quarta-feira, 5 de maio de 2010

A ERA DOS VULCÕES

Esta podia bem ser a forma como ficará para a História a turbulência que está a agitar a velha Europa.
Despoletada pelo eclodir da crise orçamental grega (economia da Zona Euro que primeiro sentiu os efeitos conjugados da crise económica global e da acumulação de elevados défices orçamentais), ampliada pela actuação especulativa originada em Wall Street e na City e tendo como objectivo final a moeda europeia, esta agitação resiste aos anúncios quase diários de novas medidas económicas.

É assim que após o anúncio pelo governo grego de medidas ainda mais restritivas e uma primeira aparente reacção positiva das bolsas, tudo voltou ao “normal” e os mesmos analistas e comentadores que aplaudiram as iniciativas governamentais para “salvar” a Banca são aqueles que agora, depois de terem apelado a idêntica atitude face ao “problema grego”, dizem que os problemas estruturais da economia helénica e da Zona Euro permanecem imutáveis. Por outras palavras, os especialistas que nunca revelaram a mínima preocupação com questões estratégicas ou de médio/longo prazo, como a necessidade de reestruturar o funcionamento das economias e dos mercados liberalizados, são aqueles que revelam agora tais preocupações e vêem invocar semelhante tipo de questões.

Se dúvidas houvessem quanto à real natureza da sua actuação e dos seus comentários, estarão respondidas com esta simples analogia.

Mas, como haverá quem continue a preferir acreditar no que ouve dizer do que naquilo que a lógica determina, a resposta definitiva àquela questão está para breve quando aos anunciados “vulcões” islandês, irlandês, grego, português, espanhol se juntarem o inglês e o americano.

Às próximas eleições na Grã-Bretanha e na Alemanha[1] e às quase seguras mudanças nas respectivas cenas políticas deverão seguir-se os anúncios da “descoberta” de novos e preocupantes valores para o endividamento público (com especial destaque para o caso da velha Albion cujo défice anual já ultrapassa os 12% do PIB) e uma mais que provável sucessão de novas quebras na cotação da Libra e do Euro e de subidas nas taxas de juro.


Esta previsão deriva de duas realidades diferentes – a óbvia influência das perspectivas de evolução política nos cenários económicos e nas expectativas dos investidores e da evidência de que a incerteza é o motor principal das transacções bolsistas e a fundamentação básica da especulação a elas associadas – e bem diversas das avaliações macroeconómicas que se possam fazer sobre os dados estatísticos nacionais. É por isso que a agitação especulativa que tem imperado sobre o Euro se mantém independentemente das declarações de técnicos e políticos sobre a situação das economias nacionais ou sobre a situação da moeda europeia.


Ao que tudo indica não será a tibieza da acção política da UE, seja ela originada na presidência da EU (função actualmente desempenhada pela Espanha), na presidência da Comissão Europeia (onde pontifica o “nosso” Durão Barroso) ou no Presidente da UE (lugar ocupado por Van Rompuy), que poderá contribuir para resolver uma crise que vai muito além dos limites (sejam eles de natureza física, sejam de natureza ideológica e funcional) da dimensão europeia e em especial da total ausência de união política.


Como em certa medida começa a ser crescentemente referido por alguns observadores
[2], o problema fundamental da UE não é o da fragilidade das economias de cada um dos seus estados-membros, mas o colossal erro que consistiu em ter lançado um processo de integração monetária sem o mínimo resquício de integração política e de harmonização fiscal.


E porque (lá reza a sabedoria popular) “um azar nunca vem só”, àquele erro há ainda que somar um outro, mais antigo, mais insidioso e de proporções ainda maiores: a entrega do poder de criação de moeda à iniciativa privada. Este facto, aparentemente tão simples, a par com a crescente pauperização das famílias conduziu a que os Estados passassem a financiar-se quase exclusivamente junto do sector financeiro o que ainda mais rapidamente originou que aqueles começassem a contrair novas dívidas para suportar os crescentes encargos.


Assim e na ausência de sinais que minimamente indiciem qualquer mudança de rumo, os problema de que padecem as moedas e as respectivas economias parecem sem solução consistente e duradoura; as medidas pontuais (como as que tardiamente foram tomadas relativamente à Grécia) mais não farão que minimizar momentaneamente as dificuldades, adiar e aumentar os respectivos custos e perpetuar um ciclo de enriquecimento que, depois de ter exaurido as famílias e de ter liquidado grande parte dos sectores económicos se prepara agora para destruir os Estados.
_________
[1] Em ambos os países se realizarão eleições no próximo fim-de-semana (eleições nacionais no caso inglês e regionais no caso alemão) e as sondagens prevêem resultados desfavoráveis aos partidos ou coligações no poder; os trabalhistas de Gordon Brown deverão ceder a maioria aos conservadores, embora seja difícil de prever a respectiva dimensão e haja mesmo quem preveja a formação de um Parlamento particularmente fraccionado, enquanto a coligação entre os alemães da CDU e do FDP enfrenta a forte probabilidade de perder o governo do estado da Renânia do Norte-Vestefália (o maior do país) para uma coligação liderada pelo SPD (sociais democratas).
[2] Entre estes cite-se o artigo recentemente assinado por Wolfgang Munchau, sob o título «A Europa tem duas opções: integrar-se ou desintegrar-se» publicado no ECONÓMICO.

Sem comentários: