quarta-feira, 6 de julho de 2011

TARDIOS DESABAFOS


Quem hoje tenha folheado alguns jornais nacionais não deixou por certo de se espantar com tonitruantes declarações de personalidades habitualmente pouco dadas a este tipo de manifestações, a propósito de mais uma descida no “rating” da república. Faria de Oliveira, presidente do Conselho de Administração da CGD, citado pelo NEGÓCIOS, afirmou sem rodeios que «Descida do “rating” pela Moody’s é imoral e insultuosa» enquanto o I citou o presidente do Banco BIC dizendo que «Mira Amaral classifica descida de rating português como ”infeliz e terrorista”».


Mesmo admitindo que este novo corte de quatro níveis (ou com escreve o já citado I, «Moody’s atira Portugal para o “lixo”») possa ter chocado genuinamente aquelas duas personalidades, não deixa de não ser curiosa a constatação de algumas inexplicáveis coincidências. Um e outro são engenheiros de formação, ex-governantes dos tempos de Cavaco Silva e nenhum parece ter alcançado o posto de “banqueiro” pela sua formação académica ou prolongada carreira no meio financeiro; mas as coincidências não se ficam por aqui e além de correligionários políticos do actual primeiro-ministro não tenho memória de durante a vigência do anterior governo alguma vez os ter visto pronunciarem-se de forma tão assertiva sobre o assunto ou até de forma um pouco mais genérica, sobre a actuação das agências de “rating”, matéria habitualmente tabu no meio financeiro.

Embora um e outro entendam fundamentar as críticas em factos como o plano de recuperação negociado com o BCE e o FMI e a curta existência do actual governo, esquecem que além da dura realidade que constitui o apreciável aumento do endividamento em resultado daquele acordo (78 mil milhões de euros representam quase 50% do PIB nacional) e do excessivo endividamento privado (como muito bem se refere nesta notícia do NEGÓCIOS), a verdadeira preocupação da Moody’s e das restantes agências de “rating” não é tanto a situação portuguesa mas principalmente a prossecução da estratégia de ataque ao Euro, como parece referir o DN ao assegurar que «Moody’s ataca sempre antes dos leilões» da dívida pública.

Ofuscados pela miopia política (e principalmente preocupados pelos reflexos que terá a degradação o “rating” sobre a facilidade com que os respectivos bancos poderão obter novos financiamentos internacionais) aqueles reconhecidos especialistas nacionais bem que poderiam ter-se revelado mais comedidos e fazer como assegura o DN que «João Duque desvaloriza corte de 'rating' e confia em reviravolta nos mercados», estratégia que estaria muito mais de acordo com aquilo que todos eles realmente defendem – o primado do mercado e da livre concorrência – ou será que a regra apenas se aplica quando funciona em seu benefício?

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