os princípios e valores: ninguém deve ser discriminado em função da sua origem, raça ou credo.

domingo, 29 de agosto de 2010

A NOVA NEW ORLEANS NÃO É PARA POBRES

Decorridos cinco anos sobre a data em que o furacão Katrina se abateu sobre a cidade norte-americana de New Orleans é interessante que a par das muitas notícias que dão conta dos milhões e dos esforços dispendidos na reconstrução da cidade, outras haja, como esta da correspondente do PUBLICO em Washington, que não deixem esquecer que o que tem sido feito tem privilegiado a recuperação das zonas mais ricas em detrimento dos bairros pobres. 


Lembrando que aquela cidade não é para pobres, refere anacronismos como o facto do Charity Hospital (um dos maiores do país) continuar encerrado, privando as populações mais carenciadas de cuidados básicos de saúde, o facto das rendas imobiliárias terem disparado para valores que são o dobro ou triplo das praticadas à data da catástrofe e de continuar por conhecer o número real de vítimas (embora o EXPRESSO na sua última edição fale em mais de 1800 mortos, um milhão e meio de refugiados e 81 mil milhões de dólares de prejuízos materiais), apetece concluir que a indiferença continua a ser uma importante motivação para os negócios.

sábado, 28 de agosto de 2010

IRÃO OU NÃO...

Enquanto continuam a surgir notícias em torno do Irão e do seu programa de desenvolvimento nuclear, que vão desde o anúncio ao início da actividade da central nuclear de Bushehr, aos ecos das reacções israelitas e das preocupações internacionais sobre aquele anúncio, outras há que aparentemente diversas devem ser vistas como directamente ligadas.


Assim, não será de estranhar que ao recente anúncio da retirada das tropas americanas do Iraque, com a consequente disponibilização de homens e equipamento para outros cenários ou hipóteses de conflito, e na sequência do agravamento das sanções económicas decididas pela comunidade internacional (sob o alto patrocínio e o grande impulso dos EUA) o regime iraniano tenha respondido com o anúncio do desenvolvimento de novo armamento convencional, nomeadamente a apresentação de um avião bombardeiro não tripulado e a intenção de produção de lanchas rápidas equipadas para o lançamento de mísseis.

Conhecidos que são há alguns anos os planos do Pentágono para estender a guerra no Médio-Oriente ao Irão e à Síria (quem esqueceu já as inflamadas declarações daqueles responsáveis durante a administração Bush) e a mudança que introduziram nos conceitos e nas normas de uso do seu arsenal nuclear, que na sequência do 11 de Setembro deixou de considerar o recurso a armamento nuclear como resposta retaliadora para o passar a considerar como recurso preventivo, as notícias mais recentes e o tom crescentemente ameaçador dos responsáveis israelitas (tradicionais aliados dos americanos e como estes detentores de um arsenal nuclear) não pode senão aumentar os receios de nova escalada bélica na região.


Enquanto comentadores e analistas ocidentais se desdobram nos esforços de explicar a inevitabilidade do “assalto ao Irão” (descrevendo o inexistente armamento nuclear iraniano como uma ameaça enquanto desvaloriza os evidentes efeitos do uso dos arsenais nucleares americano e israelita)e o regime iraniano parece apostado numa estratégia à maneira de Saddam (ameaçando retaliações e outros malefícios ao Ocidente), corremos cada vez mais o risco de ver concretizada a profecia de Einstein que um dia terá dito que ignorava que tipo de armamento seria utilizado numa III Guerra Mundial, mas tinha a certeza que a IV seria disputada à pedrada.

Humor à parte, cada vez parecemos mais próximo de sermos arrastados para um conflito que longe do efeito pacificador e dissuasor que alguns lhe atribuem pode arrastar os vizinhos Rússia e China (duas outras potência nucleares e ambas membros activos da SCO (Shanghai Cooperation Organization) que é uma aliança militar que além dos seis estados fundadores – China, Kazaquistão, Kyrgistão, Rússia, Tajiquistão, e Uzbequistão – inclui como observadores o Irão e mais duas potências nucleares, a Índia e o Paquistão) para um confronto de contornos e de desfecho militar imprevisível, mas de seguros malefícios para o Planeta e para as suas populações.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

CABRAS-BOMBEIRO

À primeira vista, esta notícia do JORNAL DE NEGÓCIOS em plena “silly season” pareceu-me particularmente adequada à época; porém, uma segunda leitura levou-me a outras e a olhar a ideia de forma mais adequada.


Afinal se uma das principais razões para o flagelo dos fogos florestais é o abandono a que as macrocéfalas políticas de gestão do território conduziram vastas áreas do interior da Península Ibérica, talvez uma iniciativa tão simples como a repovoação de caprinos nas serranias do interior constitua uma medida significativa no combate aos cada vez mais tradicionais incêndios de Verão.

Os governos ibéricos dizem-se dispostos a investir cerca de 50 milhões de euros, nas zonas raianas dos distritos da Guarda, Bragança, Zamora e Salamanca, na aquisição de 150 mil cabeças de gado caprino, na construção de 12 queijarias, uma central de comercialização, 15 lojas e dois matadouros para abate dos animais (um em Portugal e outro em Espanha); estes e outros serviços, deverão originar receitas anuais estimadas em 30 milhões de euros, e cerca de 550 postos de trabalho.

Os promotores do projecto – Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial (AECT) Duero-Douro – esperam atrair algum investimento privado, mas o mais certo é este vir a depender apenas da componente pública o que não deixará de ser irónico pois os foram os poderes públicos os primeiros responsáveis pelas políticas de deslocalização das populações quando concentraram no litoral a maioria dos investimentos nas áreas de apoio às populações, votando o interior e as suas populações envelhecidas ao abandono.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

QUO VADIS IRAQUE?

A imprensa mundial tem difundido amplamente a notícia de que a «Última brigada de combate norte-americana retira do Iraque», mas talvez o principal continue por dizer.

É certo que esta iniciativa respeita os princípios enunciados por Barack Obama, quando prometeu a retirada das tropas americanas até final de 2011, pois as cinco dezenas de milhar de soldados remanescentes terão como missão o apoio ao exército iraquiano, sem envolvimento directo em acções ofensivas, mas a questão fulcral permanece sem resposta e longe dos olhares mundiais.

Os EUA depois de invadirem um país soberano e de terem destruído as suas estruturas militares e civis, preparam-se para o abandonar sem que as condições mínimas de governabilidade e de sustentabilidade do país pareçam restabelecidas.


Já não é apenas o funcionamento das estruturas de apoio ao bem-estar que está em questão. A potência ocupante que, desrespeitando todas as regras internacionais derrubou o regime de Saddam Hussein, abandona agora os iraquianos sem que no território exista sequer uma forma estável de governo, pois continua por assegurar a formação de um governo na sequência das eleições que tiveram lugar em Março deste ano.

Usando a estratégia de dividir para reinar, de que usou e abusou o Império Britânico, também o Império Americano, depois de ter exacerbado os velhos ódios entre sunitas, xiitas e curdos, se prepara para abandonar as populações à sua sorte.

Deixados à míngua de quase tudo, restará aos iraquianos a solução de se digladiarem entre si até que um novo senhor da guerra emirja, subjugue os restantes e agrade ao poder imperial norte-americano.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

MÃOS VAZIAS

 
Foi a primeira imagem que me ocorreu ao ler no I que «Desempregados e deprimidos: jovens fogem em massa do mercado laboral» e o mais grave é quando se confirma (estatisticamente) essa tendência de quebra acentuada na entrada de jovens no mercado de trabalho

e quando, mesmo assim, se regista um elevado número de desempregados naquela faixa etária


Quando esta indisfarçável realidade nem sequer consegue ser atenuada pelo aumento da taxa de escolaridade (havia em 2009 menos jovens a frequentar o ensino superior que no início da década)

será preciso acrescentar algo mais a este negro cenário?

sábado, 14 de agosto de 2010

ANO INTERNACIONAL DA JUVENTUDE

Anunciado na Assembleia Geral da ONU da passada quinta-feira, com a habitual pompa e circunstância, eis-nos a viver um período de doze meses durante o qual é suposto que os poderes mundiais dediquem parte significativa da sua atenção a resolver os problemas que afectam directamente os mais jovens.

Ironicamente, ou não, simultaneamente com as notícias da iniciativa surgiram outras sobre o mais recente relatório da OIT (Organização Internacional do Trabalho) sobre a situação dos jovens no mercado de trabalho e o cenário apresentado não podia ser mais chocante. Segundo aquele documento entre 2007 e 2009, surgiram em todo o mundo mais 7,8 milhões de desempregados entre os 15 e os 24 anos de idade elevando o número de jovens desempregados aos 80,7 milhões, número que representa 13% da população activa daquela faixa etária.


E não se pense que este é um problema das economias menos desenvolvidas, pois é nas mais desenvolvidas que a taxa atinge os valores mais altos (17,7%) e as perspectivas da OIT para o ano em curso apontam para que se alcancem os 19%, nem que a situação portuguesa é sequer semelhante, pois segundo dados do INE (consultáveis aqui) aquela taxa atingiu no primeiro trimestre deste ano os 22,7%.

Perante dados desta natureza que poderemos esperar do Ano Internacional da Juventude? Salvo as habituais iniciativas mediáticas que terão os governantes para oferecer a estes jovens?

Pior, teremos nós, a geração que os originou e que conduziu os destinos das economias ao ponto em que estamos, capacidade para os compensarmos e não originarmos, como há dias escreveu no seu editorial o LE MONDE, uma «geração perdida»?

É que aos mais de 80 milhões de jovens desempregados é preciso juntar ainda os 152 milhões de jovens (cerca de 28% da população activa daquela faixa etária) que recebem um salário inferior a UM EURO diário. Embora esta realidade extrema nos possa parecer estranha, confortados que estamos com a fixação de um salário mínimo nacional de 475€, não podemos esquecer que mesmo assim grande número dos jovens portugueses sofrem do mesmo fenómeno de exclusão social, pois comparativamente com as faixas etárias mais velhas apresentam melhores níveis de escolaridade e auferem salários invariavelmente inferiores.

Sobre este fenómeno já em Julho de 2007 escrevia a jornalista Carla Aguiar no DN que o «....afunilamento do mercado de trabalho, com a economia deprimida e a administração pública a reduzir contratações, está a empurrar cada vez mais jovens para o desemprego ou para o trabalho ocasional. As escassas oportunidades de emprego [...] surgem em regime de trabalho temporário, com contratos renováveis de três meses. Muito em particular, no sector dos call centers, onde mais têm crescido as ofertas de trabalho, empregando já cerca de 50 mil pessoas. Porém, apesar de as licenciaturas serem comuns nos centros de atendimento de chamadas, os salários são baixos e incertos. É a chamada "geração dos 500 euros"» e esta situação em pouco ou nada se alterou desde essa data. Os nossos jovens continuam a sair das escolas e ser submersos num mundo laboral onde há muito deixaram de imperar critérios de conhecimento e qualidade para passarem a vigorar o compadrio e o nepotismo agora agravados pela precariedade e pelos baixos salários que a crise tão generosamente oferece ao exército de desempregados que gerou.

A última esperança que me resta é que a apreciação do LE MONDE seja demasiado pessimista e que os jovens de agora ainda consigam superar as suas actuais dificuldades de forma idêntica à que nós conseguimos na década de 80 e que eles, ao contrário de nós, consigam proporcionar aos filhos uma economia (e uma sociedade) melhor que a que nós construímos para eles.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

PÃO E OPORTUNISMO

Embora não tenham faltado nos últimos dias notícias sobre um muito próximo aumento do preço do pão, poucas têm sido as que colocam a questão de forma adequada. Os industriais do ramo justificam os aumentos refugiando-se no argumento da subida do preço mundial das matérias-primas, que esta notícia parece confirmar.

Sucede porém que, como muito bem se refere no fecho desta notícia do ECONÓMICO, «...a recente subida de preços das “commodities” agrícolas em termos internacionais a ter impacto este ano, só "será reflectido dentro de 3 a 6 meses". Uma situação que se justifica pela forma como se processa a negociação de matérias-primas nos mercados internacionais: através de contratos de futuros e de “forwards”»; mais, o pico registado nos mercados internacionais coincidiu com a notícia da suspensão das exportações de cereais russos, na sequência da seca e dos fogos que têm atingido aquele país.

Na prática o indicador que as associações industriais do ramo da panificação estão a utilizar para justificar a pretensão dos aumentos não constitui mais que uma consequência da especulação que de pronto se abateu sobre o mercado dos cereais logo que foi conhecida a decisão russa.

E para provar que tudo o que se tem dito não passará de uma mera manobra, recordo que simultaneamente se fizeram ouvir apelos à liberalização das importações de cereais dos EUA e do Canadá (como refere esta notícia do PUBLICO), prática que introduzirá nos mercados europeus aos OGM que aquele países produzem.

Na prática a verdadeira preocupação dos industriais da panificação não é o aumento do custo da matéria-prima (que a verificar-se apenas ocorrerá num período de seis meses) mas sim a possibilidade de importação de matéria-prima mais barata mas de questionável efeito para a saúde pública.

Se nos tempos do velho Império Romano foi sobejamente testado o princípio do “panem et circenses” com o importante objectivo de manter controlada a populaça, como então se dizia (hoje ainda se diz em alguns círculos, mas não é politicamente correcto…), como qualificar hoje esta estratégia, que podia bem ser designada de “pão e oportunismo”?

sábado, 7 de agosto de 2010

MAIS EDUCAÇÃO

Depois de ler a notícia do DN que assegura que «'TurmaMais' reduz em um terço o insucesso escolar» não resisto a retomar a polémica em torno da entrevista que a ministra da Educação deu, na passada semana, ao EXPRESSO e a famigerada questão do fim dos chumbos, pois aquele pode até constituir um bom exemplo do que afirmei no “post” anterior a propósito da necessidade de maior contenção e ponderação. 


Talvez que se Isabel Alçada tivesse iniciado o discurso com os resultados (aparentemente positivos) da experiência, para concluir que talvez este pudesse ser um caminho para vir a alcançar a desejada redução das retenções, ter-se-iam minimizado as possibilidades do eclodir da polémica e, principalmente, evitado todo o “ruído” que de imediato se produziu.

Atendendo à interligação das notícias, o próprio “timing” da informação ou foi desastrosamente gerido pelo Ministério da Educação ou criteriosamente gerido pelos órgãos de informação; em qualquer dos casos a notícia sobre os ensaios realizados durante o último ano lectivo, ao nível do 7º ano de escolaridade, com a criação de uma turma adicional pela qual circularam todos os alunos daquele ano (solução que potenciou o trabalho dos docentes com um número menor de alunos, logo com um melhor acompanhamento) coloca de imediato a questão de saber porque é que ainda em Maio último o secretário de Estado da Educação afirmou à Lusa (conforme esta notícia do DN) a rejeição da redução do número de alunos por turma como forma de melhorar o aproveitamento e a disciplina nas escolas.

Será que o secretário de Estado ignorava o projecto que estava a decorrer ou, simplesmente, estas questões são geridas principalmente em função das agendas políticas dos governantes e dos opositores?

Quanto mais tempo teremos que esperar até vermos questões basilares de qualquer sociedade, como a educação, a justiça, as finanças, serem objecto de definições programáticas a médio/longo prazo, no quadro das competências parlamentares, em vez de servirem de argumentos de arremesso entre políticos medíocres.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

GRANDES NEGÓCIOS

A notícia ontem publicada pelo ECONÓMICO de que «PT não paga imposto sobre lucro da venda da VIVO» (também hoje abordada pelo PUBLICO que assegura que «Só os pequenos investidores serão tributados na venda da VIVO»), constitui uma clara evidência de uma das origens da crise que atravessamos, crise que, como muitas vezes tem sido referida, vai muito além da esfera económica.
Á crise económica e financeira junta-se a medonha crise de valores éticos que esteve na origem daquela. Quem já esqueceu o papel determinante que teve a especulação desenfreada e desregrada (ao abrigo dos princípios mais radicais do liberalismo económico) no colapso do sistema financeiro norte-americano? ou a simples popularização da ideia do enriquecimento rápido e baseado num despudorado oportunismo, tantas vezes toscamente mascarado de oportunidade?



Embora em aparência a questão da tributação das mais-valias pareça resumir-se a uma questão do foro fiscal, o que ela na realidade revela é um elaborado mecanismo de concentração da riqueza. Quando, a pretexto da defesa do crescimento económico de regiões ditas desfavorecidas, se elaboraram leis prevendo isenções fiscais para empresas e negócios o resultado acaba por ser o favorecimento destas e dos seus proprietários em detrimento do resto das populações.

Será preciso, em especial na actual conjuntura, recordar que cada cêntimo assim escamoteado aos cofres públicos é mais um cêntimo que os poderes públicos exigirão a todos os não accionistas das PT’s que pululam por esse mundo fora?

É esta a justa repartição de esforços que os políticos que nos têm governado entendem adequada? ou, pelo contrário, tudo isto não passa de mais uma clara demonstração da forma como temos vindo a ser esbulhados da riqueza que produzimos?
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NOTA: Este "post" foi originalmente publicado no dia 03 de Agosto; dificuldades na inserção da imagem fizeram com que hoje, após a sua resolução, a ele tenha regressado originando a sua republicação com a  data actual.

IDEIAS PRÓPRIAS

Dois jornais nacionais (o semanário EXPRESSO e o DIÁRIO DE NOTÍCIAS) publicaram nos últimos dias duas entrevistas com altos responsáveis por duas das áreas mais sensíveis para qualquer sociedade: a educação e a justiça.

Independentemente das polémicas geradas pelas declarações da ministra da Educação, Isabel Alçada, sobre a intenção de acabar com os chumbos (prontamente criticada por quase todos os quadrantes) ou do Procurador-geral da República, Pinto Monteiro, sobre a exiguidade dos seus poderes (tão rapidamente criticado quanto a primeira), o que gostava aqui de repescar é a aparente ligeireza com que questões com a gravidade das expostas, são difundidas na comunicação social por personalidades de quem se deve esperar maior contenção e ponderação.

Produzir declarações bombásticas para horas depois voltar a público para dizer que não disse bem o que foi dado ao prelo... não abona a favor das personalidades e ainda menos das políticas que dizem pretender aplicar.

Céptico como sou e perante o avolumar deste tipo de “casos” apetece-me perguntar: será que o que pretendiam não era precisamente gerar a polémica? tomar o pulso à opinião pública, para depois agirem em conformidade com as reacções?

Infelizmente, a repetição deste tipo de situações indicia que estaremos apenas perante personalidades enfeudadas ao culto do “politicamente correcto” e que decidem mais em função de ventos conjunturais que sustentadas nas suas próprias convicções. Tristemente, esta constatação apenas reforça a noção que tende a generalizar-se de que as diferenças entre os sucessivos ocupantes dos cargos de maior responsabilidade é cada vez menor, pois poucos são os que revelam disposição para defenderem ideias próprias, quando as têm....

sábado, 31 de julho de 2010

ESPIÕES SEM CONTROLO

Embora se tenha tornado comum dizer-se que já não existe jornalismo de investigação, de vez em quando ainda vai surgindo uma ou outra contestação a esta afirmação. Isso mesmo foi o que aconteceu em meados deste mês quando o THE WASHINGTON POST publicou um trabalho de investigação, efectuado por uma vintena de jornalistas, aos meandros do mundo da espionagem americana.

Sob o título genérico de TOP SECRET AMERICA, a equipa liderada pela jornalista Dana Priest expôs a ridículo o secretíssimo e sofisticadíssimo mundo da espionagem e da contra-espionagem na maior potência nuclear, revelando o caos e a anacronia que reina entre os especialistas que é suposto protegerem o “mundo livre” dos famigerados “terroristas” e demais maléficos espíritos que pululam em raiva e sanha contra as terras e os interesses do Tio Sam.


Os jornalistas asseguram que mais de 850 mil pessoas, repartidas por 1271 agências governamentais e 1931 empresas privadas, distribuídas por 10 mil locais diferentes nos EUA, coligem e analisam informação, fiscalizam a circulação de fluxos financeiros e produzem uns espantosos 50 mil relatórios por anos... que ninguém lê!

Mais, denunciam um universo de paranóia securitária onde os próprios espiões se espiam entre si (seja para assegurar o segredo, seja para suplantar a organização “rival”) a ponto de se ignorar a dimensão real de um “polvo” que além do ramo militar e público possui já tentáculos privados.

Há semelhança do registado nos teatros de guerra no Afeganistão e no Iraque, também no interior do seu próprio território e de áreas tão sensíveis a administração norte-americana não hesitou em entregar a empresas privadas tarefas relacionadas com a segurança interna.

E o cúmulo da hipocrisia são as declarações transcritas de altos responsáveis, como o secretário da Defesa, Robert Gates (o único elemento que transitou da administração de George W Bush para a de Obama), ou o director da CIA, Leon Panetta, quando se confessam preocupados com o papel das empresas privadas nas operações de recolha e tratamento de informação.

Esta questão não nunca deveria ter sido encarada de forma leviana, pois ao envolver questões de relevante interesse nacional e público – como é o caso da segurança dos cidadãos – não pode ser adjudicada a interesses particulares, como evidentemente são os dos accionistas e gerentes das empresas a quem estão adjudicadas aquelas tarefas.


A exposta multiplicação e redundância de serviços e funções parece não ter afectado particularmente as mais altas esferas da administração Obama e se o próprio THE WASHINGTON POST cita um responsável do Pentágono que, candidamente, terá afirmado que apesar de tudo é preciso lembrar que não voltou a haver nenhum grande atentado nos EUA depois do 11 de Setembro de 2001, já o director do National Intelligence (uma das agências de espionagem) não tem qualquer pejo em afirmar que a reportagem não espelha os serviços de informação como os conhecemos, o que nem sequer será de admirar pois no meio de semelhante confusão pouco mais deverão conseguir lobrigar que o seu próprio umbigo, o que me leva a concluir que a denúncia apresentada pelo THE WASHINGTON POST acaba por constituir um melhor serviço público que, a atestar pelas conclusões da investigação jornalística, aquele que as empresas de espionagem estão a cobrar aos contribuintes americanos.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A BOMBA AFEGÃ

Será mesmo correcto designar assim a divulgação no sítio Wikileaks de mais de 90 mil documentos sobre a guerra no Afeganistão, classificados como secretos, e que tem agitado o mundo dos meios de informação?


Mesmo se paralelamente, três publicações (a americana The New York Times, a inglesa The Guardian e a alemã Der Spiegel) receberam para divulgação o mesmo tipo de documentação e com títulos mais ou menos bombásticos têm vindo a revelar parte significativa da informação que consiste principalmente em relatórios das actividades de campo das tropas ocidentais os quais, basicamente, podem ser agrupados em três grandes linhas:

os que demonstram a ascensão dos talibans nos últimos seis anos;

• os que provam a ocultação de informação que vai desde as baixas civis não reportadas, as baixas provocadas por “fogo amigo”, até ao facto dos talibans disporem de mísseis terra-ar com sensores de calor;

• os que revelam o envolvimento estrangeiros, nomeadamente o do ISI (os serviços secretos paquistaneses), no apoio aos talibans.


A reacção da Casa Branca não se fez esperar e no mesmo dia em que a informação chegou à imprensa, logo a BBC divulgou a resposta oficial e o mal-estar da administração Obama pela “ameaça à segurança nacional” que representavam as notícias.

Sobre o conteúdo e em especial a gravidade da constatação da ocultação dos factos descritos, nenhuma referência, excepto a ressalva de que o período coberto pela informação agora divulgada era anterior à implementação da actual estratégia da Casa Branca, como se esta tivesse introduzido abissais diferenças relativamente à da administração Bush.

Igualmente digno de nota é o alarido e aparente estupefacção com que foi recebida a notícia do envolvimento do ISI no apoio aos talibans, apenas entendível para quem nos últimos anos tenha esquecido (ou tivesse a intenção de levar os outros a esquecer) a evolução dos acontecimentos na região. Desde os tempos da incursão do exército vermelho no território afegão (a qual, ao contrário da actual, sempre foi tratada pela imprensa ocidental como uma ocupação militar) que os EUA e os seus aliados estimularam e financiaram o Paquistão e os seus serviços secretos a fomentar a oposição àquela acção militar, pelo que não será de estranhar a existência de laços antigos entre operacionais dos dois campos, tanto mais que entre eles existe o laço comum do islamismo. Em finais de 2008 aludi no post «PORQUE FIZERAM CHORAR A ÍNDIA»à questão das ligações entre o ISI e os sectores mais religiosos mais radicais e já um ano antes, quando a situação política interna no Paquistão se degradava num braço-de-ferro entre a ditadura militar de Pervez Musharraf e o arremedo de democracia personificado por Benazir Bhutto, recordei a histórica ligação entre o ISI e a Al-Qaeda, no post «O DILEMA PAQUISTANÊS».

De uma forma ou de outra a administração Obama não sai propriamente reforçada de mais esta trapalhada, tanto mais que muita da informação agora publicada reforça claramente a ideia deixada pelo famigerado general McChrystal de que a ocupação do Afeganistão caminha a passos largos para um fiasco e volta a trazer à memória da América o inevitável paralelismo com o Vietname.


A fuga de informação agora registada tem ainda o inegável mérito de recordar que os tempos podem não ser muito diferentes da época da Guerra do Vietname e este continua, para o melhor e o pior, a constituir um fantasma que a sociedade americana nunca logrou exorcizar e ainda menos agora quando se discutem os milhões de dólares gastos nas guerras, no apoio ao “aliado” Paquistão , ou se anuncia, como fez hoje o EXPRESSO, que «Pentágono confirma que Bradley Manning é suspeito de fuga de documentos».

Já detido e acusado de ter difundido um vídeo que mostra um helicóptero “Apache” a disparar sobre civis afegãos (imagens colhidas em 2007), o jovem militar (22 anos), analista de informação, vê agora juntar-se mais esta acusação, a qual é confirmada na página de apoio que já tem na NET – HELP BRADLEY MANNING.

Á boa maneira americana, o “circo” parece preparado para enfrentar qualquer situação.

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NOTA: Por razões que ignoro os links, que habitualmente indicam as páginas consultadas, e as notas de rodapé foram eliminadasdurante o processo de edição.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

T(I)ER OU NÃO T(I)ER

A avaliar pela primeira página do ECONÓMICO não deveria haver mais lugar a preocupações.

Notícias como a de que os «Bancos portugueses são os mais sólidos do Sul da Europa» ou a de que a «Banca brilha em bolsa com nota positiva nos “stress tests”», deveriam confortar todas as almas e o Sol deveria até (como tem acontecido nos últimos dias) ter nascido mais quente e radioso.

O problema é que os resultados tão amplamente propagandeados – até o ministro «Teixeira dos Santos diz que bancos portugueses passam "confortavelmente" nos testes» – podem ser profundamente enganadores. O próprio ECONÓMICO, fazendo eco de comentários de Nouriel Roubini que destaca o facto dos «…testes consideram apenas os títulos de dívida nos balanços de 'trading' dos bancos…», veio lembrar que os «Testes de stress à banca europeia não são realistas»; seguindo a mesma linha de raciocínio, um relatório do CITIGROUP (referido na notícia «24 bancos falhavam testes mais duros, nenhum nacional»), assegura que «…se os testes avaliassem as perdas com títulos de dívida pública contabilizados nos balanços dos bancos e não apenas nas actividades de 'trading', 24 instituições europeias chumbavam nas avaliações…».

Mesmo sem entrar num nível de crítica por vezes difícil de explicar ao cidadão comum, bastará recordar que um dos pressupostos do modelo de avaliação e critério principal para os resultados finais é o do cumprimento do rácio TIER 1[1], que os autores fixaram num mínimo de 6%, donde resulta que sendo o limiar mínimo de capital necessário tão baixo, tão baixo, o “conforto” que assegura é mesmo mínimo e poucas garantias deve proporcionar a quem efectivamente se preocupe com a questão.

Considerar que empresas asseguram uma boa e saudável situação financeira com rácios de fundos próprios (TIER 1) daquela ordem de grandeza é participar numa farsa e louvar os quatro bancos portugueses avaliados por terem uma média de 8,4% é pura mistificação, tanto que os próprios bancos exigem das empresas que financiam rácios de cobertura de capital bem superiores aos que lhe foram agora exigidos.



[1] O TIER 1 é um indicador que avalia a saúde financeira de um banco; consiste primariamente do capital próprio da instituição, mas pode também incluir acções preferenciais desde que estas não sejam resgatáveis. O rácio TIER 1 é o rácio do capital próprio do banco sobre os seus activos ponderados pelo risco, ou seja a totalidade dos activos detidos pelo banco, ponderados pelo risco de crédito.

sábado, 24 de julho de 2010

LEVAR COM A PORTA

Embora habitualmente se critiquem os meios de comunicação pela reduzida qualidade do serviço que prestam à comunidade, isso não constitui uma verdade absoluta e de quando em vez somos agradavelmente surpreendidos pela qualidade e pela oportunidade de alguns trabalhos jornalísticos, recordando tempos em que a imprensa constituía, justamente, um indispensável contrapoder.

Precisamente esta semana o WASHINGTON POST surpreendeu com a publicação de um extenso trabalho de investigação jornalística sobre o funcionamento das múltiplas agência de investigação norte-americanas (tema que abordarei a seguir) e com a divulgação do memorando com que Inga-Britt Ahlenius[1], ex-directora do Departamento de Serviços Internos de Supervisão (OIOS) da ONU abandonou aquelas funções.

Segundo a notícia, a especialista em auditoria, acusa o Secretário-geral, Ban Ki-moon, de sabotar o seu trabalho e de conduzir a ONU para uma era de declínio.

Polémicas aparte, Ahlenius não bateu apenas com a porta... fê-lo em cheio sobre a principal figura da ONU, que sempre tem procurado apresentar-se como um modelo de seriedade e transparência.

As suas declarações podem vir a revelar-se importantes quando no próximo ano houver lugar à recondução (ou não) de Ban Ki-moon, tanto mais que o chefe de gabinete do Secretário-geral já veio a público (e aos jornalistas) lembrar que “Ban fez muito pela ONU”[2]. Aquela mesma ideia é referida na notícia que o I publicou sobre o assunto, bem como o facto desta não ter sido a primeira vez que um alto funcionário da ONU tece duras críticas ao seu secretário-geral, pois já em 2009 tinha chegado à imprensa um memorando interno da autoria da embaixadora-adjunta da Noruega na ONU, Mona Juul,, no qual acusava Ban Ki-moon de ser um líder ausente, passivo e impotente

Assim, mesmo considerando que em quase todos os cargos que Ahlenius desempenhou se verificaram denúncias de idêntico calibre[3], a simples recordação de anteriores episódios e casos muito sombrios (como o célebre escândalo de corrupção que envolveu funcionários da ONU e o programa iraquiano que previa a troca de petróleo por alimentos) aumentam a credibilidade das críticas agora tornadas públicas.


[1] Inga-Britt Ahlenius é natural da Suécia, país onde desempenhou vários cargos nos ministérios do comércio, da indústria e das finanças, tendo entre 1993 e 2003 liderado o organismo de auditoria nacional sueco (o equivalente ao nosso Tribunal de Contas); na data da sua saída denunciou tentativas de limitação à independência daquele organismo. Após ter exercido as funções de auditora para o Kosovo, foi nomeada em 2005 para directora do Departamento de Serviços Internos de Supervisão (OIOS) da ONU, cargo em que seria reconduzida em 2007 pelo actual Secretário-geral, Ban Ki-moon.

[2] A notícia pode ser lida aqui, na página do LE FIGARO, e constitui, curiosamente, uma das poucas referências que sobre o assunto surgiram na imprensa francesa.

[3] Este facto e em especial a polémica após a sua saída da Auditoria Nacional Sueca, poderão explicar o facto da sua nomeação para o organismo de supervisão da ONU ter sido proposta pelos EUA e não pela Suécia, como teria sido natural.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

CHINESICES

Quando se lê no mesmo jornal que «Portugal coloca 1,25 milhões em dívida a 12 meses» mas a preço mais elevado e que «Espanha coloca dívida a 12 meses com juro mais baixo», como não pensar naquela que parece a omnipresente questão dos “ratings” soberanos.

Depois de um primeiro semestre marcado pela eclodir da crise da dívida grega e de sucessivos anúncios de descida nos “ratings” das principais economias europeias, o último dos quais ocorreu já esta semana quando o ECONÓMICO divulgou que a Moody’s voltara a cortar o “rating” da Irlanda, e quando em resposta os governos europeus se apressaram a anunciar todo o tipo de medidas conducentes à redução dos seus défices e que agradassem aos “mercados”, eis que a situação parece ter-se alterado pouco, ou nada.

Gostem, ou não, os paladinos das virtudes dos equilíbrios orçamentais, a situação descrita mais não faz que justificar os críticos daquela ortodoxia, bem como a ideia que o que realmente de “joga” neste momento não é a credibilidade dos Estados ou das economias mas sim a necessidade de introduzir oscilações nos mercados que originem acréscimos de ganhos aos que nele participam, papel que a Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch (as três grandes empresas de notação de risco a nível mundial) têm cumprido na perfeição

Para aumentar a confusão – ou talvez não – surgiram recentes notícias de que uma nova empresa de origem chinesa (as outras três referidas são norte-americanas) – a Dagong – apresentou a sua própria classificação[1] para a dívida soberana das principais economias mundiais. Talvez para espanto de muitos os resultados apresentados não são substancialmente diferentes dos das três “majors”, salvo que aparentam uma maior consistência porque contrariamente àquelas apresentam uma distribuição mais equilibrada entre os diferentes graus de risco.

Uma rápida observação do quadro revela uma evidente tendência para que o maior número de observações apresentem uma classificação de qualidade média e que aquele número se reduza quando se caminha para qualquer dos dois extremos (risco muito baixo ou muito alto) ao contrário do que acontece com as outras três agências.

Mesmo sem perder que vista que esta nova agência tem por base o Banco Popular da China e o respectivo governo chinês merece a pena referir e analisar as conclusões daquele relatório, tanto mais que os resultados parecem bem fundamentados e, assim como assim, devem valer tanto como os dos consagrados que, recorde-se, falharam rotundamente na avaliação das emissões da dívida americana que esteve na origem do último “crash” de Wall Street e da sua propagação aos sistemas financeiros e económicos mundiais.


[1] O relatório com os resultados e as metodologias seguidas pode ser consultado aqui.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

QUIMERAS

Talvez seja do calor estival, mais convidativo ao lazer puro que à reflexão, mas ainda não consegui entender a lógica que parece soprar para os lados de Belém.

Depois de há umas semanas ter apelado à contenção e à redução de despesas pelas famílias portuguesas (apelando à poupança de divisas e a um forte contributo para o reequilíbrio financeiro mediante a simples abdicação da realização de viagens ao estrangeiro), depois de na passada semana ter apontado, ex-cathedra, perante as câmaras da SIC os verdadeiros responsáveis pela crise que atravessamos (o despesismo dos líderes políticos que esqueceram a existência do Programa de Estabilidade e Crescimento comunitário[1]), eis que, segundo informa o PUBLICO nesta notícia, o Presidente da República se deslocou para Angola acompanhado «...da maior delegação de empresários de sempre...»; nada mais nada menos que 115 respeitáveis homens de negócios[2], além de três membros do Governo e a habitual delegação parlamentar.

Pretenderá Cavaco Silva impressionar o governo tal como nos idos de 1514 o então Rei de Portugal (Manuel de sua graça, ou o Venturoso de cognome) procurou impressionar a corte papal da época?

Não creio que o facto da economia angolana representar já o quarto maior cliente das exportações portuguesas e destas ascenderem em 2009 a mais de 2,2 mil milhões de euros, tenha sido o factor determinante daquele fenómeno; já o facto reconhecido das dívidas angolanas à economia portuguesa representarem cerca de 2 mil milhões de euros (90% do produto exportado em 2009) deverá constituir a principal razão para aquela anormalidade, pelo que a dimensão da comitiva presidencial constituirá uma mera função directa da dimensão daquelas dívidas e, quiçá, uma vã quimera na sua rápida regularização, apesar das notícias que hoje mesmo asseguravam que «Angola paga dívidas às PME portuguesas em dois meses».


[2] A fazer fé nesta notícia do I, que confirma a enormidade da delegação, serão 135 os empresários que acompanham Cavaco Silva.

sábado, 17 de julho de 2010

PESSIMISMOS?

Ainda a propósito do tema do último “post” não será displicente recordar aqui o que Manuel Maria Carrilho escreveu a propósito dos pessimistas – aqueles que assim foram apodados por terem levantado dúvidas sobre o melhor dos mundos em que funcionava a economia global ou, melhor dizendo, a propósito dos que, no auge da euforia, lembram a inevitabilidade do desalento próximo –, num artigo publicado no DN, justamente intitulado «Virtudes do pessimismo?».

Já no distante século XVI, retratando a euforia expansionista da época, Luís Vaz de Camões celebrizou a figura do Velho do Restelo, criando assim no riquíssimo vocabulário nacional mais um sinónimo sob uma forma poética; só que tal como então, também agora muita gente – demasiada gente – se esquece que um pessimista não passa, geralmente, de um optimista realista.

Tão realista que apenas sorri quando lê na crónica de Manuel Maria Carrilho que «...agora o que se percebe é que os Estados, para salvarem os bancos, tiveram de - via emissão de obrigações - recorrer aos próprios bancos, que assim vivem com "passivos" constituídos pelo dinheiro que os Estados lhes emprestaram e com "activos" constituídos exactamente pelo mesmo dinheiro, depois emprestado aos Estados. E neste jogo andaram envolvidos, em toda a Europa, cerca de dois biliões e meio de euros» e mantém a esperança de que haja cada vez mais pessoas a interrogarem-se (e a pensarem) porque é que “estas coisas acontecem”...

Ou se limita a recordar que todos os sistemas financeiros assentam numa única premissa – a da confiança – quando lembram «...como há um ano, na Europa, no auge da crise financeira e das suas consequências, se garantia que, com o euro, tínhamos criado uma verdadeira - e esta palavra foi mil vezes repetida - fortaleza! Viu-se. Em poucos meses, o que se descobriu foi que a fortaleza tinha sido construída sobre areias movediças, e que agora o euro é, precisamente, o principal problema da Europa, e não só. Os cidadãos descobrem com estupefacção que o que era apresentado como um dos maiores trunfos da União Europeia se revela, de um dia para o outro, como a maior das suas fragilidades. Das vantagens da não desvalorização do euro passou-se às tremendas consequências da impossibilidade dessa mesma desvalorização para repor a competitividade e revitalizar as economias mais fragilizadas. E do elogiado retorno do Estado passa-se, de repente, à descoberta de um endividamento público que deixa a União Europeia à beira do abismo!»

Terão os governantes que tão prontamente acorreram a salvar os bancos entendido a real dimensão da sua decisão? E os seus parceiros da oposição (sempre tão lestos a criticar as políticas que acarretam o endividamento das gerações vindouras) foram igualmente incapazes de entenderem o fenómeno? Ou, pelo contrário, uns e outros sabiam bem o que estavam a fazer e quais os interesses que estavam a defender?

Eis o tipo de dúvida que não enrola apenas palavras vãs à volta de uma evidência que todos pressentimos; não se trata apenas de avaliar responsabilidades mas principalmente de aferir capacidades – e vontades – para uma efectiva mudança do que urge alterar – o modo de funcionamento dum sistema bancário alicerçado no efeito multiplicador do crédito e na pauperização de toda a sociedade para seu exclusivo benefício – em nome da melhoria geral.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

FALTA DE APOIO?

Ao ler a notícia hoje publicada pelo I de que a «Falta de apoio do governo faz Moody's baixar rating da banca», não resisti a voltar a denunciar um dos maiores embustes dos últimos tempos.


Na prática aquilo a que temos vindo a assistir consiste num jogo cruzado de informação e contra-informação utilizado a bel-prazer dos agentes intervenientes nos mercados de capitais e que, para cúmulo, têm contado com o apoio, consciente ou inconsciente, das chamadas forças políticas.

Deixando correr para os jornais notícias a conta-gotas ou manipulando o seu teor os agentes do mercado continuam a dizer hoje o que negaram ontem e o que afirmaram anteontem completamente impossível. Contando com o apoio (ou efeito de amplificação) dos grupos políticos cujo único objectivo é a ascensão ao poder para contentamento das suas clientelas, têm contribuído de forma decisiva para destruir as poucas esperanças de recuperação económica que realmente pudessem ter existido.

Exigindo dos governos a contenção dos défices, num dia, para noutro “castigar” as economias cujos governos não se mostram tão disponíveis para “ajudar” a banca, o que os “mercados”têm feito consiste numa verdadeira razia – no sentido histórico do termo, quando este era utilizado pelo império romano para designar os assaltos perpetrados pelas tribos bárbaras – nas economias cuja existência dizem defender e por cuja liberdade dizem bater-se.

E, por incrível que possa parecer, prova de que tal assim acontece pode ser encontrada no texto da própria notícia, quando a propósito do recente anúncio da descida dos “ratings” atribuídos pela Moody’s a oito dos principais bancos portugueses, o jornalista escreveu: «As descidas foram justificadas com a falta de apoio do Estado português ao sector financeiro. "O corte no rating dos oito bancos reflecte a fraca capacidade do governo de ajudar os bancos", afirmou Maria-Jose Mori, analista da Moody's, que acompanha a banca nacional».

Na prática o abusivo sistema baseado no crédito, que durante décadas sustentou uma aparência de crescimento económico que na realidade raramente aconteceu, permitiu uma acumulação de riqueza fora da esfera produtiva das economias (famílias e empresas) que depois de obrigada a financiar o seu salvamento, foi criticada pelos desequilíbrios originados (os fundos injectados pelos Estados cujas receitas fiscais não têm parado de ser reduzidas em nome da liberalização dos mercados), obrigada a aumentar a carga fiscal sobre as famílias e volta agora a ser penalizado por não se mostrar disponível (leia-se, por não ter meios nem lhos serem concedidos) para voltar a salvar os bancos.

A denúncia deste absurdo que continua a influenciar e a condicionar a vida diária de biliões de trabalhadores e das suas famílias é tanto mais urgente quanto continuamos a assistir diariamente aos inqualificáveis e desorientados discursos dos políticos (nacionais e estrangeiros, dos governos e das oposições).

É indispensável que as vozes que apontam soluções alternativas – como o fim do monopólio da emissão de moeda pelo sistema financeiro, a extinção de “off-shores” e outros paraísos fiscais e a imposição de normas estritas ao funcionamento do sistema financeiro – se façam ouvir e os políticos entendam que existe quem reconheça e denuncie as asneiras que persistem em fazer.

terça-feira, 13 de julho de 2010

FOLCLORE POLÍTICO

Interessante a leitura da notícia do PUBLICO sobre o primeiro dia das Jornadas Parlamentares do PSD que destacando as opiniões expressas por três dos ilustres convidados – o sociólogo Manuel Villaverde Cabral e os economistas e ex-ministros Ernâni Lopes e Campos e Cunha –, com o primeiro a defender que o PSD deveria apresentar uma moção de censura ao Governo e o segundo a pugnar pela necessidade de uma redução de entre 15 e 20% nos salários da função pública (incluindo políticos).

Perante isto não será de estranhar, como refere a própria notícia, que aquela foi «uma tarde sombria» e, pior terá sido, quando o antigo ministro das finanças do primeiro governo de José Sócrates defendeu a contabilização do voto em branco, gerando assim assembleias com um número variável de deputados.

Não será pois de estranhar que, como sugere o título da notícia, a proposta tenha “gelado” o PSD… e que o mesmo, diga-se, terá feito aos leitores dos outros quadrantes políticos.

Mesmo em tom brejeiro (e particularmente adequado à época estival) apetece-me deixar aqui algumas interrogações:

Porque é que estas individualidades raramente expressam ideias destas durante as suas passagens pelo poder?

Porque é que ideias destas (e tantas outras) que regularmente são recolhidas em reuniões de idênticas características ou expressas em artigos de opinião em jornais e na Internet, pela sua relevância não ganham foros de aplicação?

Como a época é particularmente propícia ao remanso e ao descanso aqui deixo de imediato a resposta: porque aquele tipo de ideias são geralmente pouco agradáveis – quando não profundamente lesivas – dos interesses do poder e dos sectores que o apoiam e portanto destinadas apenas ao folclore político.