Embora não tenha havido publicação que hoje não referisse a entrevista que o primeiro-ministro ontem à noite deu à RTP, nenhuma respondeu à mais candente das perguntas: terá o país parado para o ouvir?
Facto ou ficção, a realidade é que nas últimas semanas graças ao “caso da licenciatura” e ao “caso da Universidade Independente” a questão nacional que é a construção do aeroporto na Ota deixou de merecer atenção. Ninguém mais se interrogou sobre a enormidade que será gastar 3 mil milhões de euros na construção de uma infraestrutura que à partida padece de limitações de natureza física (o local escolhido inviabiliza qualquer hipótese de expansão futura) e levanta inúmeras questões de natureza operacional, das quais as menores poderão ser o regime de ventos e de condições para a regular formação de bancos de nevoeiro.
Para o melhor e para o pior, “alguém” conseguiu pôr o país a discutir questões da máxima relevância como:
1. o número de cadeiras que um aluno fez para concluir uma licenciatura;
2. a qualidade do plano de equivalências que foi elaborado pela universidade onde se licenciou;
3. se o aluno frequentava as aulas ou não;
4. quais foram os professores que leccionaram as respectivas cadeiras;
5. a data de conclusão da licenciatura;
e muitas outras que a pouca atenção que tenho prestado ao caso não me permitem agora citar.
Em contrapartida questões comezinhas como a correcta estruturação de uma rede nacional de transportes foram varridas para o limbo da memória colectiva.
Para quem duvide da existência de uma estratégia concertada (ou pelo menos do pronto aproveitamento de um “fait divers”) recomendo a leitura de uma notícia do DN que dá conta que ontem, na reunião da Comissão Parlamentar de Obras Públicas, o ministro que tutela aquela pasta, Mário Lino, reconheceu a necessidade de recorrer ao aproveitamento de outra infraestrutura aeroportuária existente afim de enfrentar o esgotamento do aeroporto da Portela antes da conclusão da Ota. Mas a notícia vai longe quando informa que aquele governante foi mais longe, ao afirmar que «...a opção pela chamada Portela mais um, deverá avançar, não como alternativa à Ota, mas como solução de recurso transitória até esta nova infra-estrutura estar operacional».
A cronista não o especifica, mas ninguém, entre a nata dos parlamentares portugueses, terá questionado o ministro sobre um ponto fundamental deste seu plano: se criar uma nova estrutura aeroportuária complementar à Portela como espera vir a “obrigar” as “low cost” a abandoná-la em detrimento da Ota quando esta estiver pronta?
Porque será que a esmagadora maioria dos políticos e parlamentares nacionais raramente levantam as questões verdadeiramente determinantes?
Será por puro desconhecimento? Ou, mais prosaicamente, porque o objectivo último da sua existência não é o serviço da coisa pública mas sim o de mesquinhos interesses políticos, ou pior, o de interesses que almejam vultuosos lucros dos negócios “gerados” pelos políticos?
Se tiverem dúvidas sobre alguns dos muito vastos interesses que rodeiam a questão da Ota consultem a informação disponível no endereço MAQUINISTAS.ORG, leiam, ou releiam a generalidade das intervenções políticas a favor e contra a Ota (mesmo estas não colocam em dúvida a necessidade de construir um novo aeroporto e assim contribuir para o aumento dos lucros das empresas de construção) e vejam se existem ou não fortes razões de natureza técnica e económica para defender a aplicação de um outro modelo de solução que passe pela ampliação da Portela (reservando-a para os voos intercontinentais) e pela abertura de um aeroporto de menores dimensões para os voos intracomunitários (que a breve trecho serão um quase exclusivo das “low cost”).
Pesem os custos financeiros das duas alternativas e retirem as vossas próprias conclusões!
A vitimização é uma arma política emergente.
ResponderEliminarO português gosta de se vitimizar. Os portugueses são sempre solidários com quem se vitimiza. As teses de perseguição, mesmo que infundadas, potenciam estranha admiração na sociedade portuguesa: foi assim com Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro e Isaltino Morais. José Sócrates é o senhor que se segue.
Embora entenda o seu raciocínio (e a frequente utilização dessa técnica, creio que no caso vertente trata-se mais de uma estratégia orientada para a "criação" de um facto político com o objectivo de escamotear outro bem mais relevante - o debate sobre a real necessidade de uma estrutura faraónica como um novo esroporto internacional.
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