sábado, 18 de setembro de 2010

MAIS NUVENS NEGRAS

Quando a meio da semana li no PUBLICO que «O problema da dívida pública foi o Lehman Brothers europeu» e que «Colapso do banco foi o rastilho para crise ainda sem fim», veio-me à memória o discurso que Ben Bernanke, o presidente do FED, proferiu no final do mês passado durante uma reunião anual daquele banco central e o recente anúncio do novo acordo de regulação bancária (Basileia III).
Coincidindo com o anúncio de um crescimento trimestral da economia norte-americana abaixo do esperado (1,6% contra os esperados 2,4%), Bernanke reafirmou, sem especificar, a disponibilidade do FED para assegurar o crescimento económico embora «...as projecções macroeconómicas continuem incertas e a economia permaneça vulnerável a desenvolvimentos inesperados»[1], deixando assim subentendida a previsibilidade de novo “mergulho” das economias, bem como a possibilidade de um novo pacote governamental de estímulos à economia e de nova iniciativa de refinanciamento da banca, já que a iniciativa de aquisição dos chamados “activos tóxicos” (TARP e outras iniciativas para facilitar a liquidez bancária) parece estar esgotada.
Além do claro sinal de que os senhores da finança mundial esperam tempos difíceis, a vacuidade do discurso do homem forte do FED apenas pode pressagiar que perante nova hecatombe financeira aquele banco central se prepara para repetir a solução aplicada sem grande sucesso aquando da falência do Lehman Brothers e confrontado com a insolvência do sistema financeiro se prepara para nova operação de injecção de liquidez, sem ter sequer compreendido a origem do problema e as limitações da solução.
Se tudo começou no facto das instituições financeiras terem usado até à exaustão os capitais de que dispunham em sofisticados e incompreendidos produtos financeiros e de nos seus balanços figurarem biliões e biliões de “papéis” de reduzido ou nulo valor, a solução preconizado por Bernanke e pelos seus pares consistiu apenas em trocar esses títulos por unidades monetárias que os bancos tiveram de devolver aos bancos centrais sob a forma de reservas para garantir a solvabilidade perdida.
As evidentes carências próprias e a necessidade de fazer crer ao público em geral que tudo corre bem (em caso contrário arrisca o bem conhecido fenómeno da corrida aos levantamentos) constitui uma das principais razões para o facto da banca em geral ter reduzido substancialmente o fluxo de financiamento às empresas que, criadas sem a adequada dotação de capitais próprios e habituadas a viver num ciclo de abundância de capitais alheios, vivem tempos cada vez mais difíceis e são obrigadas cada vez mais a entrar em processos de falência originando os conhecidos aumentos de desemprego e redução do crescimento económico.
Igualmente atingidos por este vórtice destrutivo são as finanças públicas que vêm reduzidos os valores cobrados em impostos (sobre o trabalho, por via do desemprego crescente, sobre a actividade empresarial, por via da contracção das vendas, e da destruição do tecido empresarial, por via das falências) e acrescidas as dificuldades na obtenção de empréstimos, seja pela redução directa da procura seja pelo aumento dos juros exigidos pelos compradores daquele tipo de dívida.

Não se creia, porém, que os grandes prejudicados têm sido os bancos, pois basta lembrar a forma como os seus lucros têm crescido para afastar semelhante ideia. Quem tem suportado este modelo financeiro e na realidade vive hoje pior que há uns anos atrás, são os cidadãos (em especial a enorme massa de trabalhadores por conta de outrém) dos Estados cujos bancos centrais se apressaram a socorrer a banca em risco de falência; além dos que viram esfumar-se as suas míseras poupanças aplicadas nos famosos fundos de pensões e outros esquemas ilusionistas, ou viram as empresas onde trabalhavam reduzir a actividade e encerrar por falta de encomendas ou por os seus accionistas terem decidido deslocalizar a produção para países com mão de obra ainda mais barata e dócil, também os que mantém os seus postos de trabalho enfrentam os aumentos de impostos, decretados pelos governos ávidos de aumentarem as receitas fiscais e de agradarem aos investidores (maioritariamente os bancos e demais empresas financeiras), e todos a redução das políticas sociais decididas pelos governos, ainda e sempre, em nome da necessidade de redução dos défices públicos.
Nem se espere do novo quadro de regulação bancária, conhecido por Basileia III, a solução para os desmandos que originaram o avolumar da crise em 2008, que demorou dois anos a surgir e mantém inalterado o que de pior se pratica no mundo da finança, pois além de manter o princípio da reserva fraccionária (até o agravamento da taxa mínima de capital – TIER 1 – ficou aquém do esperado) e reservar a capacidade de criação de moeda à esfera privada, também nada faz para eliminar os offshores, o que reduz a quase zero as tentativas para introduzir mecanismos de controlo efectivo da actividade mais especulativa.

[1] A citação foi traduzida do referido discurso, que pode ser lido na íntegra aqui.

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