sábado, 24 de setembro de 2011

VIA SEM SAÍDA


O prometido aconteceu e a Autoridade Palestiniana apresentou na Assembleia Geral da ONU um pedido formal de adesão na qualidade de estado de direito e, como esperado, os EUA exercerão o seu direito de veto, condenando a pretensão palestiniana.

Na sua intervenção naquela assembleia, Obama reconheceu as razões para a insatisfação palestiniana, mas não revelou qualquer hesitação no apoio ancestral e firme à política e à estratégia israelita no longo diferendo que opõe aqueles dois povos e foi sem pejo que anunciou a recusa do seu apoio à pretensão palestiniana.


Antes dele, a presidente brasileira, Dilma Roussef, manifestou opinião oposta e assegurou o seu apoio à ideia de plena representação da Palestina nas Nações Unidas, defendendo mesmo que só um país livre e soberano é que poderá responder aos desejos israelitas em matéria de paz e segurança. Estas duas posições espelham bem as razões para o arrastar dum processo de paz com mais de seis décadas e que após avanços e recuos se mostra demasiado longe dum acordo final.

Judeus e palestinianos tardam em encontrar o entendimento em matérias particularmente sensíveis como a partilha de território e o direito de retorno dos refugiados palestinianos em resultado das diversas guerras israelo-árabes. Nem mesmo depois de alcançada uma certa forma de paz e de entendimento entre Israel e os vizinhos Egipto e Jordânia foi possível adiantar, pouco que fosse, o processo de retorno das populações expulsas ou que simplesmente optaram pela fuga face ao avanço do exército israelita.

É óbvio que esta não é a única matéria em desacordo, pois questões não menos importantes como a partilha de Jerusalém e a permanente construção de novos colonatos judaicos nos territórios ocupados (algo claramente ilegal face ao direito internacional que veda expressamente a forças ocupantes a instalação definitiva em território ocupado, mas que não impediu que na última década o número de colonos tenha triplicado) têm-se revelado suficientes para o prolongamento indefinido dum processo negocial que, refira-se, tem sido “apadrinhado” pelos EUA e pela UE entidades que apenas remotamente podem ser apelidadas de imparciais e que actualmente se situam num claro “tudo pela Palestina, nada contra Israel”, para retomar aqui o título que a agência LUSA usou para apresentar as hesitações e os pruridos com que os diplomatas europeus (Portugal incluído) e americanos têm procurado adiar a necessidade duma resolução que não querem que contrarie Tel Aviv.

Estribada na sua posição de força ocupante e apoiado pelos “mediadores” não é de estranhar que Israel se comporte como negociador arrogante, sempre pronto a impor exigências e raramente disposta a qualquer concessão, tanto mais que ao longo da crise sempre tem beneficiado do apoio expresso dos EUA, inclusive na sua política de rejeição das decisões da ONU que entende desfavoráveis. Essa quase obscena ligação Israel-EUA remonta à data em que Ben-Gurion, primeiro-ministro de Israel, declarou unilateralmente a independência do estado judaico, acção que foi prontamente reconhecida por Harry Truman, então presidente norte-americano e conhece hoje apenas o seu episódio mais recente, com o veto de Obama a idêntica pretensão palestiniana.


A proposta de reconhecimento pela Autoridade Palestiniana – que nem entre uma população palestiniana que permanece dividida entre a Cisjordânia dirigida pela OLP e a Faixa de Gaza dirigida pelo Hamas mereceu um consenso claro – pode sempre ser explicada, como o fez o próprio Mahmoud Abbas num discurso televisivo[1], como uma tentativa de internacionalização do conflito israelo-palestiniano que após mais de duas décadas de conversações de paz bilaterais não obteve sucesso na construção da solução dois povos-dois estados; o que não pode é, como fez a administração Obama, ser prontamente rotulada como inadmissível e apodada dum atalho para o processo de paz, como se à parte palestiniana apenas restasse o submisso papel de agradecer as migalhas que americanos e israelitas entendam acordar-lhe.

Enquanto, à face do direito internacional e ao abrigo de inúmeras resoluções da ONU, Israel se comportar como potência ocupante e perdurar o apoio europeu e norte-americano dificilmente restará aos palestinianos uma alternativa negocial válida e iniciativas como a agora apresentada acabarão por representar pouco mais que meras manobras de pressão internacional ou de âmbito interno, caso em que a OLP e Mahmoud Abbas poderão retirar alguns dividendos na sua disputa com o Hamas.


[1] A referência àquele discurso pode ser lida num artigo de opinião de Rami Almeghari, na página ELECTONIC INTIFADA.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

PECADOS


Apesar dos esforços dos nossos governantes, que remontam ao período de José Sócrates, a realidade persiste em contrariá-los e tudo indica que cada vez menos nos distinguimos da situação grega, a ponto de nas Previsões de Outono do FMI já se assegurar que «Portugal e Grécia são as únicas economias europeias em recessão até 2012», com antevisão de quebra no PIB de 2,2% no corrente ano e de 1,8% no seguinte. Estes números deverão ser acompanhados de taxas de desemprego de 12,2% e de 13,4% em 2012, confirmando os piores receios quanto ao agravamento das condições económicas no país.

A dureza destas previsões estende-se ao conjunto das economias “avançadas”, com a UE a aproximar-se duma situação de estagnação (crescimentos de 1,8% e 1,1%, respectivamente) e os EUA a situarem-se abaixo dos 2% (1,5% em 2011 e 1,8% em 2012) e com uma taxa de desemprego acima dos 9%, o que poderá até revelar-se francamente optimista, pois as expectativas não têm parado de se agravar.

Este cenário negro, onde as recentes notícias do PUBLICO de que o «Tribunal de Contas detecta novo buraco de 220 milhões na Madeira» e do ECONÓMICO de que «TC investiga aval de 1,6 mil milhões da Madeira» já nem suscitam reacções, apenas parece atenuar-se quando nos é dada a felicidade de sabermos que «Portugal é o país da Europa com mais auto-estradas» per capita; ou será que, pelo contrário, esta constitui uma das principais razões para o “buraco” em que nos meteram?

Terá afinal razão Alberto João Jardim quando afirma, como escreveu o EXPRESSO, que o «Pecado da Madeira foi querer a qualidade de vida da Europa»? E serão também pecados os vastos quilómetros de auto-estradas, a miríade de rotundas e demais “monumentalidades” de duvidosa utilidade e reduzida rentabilidade que nos colocarão ao nível da Europa?


A resposta para estas questões, que em caso algum passa por uma estratégia trauliteira à maneira de Alberto João Jardim, é relativamente fácil. Para os ignaros que nos governam, como para os que os antecederam, a resposta é naturalmente afirmativa, pois na sua profunda boçalidade apenas entendem o pouco que a vista alcança; já para quem se rodeie dos mínimos cuidados de gestão da coisa pública (no sentido em que esta deve ser entendida e que é o da satisfação prioritária das necessidades fundamentais) e de um genuíno intuito de melhoria da qualidade de vida das populações, é óbvio que muitas daquelas obras não passam de meras manobras eleitoralistas ou de justificação para o clientelismo empresarial mas sem efeito significativo no crescimento da economia.

Pecado, é que confrontados agora com a insustentabilidade dum endividamento originado numa política fiscal orientada principalmente para redução de impostos sobre o capital e os seus rendimentos e insuficiente desde a primeira hora para financiar a estratégia de “obra feita que luza o olho”, se pretenda corrigir aquele desvio mediante o agravamento da imposição fiscal sobre o factor trabalho e a total asfixia do investimento público, numa fase em que o crescimento económico é mais crucial que nunca. 

Pecado ainda maior é a peregrina ideia defendida pelo FMI/BCE/FEEF, os mesmos que sustentaram a incorrecta política de redução de impostos sobre o capital, e prontamente aceite pelos partidos que têm monopolizado o poder em Portugal (PS, PSD e CDS), de que a austeridade social e o aumento do endividamento permitirão resolver o pagamento aos credores (a sua única preocupação); a esses há que responder, não com os falaciosos argumentos de Alberto João Jardim, mas antes como uma corajosa e bem sustentada política de auditoria da dívida – distinguindo de forma muito clara o que deve ser pago daquilo que não constitui senão um bem elaborado processo de enriquecimento sem causa –, de rescalonamento dos prazos em conformidade com o crescimento económico efectivamente registado e de total inversão do modelo de financiamento público, centrando-o não no sector financeiro mas exclusivamente junto dos bancos centrais. 

Nem confrontados agora com a notícia de que os «EUA e Europa aproximam-se de uma nova recessão» parecem os guardiões do credores (FMI/BCE/FEEF) conscientes da necessidade de revisão das premissas recessivas que a sua proposta de combate aos défices implica e os próprios governos europeus revelam-se incapazes doutra actuação que não a da aprovação de sucessivos programas de austeridade, como se confirma quando se lê que a «Grécia prepara novo pacote de austeridade» ou de forma mais eufemística quando se anuncia que a «Itália reage a corte de “rating” com medidas estruturais», mas que na prática consistem na aplicação do tradicional Consenso de Washington, expresso em benefícios fiscais ao investimento em infra-estruturas e banda larga, na construção duma auto-estrada de Roma a Veneza e na liberalização no sector dos serviços e na privatização de empresas públicas.

sábado, 17 de setembro de 2011

A GRANDE FARRA

À medida que têm vindo a ser conhecidas as mais recentes informações sobre o real montante da dívida da Região Autónoma da Madeira, começa a tornar-se evidente a necessidade duma explicação que vá além da “oposição à asfixia socialista” invocada pelo indescritível Alberto João Jardim e sectariamente defendida pelos seus apoiantes (locais e nacionais) como acontece nesta notícia do JORNAL DA MADEIRA.



Exemplos de tão rara fidelidade deveriam talvez merecer melhor que aceradas críticas; sucede porém que os defensores da estratégia seguida por Alberto João Jardim – que após se ter sabido em finais de Agosto que a «Dívida da Madeira aumenta mais de duas vezes», descobre-se agora que catapultou a dívida da Região Autónoma da Madeira para números que se estimam entre os 5 mil milhões (valor adiantado nesta notícia do ECONÓMICO) e os 8 mil milhões de euros (segundo esta notícia do SOL), valor que o secretário regional das Finanças, Ventura Garcês, assegura ser um exagero socialista (ver a propósito esta notícia do JORNAL DE NOTÍCIAS) enquanto se recusa a divulgar o valor correcto – são os mesmos que defendem a virtualidade da redução dos défices e a aplicação duma crescente carga fiscal como via para a sua resolução. 

Em poucas palavras, porque os tempos são de contenção e os ouvidos dos responsáveis estão fechados a ideias diversas das suas, enquanto o PSD de Passos Coelho defende em Lisboa e em Bruxelas a necessidade de reduzir o défice e aplica medidas profundamente lesivas para o crescimento da economia nacional, o comparsa Jardim pretende manter o estilo governativo do mais populista dos autarcas – construa-se que depois logo se vê quem é que irá pagar – e espera ter já assegurado o beneplácito do “seu” líder nacional, quem sabe, confirmado pela notícia de que «PSD e CDS-PP chumbam proposta do BE de auditoria externa à dívida da Madeira» ou por outras que se seguirão.

Uma boa imagem para o que verdadeiramente significa esta situação é a que transmitiu Manuela Morgado (secretária de Estado do Orçamento num governo de António Guterres) e de que o NEGÓCIOS de fez eco: “A situação é completamente inaceitável, mas é reveladora de uma tradição que eu já conheci, de alguma forma, entre 1995-98” acrescentando que “o presidente do Governo Regional da Madeira omitiu deliberadamente, com má fé, estas derrapagens” e que na prática coincide com a imagem que o exterior apreendeu e bem reflectida na página da TVI24 ao escrever que «Imprensa internacional destaca “Ilha Trapaceira”».

Como irá agora Passos Coelho reagir quando for confrontado pelos “amigos” europeus com uma situação de clara fraude estatística, em tudo semelhante às praticadas pela Grécia; aquela Grécia com a qual, como em tempos Sócrates tanto gostava de dizer aos sete ventos, nada tínhamos em comum, mas com quem a agora partilhamos uma intervenção do FMI/BCE/FEEF e a clara imagem da trapaçaria, graças, ainda e sempre, a Alberto João Jardim e aos seus pares...

Não fosse o famigerado compadrio e demais jogos de interesses que há décadas se instalaram nos corredores do poder neste país e talvez se pudesse recordar o velho aforismo que assegura “haver males que vêm por bem”, esperando que de tudo isto fossem retiradas as devidas lições e em consequência se pensasse de forma consistente, como sugere Pedro Braz Teixeira nas páginas do I, e: «Deixem falir a Madeira».

Caso contrário, o resgate da dívida madeirense, como o da dívida nacional, continuará a ser assegurado pelos bolsos dos contribuintes, penalisando o crescimento económico e agravando ainda mais as cada vez maiores necessidades de financiamento resultantes de novos e maiores encargos financeiros, podendo falar-se com propriedade na continuação da Grande Farra que tem sido o sustento do sector financeiro mundial nos últimos anos e tudo isto enquanto a reunião do Ecofin (que junta os ministros das finanças da UE) terminou sem qualquer novidade, adiando para Outubro qualquer decisão sobre a Grécia e a prometida taxa sobre as transacções financeiras.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A MEIA HASTE


Não fosse a gravidade da situação e a proposta do comissário europeu alemão, Günther Oettinger, de nos edifícios europeus pôr a meia haste as bandeiras dos países endividados teria sido acolhida com um coro de sólidas e sonoras gargalhadas; o pior é que a absurda proposta é um perfeito espelho do anacronismo, da incompetência e da estupidez daqueles a que tem sido entregue a direcção dos destinos comuns europeus e que em pouco se distingue (salvo pelo claríssimo ridículo) das ineficazes e improcedentes medidas propostas como solução europeia para a crise global. 

Dirigidos por líderes claramente incompetentes e incapazes de ouvirem mais que o coro de sequazes de que se rodearam (tanto ou mais incultos e incompetentes como eles), manietados pelos dogmas da democracia ocidental – nomeadamente o da representatividade dos eleitos – os cidadãos europeus continuam a assistir impotentes ao agravar duma crise para a qual, na sua generalidade, pouco contribuiram. Enquanto isso a crise sistémica progride e revela cada vez mais a falência das teses neoliberais, que, por incapacidade de reconhecerem factos básicos como sejam o da impraticabilidade da obtenção de equilíbrios financeiros socialmente aceitáveis em cenários de recessão económica, insistem na repetição dos seus mantras[1] enquanto prometem o maná a quem os seguir.


O busílis é que a situação europeia resulta da dupla incapacidade de reconhecer que sem crescimento económico (i.e. sem uma estratégia de promoção do emprego e da recuperação do consumo das famílias) não haverá reequilíbrio orçamental e que a correcção das assimetrias e das desigualdades entre as suas economias terá sempre que ter em linha de conta as razões históricas dessas divergências e que a sua resolução só será alcançável no pressuposto do respeito pelas diferenças.

A ridícula proposta agora formulada, na linha da que no início da crise sugeriu a venda de ilhas gregas para liquidação da dívida, revela demasiado duma mentalidade xenófoba e de superioridade racial que sempre aflora em períodos conturbados e que de imediato deveria ter sido rejeitada pelo presidente da comissão europeia, o tíbio Durão Barroso, e acompanhada da imediata demissão do proponente[2] (por muito que isso custe à chanceler Angela Merkel, que se diz que terá nomeado Oettinger, então ministro-presidente do estado de Baden-Württemberg, para comissário europeu com o objectivo de afastar um possível oponente interno), sob pena do seu silêncio se transformar em apoio explícito à proposta e em nova demonstração da incapacidade e inutilidade da Comissão Europeia que dirige e de iniciativas como a que sugere a notícia do PUBLICO de que «Durão Barroso pede um “novo momento federativo” na Europa para resolver a crise do euro», ele que até ao momento nunca conseguiu que os seus “pares” fizessem mais que o estritamente necessário para a defesa dos seus interesses pessoais e nacionais.


[1] Palavra ou expressão que repetida insistentemente permitirá, segundo as crenças hinduísta e budista, alcançar um estado de contemplação e meditação.
[2] E não, como sugere o eurodeputado Rui Tavares e é referido nesta notícia do PUBLICO, que a demissão apenas ocorra no caso do comissário não se retratar, pois é mais que tempo de deixar em claro (ou com um mero pedido de desculpas) comentários daquela natureza.

sábado, 10 de setembro de 2011

CICATRIZES


Cumprida uma década desde o 11 de Setembro de 2001, que balanço pode ser feito daquele acontecimento e dos que originou? Quais as cicatrizes que deixou?


Substituída a administração Bush por outra que tantas esperanças alimentou, constata-se que quanto a matérias de esclarecimento sobre os atentados contra as Torres Gémeas estamos praticamente no mesmo ponto em que nos quiseram deixar os responsáveis no poder àquela data.

A tese oficial, contra evidências e argumentos múltiplos[1], continua a querer convencer-nos que um conjunto de inexperientes pilotos árabes lograram voar com uma precisão milimétrica contra as torres e, pior, numa trajectória de voo rasante contra o edifício do Pentágono. Continua a exibir destroços que há evidência não podem pertencer a aeronaves das dimensões e peso de aviões comerciais e a insistir que foram as elevadas temperaturas que originaram a fusão da estrutura em aço das torres e provocaram o seu colapso, enquanto exibiu um quase intacto passaporte dum dos alegados terroristas recolhido nos destroços das torres...

Seja a administração Bush ou a actual, de Barack Obama, a Casa Branca persiste em difundir um conjunto de “informações” que apenas os mais incautos ou crédulos aceitarão sem objecções, enquanto mantém activo o anátema que prontamente lançou sobre quem se atreveu a formular dúvidas, para mais pertinentes.

Os poderes estabelecidos na Casa Branca lançaram, sem o menor pejo e ao abrigo da solidariedade mundial que obviamente receberam na sequência dos atentados, duas guerras de ocupação em partes dum Médio Oriente (Afeganistão e Iraque) que não conhece desde a II Guerra Mundial um processo de efectiva pacificação. Desinformando ou manipulando a informação em benefício dos seus objectivos, os EUA lançaram o mundo num novo ciclo de conflitualidade a ponto de hoje ser crescente o número daqueles que afirmam sem hesitação que longe de ter resolvido a insegurança global, aqueles conflitos apenas a vieram agravar.

O tempo entretanto decorrido deveria começar a jogar a favor daqueles que sempre tentaram observar os acontecimentos de forma mais racional, porém, outros mais recentes, como a operação de que resultou a morte de Bin Laden (o líder da Al-Qaeda e presumido autor moral dos atentados do 11 de Setembro), e a persistência no recurso a práticas de manipulação e de sonegação da informação (sempre em nome duma famigerada segurança nacional que parece cada vez distante de alcançar) que mantém a generalidade da população em estado de permanente ignorância sobre a realidade que nos rodeia e contribuem para tornar cada vez mais real o Big Brother imaginado por George Orwell


[1] Sobre a polémica em torno do 11 de Setembro, ver os “posts” que em 2001 (na data da passagem do 5º aniversário) consagrei ao assunto: «NINE ELEVEN – PARTE I», «NINE ELEVEN – PARTE II» e «NINE ELEVEN – PARTE III» e que, graças à manutenção da política de negação da informação por parte das administrações dos EUA, mantém ainda hoje toda a sua actualidade.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

POLÍTICAS ENERGÉTICAS


Quando a realidade revela com crescente crueza a aproximação de nova escalada nos impostos e nos preços de bens essenciais, como a alimentação e transportes é seguramente oportuno voltar a reflectir sobre a questão do preço do petróleo (matéria-prima) e dos combustíveis.

Para não cair nas desgastada acusação contra a elevada carga fiscal e a mais que conhecida ineficiência dum mercado dito livre, limitar-me-ei a fazer aqui eco de duas notícias com alguns meses mas que não perderam nada da sua actualidade. A primeira, do LE MONDE que citava declarações[1] da ministra francesa da economia, Christine Lagarde, que numa entrevista à rádio Europe 1 avançou com a possibilidade do governo francês avançar com medidas que forçassem as gasolineiras a reflectir a descida da cotação internacional do “crude” no preço de venda da gasolina nos postos de abastecimento.


É claro que no dia imediato e no mesmo jornal[2], especialistas na matéria e representantes das gasolineiras vieram desdramatizar o risco e assegurar que, na prática, pouco poderá ser realizado.

A questão do preço dos combustíveis, que não preocupa apenas os franceses, tem sido também abordada pelas instâncias directivas da UE, que há tempos emitiu directivas no sentido de ver aumentada progressivamente a adição de biocomponentes na composição dos combustíveis, também como via para uma redução da dependência do “crude” e dos países produtores.

Sucede que a crescente procura de oleaginosas para a produção de combustíveis traduziu-se num estratégia de exploração intensiva dos solos e de destruição de milhares de hectares de florestas no continente africano, situação que começa a ser denunciada em notícias, como esta do DN, que além daqueles efeitos referem ainda o carácter predador das multinacionais que usam (e abusam) dos solos condenando as populações africanas a uma ainda maior fragilidade alimentar e a população mundial a nova vaga de aumento dos bens alimentares.


[1] A notícia pode ser lida aqui, na versão original.
[2] A notícia, que faz eco da opinião de especialistas e de responsáveis do sector dos combustíveis, pode ser lida aqui, na versão original.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ASSIM… NÃO!


Entre as bombásticas notícias que anteciparam a apresentação do plano estratégico do governo de Passos Coelho para o próximo triénio – antevendo como escreveu o ECONÓMICO que o «Governo apresenta hoje “corte histórico” na despesa» e «Governo anuncia hoje "cortes históricos" de mil milhões», o PUBLICO em « Governo quer suprimir mais funcionários públicos do que obriga acordo com a troika» ou o JN em «Miguel Relvas admite redução de vereadores e limite de dirigentes superiores» – parecia generalizado o presságio da repetição da tradicional e mais fácil solução de reduzir encargos com pessoal.

Aparentemente nada de substancialmente novo ressalta de tudo isto e quando tal aparenta, como sucede com o anúncio feito pelo I de que o «Governo quer câmaras geridas por um só partido», resulta em motivo de acrescida preocupação pelo que pode encerrar de menor transparência e de aumento do nepotismo e da corrupção.

Esta ideia, há muito praticada em autarquias onde os presidentes eleitos se têm recusado a distribuir pelouros aos vereadores eleitos noutras listas, podendo parecer potenciadora de maior coesão funcional acaba quase inevitavelmente por resultar no aumento da prepotência, em claro prejuízo da transparência, da qualidade do exercício do poder autárquico e favorecendo o tão falado distanciamento entre eleitos e eleitores.

A questão é particularmente grave quando a situação do país se apresenta da forma que conhecemos – as fases mais delicadas de qualquer regime político, e dos democráticos em especial, coincidem inevitavelmente com os períodos de maiores dificuldades económicas – e pior ainda, quando nos chegam notícias como a de que «Bruxelas confirma buraco de 500 M€ na Madeira», dando uma clara imagem do que de pior se pode esperar dum poder descontrolado, para mais quando parece beneficiar dum claro compadrio do governo central que pela voz do primeiro-ministro fez saber (segundo notícia do ECONÓMICO) que aquele valor já era conhecido e estará incluído no famigerado desvio colossal dos 2 mil milhões de euros.

A antigo aforismo de que “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente” ganhará, a confirmar-se a aplicação deste novo “modelo” de governação autárquica, se não um novo significado pelo menos uma indesejada mas clara confirmação das “negociatas” pseudo-políticas que têm contribuído (e de que maneira...) para a situação do país da qual a situação financeira da Madeira é um exemplo.

Não que este seja o único organismo local a viver uma situação de ruptura financeira, pois como se assegura nesta notícia são já «Mais de vinte autarquias em risco de falência», mas pelo montante e pelo peso político próprios dum governo regional o problema tem forçosamente de ganhar novos e mais dramáticos contornos bem expressos na afirmação do ministro das finanças de que «Situação da Madeira é de crise insustentável».
Estranho é que não se tratando duma situação nova, os meios de comunicação social dêem eco a declarações de Alerto João Jardim do jaez da que assegura que «”Maçonaria usou tudo o que podia” para atacar a Madeira» e nas quais aquela inefável figura mistura tudo o que encontra à mão, desde o anterior governo socialista à Maçonaria e passando pelo controlo que a Internacional Socialista exerce sobre a União Europeia (não sei se Alberto João Jardim esquece, ou simplesmente ignora, que a UE é dirigida pela família política na qual se integra o seu PSD), para esconder as mais condenáveis práticas nepotistas e autocráticas que grassam por região autónoma.


Bem pode agora escrever o NEGÓCIOS que «Vítor Gaspar quer plano de ajustamento ‘à FMI’ para a Madeira» porque nada irá mudar! A prova é que já antes o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho quando afirmou que «"Assim que esse desvio foi detectado, foi colmatado"» deixou clara a intenção de mais uma vez branquear a irresponsabilidade e a incompetência daqueles que há quase 40 anos têm governado de forma absolutista os destinos daquela região autónoma... e deste país.