sexta-feira, 24 de maio de 2019
OLHANDO EM FRENTE
sexta-feira, 20 de abril de 2012
UM OLHAR SOBRE PARIS
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
SINAL DE (DES)CONFIANÇA
Não bastou a forma atabalhoada como transformaram a proposta de Constituição Europeia (recusada nos dois únicos referendos a que foi submetida em França e na Holanda) num documento com que pudessem contornar a consulta popular, como no único país onde tiveram que o fazer viram-se forçados a uma segunda consulta e envolveram esse processo em controvérsias e mentiras para o fazerem aprovar.
O trágico (que até poderia ser cómico, não fora o facto disso vir a reflectir-se sobre a vida de milhões de pessoas) é que os irlandeses que agora aprovaram o texto do tratado fizeram-no na convicção de estarem a assegurar a solidariedade do resto da Europa, quando o que o Tratado de Lisboa prevê é precisamente uma Europa menos solidária e mais orientada para o benefício das economias dos grandes países.
sábado, 13 de junho de 2009
A VELHA AMÉRICA E A NOVA EUROPA
Se durante a campanha eleitoral norte-americana poderá ter feito sentido a produção de artigos em prol do candidato que melhor poderia prefigurar (e consubstanciar) um sentimento de mudança que se julgasse indispensável, no momento em que a actuação da administração Obama pode já ser avaliada pela sua prática e que em capítulos como a política económica esta se confirma como uma mera continuação das políticas de apoio às grandes empresas e aos interesses de Wall Street, ou quando as grandes linhas da política internacional, embora suavizadas pela perspectiva multilateralista, perpetuam os mesmos terrores, a prática daquela incensação perde todo e qualquer sentido.
Ora é precisamente isto que Mário Soares faz na primeira parte da sua última crónica no DN, a propósito de cujo título – A NOVA AMÉRICA E A VELHA EUROPA – e conteúdo me parece mais adequado inverter as qualificações, pois a América cada vez menos se pode apresentar como algo de novo quando as políticas da sua actual administração não representam senão uma singela e pouco durável operação de cosmética.
O que me afasta da tese defendida por Mário Soares e me leva a preferir o trocadilho (e a provocação) expressa no título deste “post”, é que se continuo a ver nas políticas de Obama e da sua equipa a prefiguração das velhas teses pró-globalização não abdico de defender para a Europa a necessidade de novas políticas e, principalmente, de um novo paradigma – todos iguais, todos diferentes – único que julgo capaz de assegurar a construção de uma UE efectivamente orientada para a defesa dos interesses das suas populações.
Uso intencionalmente o termo populações no plural porque entendo que o maior potencial da nova Europa resultará de uma adequada gestão e utilização da diversidade que a compõe. O grande logro conceptual que nos mergulhou numa crise sem memória foi precisamente o de pugnar pela uniformização de conceitos, práticas e anseios há imagem e semelhança dos que se julgam senhores do Mundo e que se arrogam o direito de decidir por todos os que pensam da mesma forma, ou não. Preconizar a melhoria das condições de vida das populações de todos os continentes não é o equivalente a transformá-las à imagem e semelhança dos absurdos padrões de vida (e de consumo) norte-americanos.
Pugnar pela melhoria das condições de vida não pode servir de pretexto para impor padrões (sejam eles de natureza moral, social, religiosa, económica ou política) que as populações não tenham atempadamente interiorizado. Defender um melhor futuro para as próximas gerações não pode ser um processo em que uma minoria, sustentada no seu poder económico ou no aparelho militar de qualquer das grandes potências, imponha como universais as regras que melhor lhe convenham.
Infelizmente, para o melhor e para o pior, o que hoje representam os Obamas que proliferam por esse mundo fora é precisamente a ideia da prevalência do poder das elites económicas sobre a vontade das populações e é por isso que lamento o facto das recentes eleições europeias não terem servido para um efectivo debate do que os eleitores de cada estado-membro entendem que deve ser o futuro da União Europeia. Naturalmente para as elites bem pensantes e cuidadosas praticantes do politicamente correcto, tudo foi preferível - até uma absurda taxa de abstenção de 60% - ao risco de generalizar o debate e de permitir a circulação de informação sobre o que pretendem para o futuro da UE, incluindo o texto do famigerado Tratado de Lisboa. E isto é o típico pensamento velho, ou de quem vê o futuro com os olhos da nuca.
Numa fase de profunda crise económica e de ainda maior crise de valores, recusar as oportunidades para um debate aberto sobre o futuro que todos queremos não é apenas condenável, é criminoso! E isto é o que os políticos que nos têm governado continuam a fazer perante a nossa passividade.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
CONFRANGEDOR
Nem os velhos políticos da velha Europa tentaram melhorar o seu aspecto, nem esta parece despertar especiais atenções entre os eleitores.
Independente das forças nacionais (ou das grandes famílias europeias em que se agregam) o resultado destas eleições é apenas um: a abstenção não tem parado de aumentar e isso nem se quer parece preocupar os políticos.
O sucesso das forças de centro-direita terá assegurado ao presidente da Comissão em exercício, o inefável Durão Barroso, maiores hipóteses de reeleição para um segundo mandato[1], pelo que o seu comentário de que «...os resultados são uma inegável vitória dos partidos e dos candidatos que apoiam o projecto europeu e que querem ver a União Europeia a produzir respostas às suas preocupações quotidianas...» deixa transparecer o contentamento (natural) enquanto reflecte a medonha hipocrisia de afirmar que a EU, que tem dirigido nos últimos anos, tem respondido aos anseios e às necessidades das populações que devia servir.
A atestar pelas elevadas taxas de abstenção, o “make-up” que tem vindo a ser aplicado à Europa continua longe de atrair os “admiradores” e, pior, parece mesmo estar a afastá-los, pois desde 1979 que aquela taxa não tem parado de subir[2].
No caso português, não só a taxa de abstenção registada no dia 7 foi uma das maiores de sempre como se situa francamente acima da média europeia (63% em Portugal contra 57% no conjunto da UE) e entre as maiores dos 27 estados-membros. Para piorar este cenário e dar uma imagem mais adequada da qualidade e da representatividade do acto eleitoral que no passado fim-de-semana teve lugar entre nós, veja-se que a percentagem de votos brancos (4,6%) é suficiente para “eleger” um deputado[3]; os eleitores portugueses além de não se darem ao incómodo de se deslocarem para votar, quando o fazem ainda demonstram um assinalável repúdio aos candidatos a sufrágio, tão grande que um dos lugares deveria ficar por ocupar.

Por tudo isto, os “cartoons” do holandês Joep Bertrams transmitem uma muito real imagem da farsa e do medonho fracasso em que se transformou o processo de funcionamento e governação da UE.
A indiferença dos eleitores não pode ser explicada apenas pela menor proximidade e pelo menor conhecimento do funcionamento do Parlamento Europeu, tem que ser procurada noutras razões; destas parece-me de salientar a evidente sobranceria dos políticos que persistem em querer fazer avançar um processo de profundas reformas contra a opinião e o sentimento da generalidade dos cidadãos europeus.
Se a classe política europeia estivesse verdadeiramente interessada na mobilização dos eleitores não teria enjeitado oportunidades de informar e promover verdadeiros debates sobre as perspectivas de futuro para a EU, como a que teve a propósito da aprovação do Tratado de Lisboa. Mas, quando por mera necessidade táctica de sobrevivência optou por se refugiar no argumento de que bastaria a aprovação de cada um dos parlamentos nacionais, agravou ainda mais o sentimento de que na realidade não pretendem mais que perpetuar-se num poder para cuja erosão estão a contribuir decisivamente.
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[1] Mais peremptório ainda foi o EXPRESSO que, logo no dia seguinte afirmava: «Vitória do PPE abre caminho à reeleição de Barroso»
[2] A confirmar esta realidade veja-se que em 1979 a taxa de abstenção foi de 38%, de 41% em 1984, de 42% em 1989, de 43% em 1994; em 1999 atingiu os 50%, os 55% em 2004 e os 57% este ano.
[3] Sobre esta questão da contagem dos votos em branco ver o “post” «PRECISARÁ A DEMOCRACIA OCIDENTAL DE SER REINVENTADA?».

